Chorei. Chile campeão pela primeira vez em 105 anos. (Não vi o jogo ao vivo. Estava no aniversário do companheiro e amigo Nadir Savoldi, de Rodeio Bonito, Rio Grande do Sul. Mas fiz questão de vê-lo inteiro no domingo.) Chorei pelo Estádio Nacional, o mesmo Estádio que serviu de campo de concentração para a ditadura de Pinochet, de setembro a novembro de 1973, com 318 assassinatos de militantes políticos e passagem por lá de 40 mil presos políticos. (A desocupação do Estádio aconteceu porque havia um jogo de repescagem para a Copa de 1974 entre Rússia e Chile. A Rússia negou-se a jogar no Estádio Nacional. Quatro jogadores chilenos trocaram nove passes e marcaram um gol. A Rússia foi desclassificada, e assim o Chile classificou-se para a Copa de 1974.) O mesmo estádio que hoje, em memória, tem um setor de arquibancadas de madeira em vez de plástico, com um letreiro: “Um povo sem memória é um país sem futuro.” Chorei quando vi a presidenta Michele Bachelet, cujo pai foi preso político e morreu na prisão, e ela mesma presa, torturada e exilada, La Bachelet vibrando com seu Chile campeão, Chi, chi, chi, le le, le, como cantam lindamente chilenas e chilenos. O mesmo Chile que, em 1988, em plebiscito, disse NO ao general Pinochet e assim, com o voto popular, acabou a ditadura.
Chorei de novo (sou um chorão, muitos sabem) e dei um soco no ar quando soube no final da tarde de domingo que o OXI, o NÃO fora vencedor no plebiscito grego. Uma vitória avassaladora, para não deixar qualquer dúvida. Não, 61,5% dos votos. Sim, 38, 5%.
Dias históricos. 4 de julho de 2015, Chile campeão no Estádio que hoje é o Estádio da Democracia, da festa e da vida, não da ditadura e da morte. A libertação, como alguém disse, do Estádio Nacional. 5 de julho de 2015, um povo corajoso enfrenta a Troika – FMI, Banco Central Europeu, Comissão Europeia – e, com soberania e coragem, diz não à austeridade que mata um povo, produz fome e desemprego, mas mantém lucros, privilégios e riqueza da banca e do mercado financeiro. Aula de democracia, mais uma vez. Em praça pública, ao modo grego, para o mundo inteiro assistir.
Nas crises, por mais duras e difíceis que sejam, é preciso apontar para o futuro e ter coragem. Fazer as reformas estruturais necessárias, enfrentar os poderes, como fez o povo chileno, como agora faz o povo grego. Com mobilização popular, com unidade. Nas ruas. Disse o presidente grego, Alexis Tsipras: “Muitos podem ignorar a vontade do governo. A vontade do povo não.”
Há alternativas que podem tirar a Grécia do buraco, sem sacrificar mais os gregos e sua economia. Atenas pede uma anistia para quem ilegalmente depositou dinheiro na Suíça em troca de um imposto. O objetivo é taxar a 21% depósitos que podem chegar a 200 bilhões. Ou seja, os ricos, pelo menos uma vez na vida, podem/devem pagar impostos em favor do povo e contribuir para o conjunto da sociedade.
Crise é oportunidade. Antes do plebiscito grego, muitos analistas diziam que havia empate técnico, que o sim estava avançando, na verdade mais torcida que análise imparcial. Os gregos fizeram impressionante manifestação, antes, durante e depois, proclamando que, acima de tudo, está a democracia, está o bem-estar da maioria, está a Nação.
Não vamos nos dispersar ante o poder econômico e político, disseram os gregos, disseram os chilenos abafados por muito tempo pela ditadura militar.Estão dizendo equatorianos, bolivianos e paraguaios na visita do papa Francisco. Os poderosos da terra nunca foram vitoriosos ‘ad aeternum’. Sempre houve, há e haverá uma semente jogada na terra, brotando lá onde ninguém espera. E que vai crescendo, apresentando-se, e finalmente dando frutos. A semente e os frutos da justiça, da solidariedade, do encanto, da esperança.
Quando hoje, em diferentes lugares e oportunidades, também no Brasil, levantam-se vozes soturnas antidemocráticas, são pregados e praticados o ódio e a intolerância, conquistas populares estão sob ameaça, é preciso paixão, cultivar o novo. É preciso coragem e visão de futuro.
Não vamos nos dispersar.
Selvino Heck
Assessor Especial da Secretaria Geral da Presidência da República
Em dez de julho de dois mil e quinze
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