Em 6 meses, foram 2 agricultores e 2 portadores de esquizofrenia mortos a tiros pela Brigada Militar.
No Rio Grande do Sul, sob o governo de Eduardo Leite, a Brigada Militar tem repetidamente transformado crises de saúde mental e ações rotineiras em tragédias letais.
O que deveria ser proteção se converte em execução sumária dentro das próprias casas das vítimas. Casos que a Corregedoria e a Polícia Civil rotulam como “legítima defesa” revelam, na verdade, um padrão de violência desproporcional e um desinteresse crônico em reformar a segurança pública para priorizar a vida, especialmente de vulneráveis como portadores de esquizofrenia ou agricultores humildes.
Como destacado no artigo “Esquizofrenia no RS: Uma Sentença de Morte Executada por Quem Deveria Proteger”, publicado ontem neste blog, o diagnóstico de esquizofrenia no estado virou, na prática, uma sentença de morte aplicada pelo braço armado do Estado.
Em vez de acolhimento psicossocial via CAPS, SAMU ou equipes especializadas, famílias em desespero chamam a polícia e recebem balas como resposta.
A Brigada Militar parece priorizar a “neutralização” letal em vez de ação para redução progressiva da violência, e com inquéritos que absolvem sistematicamente os agentes, enviando a mensagem de impunidade: “podem atirar, a instituição os protegerá”.
Os fatos se acumulam. Em julho de 2025, o agricultor Valdemar Both, de 53 anos, foi morto a tiros pela Patrulha Ambiental da Brigada Militar no distrito de Palma, em Santa Maria, durante uma fiscalização por suposto crime ambiental.
Vídeos mostram a abordagem, que terminou em disparos após suposta reação com machado. Tanto a Corregedoria quanto a Polícia Civil concluíram legítima defesa, sem indiciamento. A família contesta a proporcionalidade da força usada.
Em setembro de 2025 (com investigações concluídas em novembro), Herick Cristian da Silva Vargas, de 29 anos, diagnosticado com esquizofrenia, foi baleado em Porto Alegre durante um surto. A mãe chamou ajuda, mas a intervenção policial resultou em tiros fatais. Novamente, Corregedoria e Polícia Civil alegaram legítima defesa, citando uso progressivo da força e laudo toxicológico de cocaína. A família recorreu, e a Justiça determinou revisão do arquivamento em janeiro de 2026.
Esse padrão não parou. Apenas nos primeiros dias de janeiro, mais duas mortes chocantes reforçam que não se trata de “casos isolados”. Neri Antônio de Oliveira, de 50 anos, com esquizofrenia, foi morto a tiros pela Brigada Militar em Santa Maria (bairro Boi Morto), durante crise psicótica; a família buscava socorro, mas recebeu resposta letal.
Agora, dias depois, o produtor rural e feirante Marcos Nornberg, de 48 anos, foi baleado dentro de casa na zona rural de Pelotas durante ação da Brigada Militar.
O governador Eduardo Leite comentou que a corporação “não é imune a erros”. Mas as repetições parecem mostrar um padrão. Há algo além de erros individuais.
Esses incidentes expõem falhas graves: ausência de treinamento específico para surtos psicóticos, negligência no atendimento de saúde mental e uso da força letal como primeira opção contra pessoas desarmadas ou em crise.
Para portadores de esquizofrenia, o tratamento deve vir da área da Saúde, não da bala. Agricultores não merecem ser alvejados mortalmente em suas propriedades por ações policiais.
Leite defende que a população “não quer uma polícia com medo de agir”, mas agir não equivale a matar.
É preciso integrar saúde mental às operações policiais, adotar protocolos de desescalada e garantir transparência independente nas investigações.
A violência da Brigada Militar no RS não é inevitável: é uma escolha política de negligência.
Enquanto o governador prioriza narrativas de “segurança”, famílias perdem entes queridos de forma irreversível.
É hora de romper o ciclo: pela vida de Neri, Herick, Valdemar, Marcos e tantos outros; por uma polícia que proteja de verdade, não execute.
Justiça e reforma são urgentes — antes que mais nomes entrem na lista de “legítima defesa”.
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