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Parem a máquina de matar! Kathlen é morta!!! (Por Thiago Amparo)

Se a minha filha fosse morta por bandido eu não falaria nada com vocês porque eu sei que eu moro em um lugar que eu não poderia falar. Então ficaria na minha. Mas não foi. Foi a polícia que matou a minha filha. Foi a PM que tirou a minha vida, o meu sonho“, Desabafo da mãe de Katlen Romeo, assassinada pela Polícia do Rio de Janeiro. Ela se junta a outras centenas de pessoas, a grande maioria negras, assassinadas pela máquina de matar em que se tornaram as Polícias.

Ainda não secaram todas as lágrimas de familiares dos 28 jovens chacinados pela Polícia no RJ no Jacarezinho um mês antes e novo assassinato cometido pela Polícia se torna Público.

Na última terça-feira (8), uma ação policial que aconteceu no Complexo do Lins, na Zona Norte do Rio de Janeiro, terminou com a morte de Kathleen Romeu, de apenas 24 anos e que estava grávida de quatro meses do seu primeiro filho. De acordo com Jaqueline de Oliveira Lopes, mãe da vítima, o disparo veio da polícia. O assunto está tomando conta das redes sociais.

A Máquina de Matar que estava ali, operando sempre, mas de forma mais sorrateira, foi acelerada e incentivada a produzir mais mortos com a eleição de Bolsonaro e seus capangas, como Witzel, para cargos de mando.

Reproduzo a seguir um contundente artigo de Thiago Amparo, Advogado e Professor de Direito Internacional da FGV, publicado na Folha de São Paulo.

Pare a máquina, Kathlen é morta

Ela foi morta em confronto, porque morticínio não é confronto, é barbárie

por Thiago Amparo

Parem as máquinas, pois Kathlen Romeu é assassinada. Assim mesmo: no tempo presente. Eu me recuso a escrever sobre mortes negras no passado, porque vivemos num grande presente a se repetir e repetir; no qual o futuro é uma obra afrofuturista. Ser negro no Brasil é viver uma constante dissonância cognitiva: nosso corpo está aqui e agora, mas contra esse corpo é aplicada, e reaplicada, a mesma tortura há séculos.

Kathlen Romeu, 24 anos, grávida de quatro meses, não foi morta em confronto, porque morticínio não é confronto, é barbárie. Kathlen Romeu não foi alvo de bala perdida, porque a bala é sempre certeira contra os mesmos endereços e a mesma cor: 700 mulheres foram baleadas no RJ desde 2017; sendo 15 delas grávidas, como Kathlen; dez bebês foram baleados ainda na barriga da mãe, segundo dados do Fogo Cruzado.

O que está em curso no RJ é, tecnicamente, genocídio: destruição intencional de um grupo étnico-racial. E quero que vá às favas quem ache que isso seja calunioso, posto que falso não é: governo e polícias do Rio de Janeiro têm as mãos sujas do sangue que derramam. Qual democracia sobrevive após ser esmagada pela queda do corpo que nunca pesa? Por que coisificamos mortes negras em mais um post preto e as transformamos em códigos de desconto?

Eu me recuso a me tornar um cronista do luto: quero vasculhar bem no fundo da nossa dor à procura de força para construirmos, juntos, um mundo onde Kathlens possam existir e bem viver. O luto há de virar luta. Ou as instituições, que permitem o genocídio negro, implodirão, ou morreremos esperando pelas migalhas da piedade a cada nova morte. Não é fato isolado. Há um exército inteiro a prender inocentes nas esquinas, a pôr policiais (em sua maioria negros como Leandro Martins) numa guerra sem sentido.

Toda morte é política, porque fomos nós, a pólis, que produzimos o governo da morte. Que o incendiemos. Parem a grande máquina do mundo, pois Kathlen não sorri mais.

Thiago Amparo
Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste), escreve sobre direitos e discriminação.

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