Uncategorized

Filhos da mentira não acreditam na verdade (Sobre a tortura e a ditadura no Brasil)

ditadruan

Do Blog Ficha Corrida

A diferença que faz sentido na comparação levantada pela articulista da Folha não foi dita por razões óbvias. Ela é funcionária da Folha. Então vamos lá. A tortura nos EUA ocorreu na democracia, com liberdade de imprensa. No Brasil, além de terem ocorrido durante uma ditadura que, por razões óbvias, é decorrência natural do regime, há o agravante da participação da imprensa. Como revelou a Comissão Nacional da Verdade, a Folha de São Paulo não só apoiou ideologicamente, mas também financiou com dinheiro vivo e na logística. É mais do que conhecido o episódio das peruas que, ao invés de distribuírem jornais, faziam o transporte clandestino de presos capturados clandestinamente. Uma vez presos sem ordem judicial, eram levados para o pau-de-arara, torturados, estuprados, mortos e esquartejados e as partes eram distribuídas por valas comuns, também clandestinas, para que os familiares não pudessem identificar seus entes queridos. Por isso a Folha diz ainda hoje que não foi uma ditadura mas uma ditabranda

Como que a população poderia e pode ficar contra a tortura se não só não era informada como quem deveria informar fazia parte do esquema? É bom lembrar que o jornal O Globo saudou a chegada da ditadura em editorial. Todas as cinco irmãs (Globo, Folha, Veja,Estadão & RBS), que agora atuam sob coordenação do Instituto Millenium, cresceram com a ditadura. Coincidentemente, junto com as grandes empreiteiras que agora foram pegas na Petrobrás.

O apoio que a ditadura ainda tem no Brasil se deve a dois grupos distintos mas complementares: uma simbiose entre  os mal informados e os mal intencionados.

Atribuir às forças de segurança a culpa pela existência da tortura nos dias de hoje é uma forma abjeta de retirar dos verdadeiros culpados a responsabilidade. Afinal, quem é responsável pelas forças de segurança? Os governos estaduais. Quando grupos como a Rede Globo, Folha, Estadão e RBS apoiam as atitudes das forças de segurança contra a população em geral e os movimentos sociais em particular, vê-se que o policial é apenas um executor de uma ordem explícita ou implícita que vem bem distribuídas entre os ocupantes do Poder de Estado e os meios de comunicação. Há um registro do comportamento de Arnaldo Jabor que mostra até que ponto uma pessoa pode descer o nível da mediocridade e ignorância. Quantos veículos de comunicação condenam as atitudes da Rachel Sheherazade? Onde mesmo trabalhava e trabalha Luis Carlos Prates?

No RS a RBS fez algo ainda mais patético. Quando o agricultor Elton Brum foi assassinado pelas costas, a Zero Hora defendeu o assassinato com uma manchete para lá de sintomática: MST ganha seu mártir” (link: página 4 da edição de 22/08/2009). E, pior foi a emenda, quando abre à matilha de seguidores algo do tipo:Quem cometeu o maior equívoco no episódio da Fazenda Southal, quando morreu um agricultor: a BM ou o MST?” Veja, “assassinar” pelas costas virou equívoco. Força de segurança é para dar segurança, não para atirar pelas costas.

Portanto, a diferença de reação entre o público norte-americano e o brasileiro em relação aos abusos do Estado muito se deve à diferença de tratamento pelos meios de comunicação aos abusos policiais. Como sempre, o jornalismo de aluguel joga na cara da própria vítima (“o povo ainda abraça a ‘mão dura”). Basta ver quem era o candidato queridinho da imprensa e que pregava a menoridade penal como forma de resolver o problema da violência. Por que não culpam quem vê na violência a solução da violência?! Coincidentemente, era o mesmo candidato que dirigia bêbado e, por isso teve a “carteira de habilitação apreendida”, e, quando secretário do avô, se autoconcedeu uma “carteira de policial”.

Há também uma boa dose de hipocrisia sempre que um assunto como este envolve os EUA. Há sempre um certa condolência, uma comiseração dos puxa-sacos de plantão em relação ao grandão irmão do norte. O escritor chileno Ariel Dorfman já em 2009 denunciava as torturas da CIA. Será que a NSA, do Edward Snowden, não grampeava a CIA?!

JULIA SWEIG

Tortura no Brasil e nos EUA

O que chama a atenção após os relatórios nos dois países é a diferença de reação do público a abusos do Estado

Na semana passada, quando relatórios sobre tortura vieram a público no Brasil e nos EUA, os poucos observadores que tomaram nota de sua divulgação quase simultânea constataram os aspectos positivos da simetria: duas democracias grandes, cada uma delas com a força necessária para encarar seu lado sombrio.

No caso americano, o relatório do Senado trata da tortura de estrangeiros cometida por americanos. O relatório da Comissão Nacional da Verdade focaliza brasileiros torturando brasileiros. Mas ambos examinam uma política do Estado possibilitada pelos escalões mais altos de seus respectivos governos. E as comparações param por ali, quase.

Para começar, um resumo dos números. De acordo com o relatório do Comitê de Inteligência do Senado, 119 detentos foram encarcerados em prisões secretas, sendo 39 deles torturados por funcionários e contratados a serviço da CIA. Três deles foram submetidos ao “waterboarding”, tendo sido quase afogados. Cinco deles que recusaram alimentos ou água foram sujeitos a um experimento chamado “reidratação retal”. Quarenta e sete ficaram detidos por mais de um ano, e 26 não satisfizeram os critérios para detenção definidos pela própria CIA.

A categorização feita pela Comissão Nacional da Verdade não é análoga, mas nos dá um senso da escala. Agentes do Estado identificados como responsáveis por violações graves: 377. Desaparecidos e mortos oficialmente confirmados, 434; mortos, 191; desaparecidos, 243; e o número citado pela comissão de brasileiros torturados durante o Estado Novo pode ter alcançado espantosos 20 mil.

O que talvez chame mais a atenção é o contraste nas reações aos dois relatórios. Nos EUA, geralmente somos melindrosos em relação ao próprio uso da palavra “tortura”. Algumas pessoas a colocam entre aspas. É mais frequente ouvir o eufemismo “técnicas de interrogatório aumentadas”. Outros se colocam claramente na defensiva, protestando que, depois do 11 de Setembro, a CIA estava desesperada para prevenir um novo ataque. Ainda outros adotam uma postura agressiva de apoio; Dick Cheney disse aos americanos no domingo passado que “faria tudo de novo em um minuto”.

Temos ao menos um “falcão” republicano, John McCain, implorando a seu partido que leia o relatório e pregando o mantra do “nunca mais” de alguém torturado como prisioneiro de guerra no Vietnã.

A defesa da senadora democrata Dianne Feinstein, que impeliu o relatório, o ultraje diante da imoralidade e ilegalidade da tortura e o problema de responsabilização (“accountability”) da CIA têm sido palpáveis e implacáveis, pelo menos entre os democratas que não são candidatos à Presidência.

Mas minha pesquisa superficial sobre as reações no Brasil ao trabalho histórico (embora atrasado) da CNV revela algo quase blasé. Nada de aspas. Nada de eufemismos. Por quê? A tortura por parte das forças de segurança brasileiras ainda é comum. O público ainda abraça a “mão dura”. Deixando essas diferenças de lado, ambas as sociedades vão agora enfrentar a questão da impunidade.

@JuliaSweig

Um pensamento sobre “Filhos da mentira não acreditam na verdade (Sobre a tortura e a ditadura no Brasil)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s