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O Bolsa Família, as portas e o outro mundo possível

Muitos tem falado sobre a necessidade  do que chama de uma “porta de saída” para os beneficiários do Bolsa Família. Se referem a necessidade destas pessoas terem uma inserção produtiva na sociedade. Há que se considerar porém, que o valor pago pelo Bolsa Família (R$ 32,00 por filho, até o limite de 5) não sustenta famílias. Então, parcela significativa destes(as) beneficiários(as) está inserido em um mercado informal, fazendo bicos. Estes bicos, por incertos e sem horário fixo, acabam impedindo estas pessoas de acessarem cursos de capacitação, que poderiam lhes dar uma empregabilidade formal com todos os direitos que a legislação garante para os “formais”, seja os de Carteira assinada, seja os que se registram como autônomos ou MEI. Há ainda que se considerar que parcela significativa dos beneficiários do Bolsa Família são mulheres e que na maioria dos casos são também c”chefes de família”. Além dos “bicos” que tem que fazer como provedoras da sua família,estas mulheres tem filhos para cuidar. A Sociedade e a opinião pública os querem se dirigindo para a “porta de saída”. Esta porta aliás, esta bem próxima, já que em muitos setores da economia, como na Construção Civil, asseio e conservação e outras, há possibilidade de empregabilidade imediata para esta população que invariavelmente tem baixa escolaridade. O que separa estas pessoas da porta, mnuitas vezes parece ser apenas um cuyrso de capacitação profissional que pode ser ministrado em 200 horas aula. Parece simples, mas temos que levar em conta a necessidade imediata (prover a família e cuidar dos filhos). Assim a solução não passa só pelo oferecimento de cursos através do Sistema S, como é o caso do PRONATEC, ou outras possibilidades de qualificação oferecidas através de cursos do MTE. Há que se construir uma rede de acompanhamento para estes beneficiários dos programas sociais d o governo. Assim, além da oferta do Curso em si, é preciso que as prefeituras, através da Assistência Social, façam um processo de sensibilização dos beneficiários, sobre a vantagem desta “alteração de status” entre o mundo da sobrevivência e do imediato,  e o mundo do trabalho organizado, formal  e da acumulação.  Esta sensibilização pode ser feita durante a aferição das condicionailidades, por exemplo do Bolsa Família. E é melhor que seja coletiva e rápida, já que a sensibilização individual leva tempo e o período necessário para constituir turmas para a qualificação e capacitação faz com que muitos acabem desistindo já neste período, em razão dos bicos destinados a subsistência. Garantida a adesão ao processo de capcitação e qualificação, há que garantir também junto ao empresariado a contratação destes que vão se capacitar. Para tanto, é necessário que os cursos oferecidos dialoguem com as demandas do mercado de trabalho, seja aquele da Carteira Assinada, seja a demanda por serviços que podem ser oferecidas através de trabalho autônomo, individual ou coletivo. O período entre a inscrição e início do curso, pelas razões já citadas tem que ser o mais curto possível. Iniciado o curso, há que ter acompanhamento direto da rede de Assistência Social do Município, dentro e fora da instituição de qualificação profissional, para constatar possíveis soluções para problemas que surjam, como creche ou brinquedoteca para os filhos das mulheres que freqüentam os cursos,  pressão de maridos com cultura machista que não querem “suas” esposas trabalhando, alimentação (cesta básica) para não haver  a necessidade de no período do curso a pessoa ter que abandonar o curso para fazer “bicos” e outras pressões sociais que este público sofre. A pressão da mídia e de parcela da sociedade influenciada pela opinião midiática ou cutural, é pela pronta inserção na formalidade. No entanto os obstáculos que existem entre o curto espaço existente entre o Bolsa Família e a sua “porta de saída” é cosntituido de obstáculos interpostos pela cultura vigente. Para removê-los há que se ter instrumentos adequados, mas principalmente cabeça aberta para recebê-las. Não basta abrir a porta. É necessário mostrar o mundo que há por trás desta porta, e que não é conhecido para a maioria dos beneficiários do Bolsa Família. Para que isto ocorra, só a ação de qualificação, ministrada pelo Sistema S, que tem a experiência  para tanto, não é o suficiente. Ensinar as coisas do mundo do trabalho e da acumulação para quem vive em outro mundo, o da subsistência e da sobrevivência imediata, não é o suficiente. É preciso montar a rede de acompanhamento citada, com a área da assistência social, qualificação profissional, trabalho e desenvolvimento econômico, para podermos chegar ao bom termo da inclusão destes que hoje estão “incluídos fora” do nosso mundo. Acompanhei a implementação do Programa Próximo Passo – Costrução Civil, destinado a qualificar beneficiários(as) do Bolsa Família. Das formandas (por que a grande maioria foram mulheres), a empregabilidade foi de 90%. Mas o que narro nestas linhas foi um aprendizado prático. Até compreendermos que havia a necessidade de um acompanhamento das redes de assistência, de envolvimento de outros setores da sociedade, muitos dos inicialmente inscritos evadiram das salas de aula ou nem sequer começaram os cursos. O fato é que empresários que se envolveram no processo ficaram satisfeitos e estão dispostos a continuar. é preciso pois, que todos nos engajemos para que as portas não sejam só abertas, mas que se diga para que mesmo elas servem a quem até agora não passou por elas.

 

Luiz Müller


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4 pensamentos sobre “O Bolsa Família, as portas e o outro mundo possível

  1. Parabéns por esta matéria magnífica! Estou emocionada com sua capacidade de pensar, observar e oferecer soluções.
    “…Até compreendermos que havia a necessidade de um acompanhamento das redes de assistência, de envolvimento de outros setores da sociedade,”

    Chegaremos antes até do imaginado, ao Brasil que desejamos,
    o Brasil de e para todos os Brasileiros de coração.

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    • É isto aí Carmen

      Esta é uma ação que depende de muitos atores e não só do governo. Mas precisamso que cada ator entenda seu papel nisto e também as consequencias que a cultura do mundo capitalista produziu na mente nas pessoas nestes ultimos anos. ´´E preciso que a própria corporação da assist~encia social compreenda que seu papel val para muito além do tal assistencialismo e sim passa por fazer assistência integral e continua para este povo que nem sabe das portas e muito menos o que tem por trás delas.

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  2. Boa noite! sou professora de escola pública.Quero dizer que o programa bolsa família é muito bom para ajudar as pessoa carentes. No entanto, em nada está contribuindo na educação das crianças. Pois exige apenas presença na escola, mas não exige bom desempenho dos alunos. Ou seja, a maioria dos alunos vão para a escola apenas para nao perder o bolsa familia, ou seja, só por causa da presença. Mas não querem estudar, vão só bagunçar e marcar presença por causa do benefício. E assim a educação continua do mesmo jeito no Brasil.SEgue uma sugestão:
    A educação melhoraria um pouco se além da presença, o programa bolsa familia exigisse boas notas dos alunos, bom aprendizado, ou seja se mensalmente cada professor relatasse por meio de documento o desempenho e interesse do aluno nas aulas. E se o aluno ficasse reprovado suspenderia o bolsa família até que ele recuperasse. Desta forma as famílias teriam mais responsabilidades sobre seus filhos e alem de mandá-los para escola, cobraria a aprendizagem dos mesmos. Pois muitos alunos relatam que só vão a escola porque a mae obriga por causa do bolsa família, mas que não participam das aulas, só vão bagunçar e atrapalhar as aulas e até praticar violência. POr favor vejam e estudem a possibilidade de aderir esta sugestão. Obrigada.
    Maria Aparecida.

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    • Maria Aparecida

      Aprendizagem é um termo que esta contido na LDB. Estas mães, que são titulares dos cartões Bolsa Família, muitas vezes foram alijadas das escolas. As vezes elas são filhas de quem também esteve alijado das escolas, Por causa deste alijamento, acabaram também excluídas da cidadania e do mundo do trabalho. O Bolsa Família é um instrumento para fazer com que estas pessoas e famílias possam acessar o que lhes foi proibido até período recente. As condicionalidades, como a presença em sala de aula, dos filhos, a vacina, o acompanhamento da gestação e também da criança após o nascimento são instrumentos importantíssimos. E eles cumprem. Agora, é preciso se perguntar se a escola se adequou para receber este público. Aprendizagem ocorre na escola e é atribuição dela. A família deve participar. E as famílias beneficiárias do Bolsa, estão participando, ao manter os filhos na escola. Cabe a sociedade compreender e a escola ajudar a processar o conhecimento, aprender a linguagem deste povo e traduzir em linguagem compreensível, a aprendizagem necessária para que estes que viveram a margem da sociedade e da escola, possam compreender. Senão, será monólogo de um lado e de outro. Será mesmo que aquilo que tu entendes por “bagunça” não seria rebeldia contra algo que não cabe na cultura dos que supostamente “bagunçam”? Engraçado: Quando nós nos rebelávamos em sala de aula, fazíamos greve e gritávamos palavras de ordem contra a ditadura militar, também eramos acusados de “bagunceiros”, quando não, de “anti patriotas”. Exigir “boas notas” dos filhos, para que os pais possam receber Bolsa Família? Não é isto uma contradição sobre o que tu mesmo falas, de que as crianças “só vão para a aula para que a família possa receber o bolsa”? Com esta tua posição, tu jogas sobre as crianças a responsabilidade da manutenção financeira das suas famílias. Se não conseguir boas notas, seria condenado pela escola à rodar e pela família, por não mais garantir o Bolsa. Uma responsabilidade que não deve ser atribuída a crianças. Mas há algo exigível para a escola: o de garantir a aprendizagem necessária para que estas crianças que vem de um mundo onde a escola não foi permitida a pais e avós, possa servir para acessar este mundo onde a “nota alta” que mencionas seja possível a todos, e não só aos que são filhos e netos de quem sempre frequentou escolas.

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