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O Programa Bolsa Família, a Inclusão Produtiva e as portas do outro mundo possível

Muitos tem falado sobre a necessidade  do que chama de uma “porta de saída” para os beneficiários do Bolsa Família. Se referem a necessidade destas pessoas terem uma inserção produtiva na sociedade. Há que se considerar porém, que o valor pago pelo Bolsa Família(Média de R$ 148,00 por família e não por pessoa) não sustenta famílias. Então, parcela significativa destes(as) beneficiários(as) está inserido em um mercado informal, fazendo bicos. Estes bicos, por incertos e sem horário fixo, acabam impedindo estas pessoas de acessarem cursos de capacitação, que poderiam lhes dar uma empregabilidade formal com todos os direitos que a legislação garante para os “formais”, seja os de Carteira assinada, seja os que se registram como autônomos ou MEI. Há ainda que seconsiderar que parcela significativa dos beneficiários do Bolsa Família são mulheres e que na maioria dos casos são também ”chefes de família”. Além dos “bicos” que tem que fazer como provedoras da sua família, estas mulheres tem filhos para cuidar. A Sociedade e a opinião pública os querem se dirigindo para a “porta de saída”. Esta porta, aliás, esta bem próxima, já que em muitos setores da economia, como na Construção Civil, asseio e conservação, supermercados e outras, há possibilidade de empregabilidade imediata para esta população que invariavelmente tem baixa escolaridade. O que separa estas pessoas da porta, muitas vezes parece ser apenas um curso de capacitação profissional que pode ser ministrado em 200 horas aula. Parece simples, mas temos que levar em conta a necessidade imediata que estas pessoas tem (prover a família e cuidar dos filhos). Assim a solução não passa só pelo oferecimento de cursos através do Sistema S, como é o caso do PRONATEC BRASIL SEM MISÉRIA. Há que se construir uma rede de acompanhamento para estes

beneficiários dos programas sociais do governo. Assim, além da oferta do Curso em si, é preciso que as prefeituras, através da Assistência Social, façam um processo de sensibilização dos beneficiários, sobre a vantagem desta “alteração de status” entre o mundo da sobrevivência e do imediato,  e o mundo do trabalho organizado, formal  e da acumulação.  Esta sensibilização pode ser feita durante a aferição das condicionalidades, por exemplo do Bolsa Família. E é melhor que seja coletiva e rápida, já que a sensibilização individual leva tempo e o período necessário para constituir turmas para a qualificação e capacitação faz com que muitos acabem desistindo já neste período, em razão dos bicos destinados a subsistência. Garantida a adesão ao processo de capacitação e qualificação, há que garantir também junto ao empresariado a contratação destes que vão se capacitar. Para tanto, é necessário que os cursos oferecidos dialoguem com as demandas do mercado de trabalho, seja aquele da Carteira Assinada, seja a demanda por serviços que podem ser oferecidas através de trabalho autônomo, individual ou coletivo. O empresariado também precisa estar cônscio de que exigir escolaridade maior do que aquela que de fato determinada profissão demanda, pode ser impeditivo da contratação destes trabalhadores e, em muitos casos, inclusive o não preenchimento de vagas de emprego abertas e imprescindíveis a continuidade do trabalho da empresa.  O período entre a inscrição e início do curso, pelas razões já citadas tem que ser o mais curto possível. Iniciado o curso, há que ter acompanhamento direto da rede de Assistência Social do Município, dentro e fora da instituição de qualificação profissional, para constatar possíveis soluções para problemas que surjam, como creche ou brinquedoteca para os filhos das mulheres que frequentam os cursos,  pressão de maridos com cultura machista que não querem “suas” esposas trabalhando, alimentação (cesta básica) para não haver  a necessidade de no período do curso a pessoa ter que abandonar o curso para fazer “bicos” e outras pressões sociais que este público sofre. A pressão da mídia e de parcela da sociedade influenciada pela opinião midiática ou cultural, é pela pronta inserção na formalidade. No entanto os obstáculos que existem entre o curto espaço existente entre o Bolsa Família e a sua “porta de saída” é constituído de obstáculos interpostos pela cultura vigente. Para removê-los há que se ter instrumentos adequados, mas principalmente cabeça aberta para recebê-las. Não basta abrir a porta. É necessário mostrar o mundo que há por trás desta porta, e que não é conhecido para a maioria dos beneficiários do Bolsa Família e do público em situação de extrema pobreza. Para que isto ocorra, só a ação de qualificação, ministrada pelo Sistema S, que tem a experiência  para tanto, não é o suficiente. Ensinar as coisas do mundo do trabalho e da acumulação para quem vive em outro mundo, o da subsistência e da sobrevivência imediata, não é o suficiente. É preciso montar a rede de acompanhamento citada, com a área da assistência social, qualificação profissional, trabalho e desenvolvimento econômico, para podermos chegar ao bom termo da

inclusão destes que hoje estão “incluídos fora” do nosso mundo. Acompanhei a implementação do Programa Próximo Passo – Costrução Civil, destinado a qualificar beneficiários(as) do Bolsa Família. Das formandas (por que a grande maioria foram mulheres), a empregabilidade foi de 90%. Mas o que narro nestas linhas foi um aprendizado prático. Até compreendermos que havia a necessidade de um acompanhamento das redes de assistência, de envolvimento de outros setores da sociedade, muitos dos inicialmente inscritos evadiram das salas de aula ou nem sequer começaram os cursos. O fato é que empresários que se envolveram no processo ficaram satisfeitos e estão dispostos a continuar. é preciso pois, que todos nos engajemos para que as portas não sejam só abertas, mas que se diga para que mesmo elas servem a quem até agora não passou por elas.

Luiz Müller

Diretor de Inclusão Produtiva

Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome


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3 pensamentos sobre “O Programa Bolsa Família, a Inclusão Produtiva e as portas do outro mundo possível

  1. Prezado Luiz,
    Li o seu artigo e me senti aliviada em saber que a condução de tão grande “empreitada” está nas mãos de um profissional com sensibilidade para entender, como Shakespeare, que “existem mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia.” Tenho alguns anos de caminhada atuando em programas de inclusão produtiva como mentora, executora e atualmente pesquisando metodologias de capacitação e sempre acreditei que o esforço para a inclusão produtiva deve integrar ações dos diversos setores, principalmente, do poder público e empresarial. E o que pode tornar esta integração um diferencial é desenvolver uma metodologia que possa atender as diversas dimensões inerentes ao nosso público alvo. É muito mais que trocar o pneu do carro com ele andando. Temos que ter em mente que além do pneu furado, o óleo e a gasolina estão prestes a acabar e temos que ter o cuidado e agilidade para não deixar o carro parar, por que pegar no tranco depois, fica muito mais difícil. Defendo que um caminho possível é possibilitar a estas pessoas acessar, ao máximo, as ações necessárias para superarem os limites que lhe foram impostos pela sua condição de vida como: baixa autoestima, baixa qualificação, baixa escolaridade, pouca renda e entre outros, já citados em seu artigo. Não basta só qualificar, os programas devem criar condições para que estas pessoas possam sonhar e desejar um mundo melhor por meio do trabalho. Se as ações públicas forem desvinculadas, partilhadas com certeza os resultados também serão. Participei de uma experiência em BH de estruturação de uma unidade produtiva capaz de promover o aprendizado simultâneo à produção e comercialização de um produto previamente articulado pelos gestores do programa da sua rede de relacionamento. Acho que foi uma alternativa interessante para resolver o problema do imediato ganho, da flexibilização dos horários (por causa dos afazeres domésticos) e da mobilidade, a unidade era próxima às moradias construídas com os recursos do PAC. As mulheres foram capacitadas e a partir do momento que se sentiam preparadas psicologicamente e profissionalmente foram a procura de trabalho, abrindo novas oportunidades para outras mulheres. As que continuaram a ter problemas como doentes na família, filhos pequenos, idade avançada ficavam na fábrica para a produção de roupas hospitalares e da construção civil, além de apoiar as demais que entravam na unidade.
    Sucesso na empreitada para transformar o BSM em mais um modelo de superação da pobreza.
    Abçs,
    Beth

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    • Obrigado Beth

      É disto mesmo que se trata. Através do programa Brasil Sem Miséria, estamos construindo a transversalidade necessária das políticas públicas para atender esta população. Sabemos no entanto, que desenvolver esta transversalidade para a escala pretendida não é uma tarefa fácil. Estamos fazendo o possível para que ela seja o caminho para a Erradicação da Extrema Pobreza no nosso país. Opiniões como a tua são importantíssimas para nos mantermos no rumo, mesmo quando surgem resistências culturais a transversalidade que é solução para este público, mas também solução para o conjunto da sociedade.
      Obrigado. Abraço

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  2. Pingback: O Bolsa Família e seus inimigos « Luizmuller's Blog

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