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Reflexões sobre a agressão militar dos EUA contra a Venezuela

Republico na íntegra, Artigo atribuído a Javier Biardeau*

Algumas reflexões tentativas e urgentes sobre a agressão militar dos Estados Unidos contra a Venezuela (e as irei atualizando).

Trump NÃO TEM o controle político, militar nem territorial na Venezuela.

Não houve, por enquanto, uma invasão militar em larga escala, mas sim uma “ação cinética” tendendo a sequestrar um presidente em exercício e utilizá-lo como ferramenta de pressão e eventual moeda de troca.

Nem sequer a totalidade dos ativos militares mobilizados nos últimos meses no Grande Caribe é suficiente para tomar o controle — nem falemos da acidentada e extensa geografia venezuelana, mas sequer da capital Caracas e suas imensas e organizadas barriadas populares (para se ter noção da escala, a invasão do pequeno Panamá em 1989 demandou a mobilização de mais de 30 mil efetivos).

Em suma, os bombardeios e ataques contra infraestruturas militares foram a cobertura operacional do que, eufemisticamente, o jargão imperial denomina como uma “extração”.

Creio, e isto é naturalmente uma hipótese, que o principal objetivo não foi nem é tomar o país de assalto, mas descabeçar a condução política do processo e induzir uma fratura significativa na Força Armada Nacional Bolivariana, algo que durante mais de 20 anos os Estados Unidos e a oposição local tentaram sem sucesso.

O calcanhar de Aquiles da agressão imperial contra a Venezuela é a ausência de uma força vassala endógena, com poder de fogo e capacidade de massas, que possa proclamar algo parecido a uma rebelião nacional “legítima” contra a “tirania”, dando um pseudo álibi democrático à agressão.

A VENEZUELA NÃO É A SÍRIA nem neste nem em muitos outros sentidos. Não há nada sequer comparável ao HTS, e a unidade político-militar-territorial na Venezuela e em nossa região é, em geral, muito mais sólida do que em outros cenários de referência da Ásia Ocidental.

Isto explica o fato de Trump ter ameaçado com outra rodada de ataques, e o fato de que não podemos descartar que isso possa, sim, escalar para uma invasão total nas próximas horas ou dias, sobretudo se a região e a “comunidade internacional” não conseguirem exercer nenhum tipo de ação dissuasória eficaz, seja no campo diplomático, econômico ou militar.

Se o objetivo era induzir uma rebelião militar de proporções, uma insurreição popular (ou uma conjunção de ambas), e esta não ocorreu pelo motivo que for, é natural esperar que a pressão armada sobre a cadeia de comando se aguce e que o Pentágono busque compensar por via militar o que não está conseguindo, em princípio, por via política, que é a rendição incondicional de seu inimigo.

Isto explica uma verdade paradoxal, mas incontrovertível. Neste estranho xadrez geopolítico, os Estados Unidos deram xeque no rei (capturaram Maduro), mas nem por isso ganharam a partida.

No momento (tudo pode mudar, obviamente) o controle de Caracas e do país pelas forças leais do Estado é total, ou ao menos é o que posso concluir após ter falado com várias dezenas de venezuelanos em diferentes pontos da capital e do país, em diferentes papéis e funções.

Não há combates entre facções militares, tentativas de rebelião nem “guarimbas” de nenhum tipo (2026 não é 2014 nem 2017). As únicas mobilizações, a pé ou com motorizados, estão ocorrendo no campo do chavismo, embora, claro, isto também não seja 2002 (época do golpe e restituição de Chávez). Considerando a gravidade das circunstâncias, reina uma relativa calma, com a ressalva das óbvias filas de famílias para se abastecerem de mantimentos diante de um cenário de incerteza.

Prova de tudo o que foi dito, e sobretudo da debilidade da frente interna imperial, é que em vez de anunciar um “mandatário legítimo”, Trump encarregou-se novamente de menosprezar María Corina Machado, a quem considerou publicamente incompetente para tomar as rédeas do país. Por isso anunciou que os Estados Unidos se encarregariam, por ora, da “transição”.

Aqui não podemos descartar que a força invasora tente tomar o controle dos poços e infraestruturas petrolíferas para financiar a operação e iniciar o que poderia ser uma longa e imprevisível estratégia de balcanização territorial, como tem sido feito com frequência em outros teatros de operações (embora, de novo, a América Latina não seja a Ásia Ocidental).

Lembremos que, segundo o “corolário Trump” à Doutrina Monroe, os recursos estratégicos da Venezuela pertenceriam aos Estados Unidos em virtude das nacionalizações da década de 70 e do início deste século.

Pode parecer inoportuno “chutar cachorro morto” agora, mas não podemos deixar de mencionar que esta agressão foi preparada e anunciada durante meses à vista de todo o mundo, e que a maioria dos atores (governamentais, multilaterais, comunicacionais, intelectuais, etc.) decidiu ignorar os tambores de guerra que soavam no Grande Caribe.

Ainda há tempo de emendar os erros e corrigir as más leituras, mas isso exige agir de forma contundente e decidida em todos os planos, em particular por parte dos outros países que hoje também foram ameaçados com a espada de Dâmocles da intervenção: México, Colômbia, Brasil, Cuba, etc.

Como tantos e tantas de nós vínhamos sustentando (embora nos tratassem como pessimistas, teóricos da conspiração ou antiquados), isto nunca teve nada a ver com democracia, direitos humanos, cartéis ou combate ao narcotráfico, mas sim com o relançamento da geopolítica imperial mais descarada e belicosa, o domínio geopolítico de nossa região e o saque colonial de nossos recursos naturais.

Para prova basta um exemplo: a conferência de imprensa de Trump de hoje, que certamente ficará para sempre nos anais da infâmia e do cinismo.

*Javier Biardieu é do PC da Venezuela, do chavismo crítico a Maduro.

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