
Ao publicar vídeo com a Resenha das Ideias do pensador marxista Grego Yanus Varoufakis no twitter, fui provocado pelo Professor Marcos Dantas a ler um artigo seu, que também sob o olhar marxista, contrapõe a tese do fim do capitalismo, como preconiza Varoufakis. Fui então ler o artigo A lógica financeira das plataformas de internet: o tempo de giro do dinheiro no limite do zero. No meu entendimento, este é um debate fundamental para compreender para onde o mundo esta indo.
O cenário econômico global atravessa uma mutação que desafia as categorias clássicas da economia política. À medida que as “Big Techs” consolidam seu domínio sobre a infraestrutura da vida cotidiana, surge um debate central: estamos diante de uma evolução predatória do capitalismo ou de uma ruptura que nos leva de volta a uma forma de feudalismo tecnológico? Este embate ganha contornos nítidos ao confrontarmos as teses do ex-ministro das finanças grego, Yanis Varoufakis, e do pesquisador brasileiro Marcos Dantas.
Para Yanis Varoufakis, em sua obra recente, o capitalismo como o conhecíamos morreu. Ele argumenta que o lucro — o motor da economia clássica — foi substituído pela renda. No “Tecnofeudalismo”, as plataformas (como Amazon ou Google) não operam mais como empresas em um mercado livre, mas como o próprio “feudo” onde o mercado acontece.
Varoufakis sustenta que Jeff Bezos não produz valor da forma tradicional; ele cobra um pedágio de produtores e consumidores para que possam transacionar em sua plataforma. Nesse sentido, os algoritmos seriam os novos senhores feudais, e nós, os usuários, seríamos “servos na nuvem”, produzindo capital informacional gratuito que aumenta o valor das plataformas sem recebermos salário por isso. Para ele, o mercado foi substituído pelo algoritmo.
Já Marcos Dantas, em seu artigo, oferece uma leitura que, embora reconheça o caráter rentista das plataformas, prefere enxergá-las como o ápice das leis de Marx, e não sua negação.
Dantas utiliza os Livros II e III de O Capital para demonstrar que o que as plataformas fazem é reduzir o “tempo de rotação do capital” ao limite de zero. No capitalismo industrial, o tempo entre investir dinheiro, produzir, vender e recuperar o dinheiro era longo e cheio de riscos. As plataformas digitais, ao dominarem o trabalho informacional e a circulação de dados, permitem que o capital circule na velocidade da luz.
Para Dantas, o que Varoufakis chama de feudalismo é, na verdade, um capitalismo extremado. As plataformas não estão fora do capitalismo; elas são a ferramenta definitiva que o sistema criou para eliminar o “atrito” da circulação. O trabalho não remunerado do usuário (curtir, buscar, navegar) é a matéria-prima que permite às plataformas prever o consumo e garantir que o capital nunca pare de girar.
Onde os dois autores se encontram é no conceito de Renda. Ambos concordam que a extração de valor hoje não ocorre apenas “no chão de fábrica”, mas na extração de dados e no controle de infraestruturas.
Varoufakis vê uma ruptura: o capital se tornou tão concentrado que ele destruiu a concorrência e o mercado, tornando-se algo “pior” que o capitalismo. Já Dantas vê uma continuidade: o capital financeiro e o capital informacional se fundiram para realizar o sonho máximo de todo capitalista: o lucro sem espera, a mercadoria vendida antes mesmo de ser produzida fisicamente.
Definir se vivemos um “Tecnofeudalismo” ou um “Capitalismo Extremado” não é apenas um exercício semântico. Se Varoufakis estiver certo, as ferramentas de luta de classes tradicionais (sindicatos, greves de produção) perdem força diante de um sistema de renda. Se Dantas estiver certo, a luta ainda é sobre o tempo de trabalho — o tempo que dedicamos, consciente ou inconscientemente, para alimentar a engrenagem financeira global.
O que fica claro na contraposição entre o pensamento de Dantas e Varoufakis é que a internet deixou de ser um espaço de troca livre para se tornar uma gigantesca máquina de processamento de valor.
Seja como servos de um feudo digital ou como trabalhadores de uma fábrica invisível e global, a sociedade contemporânea está presa a uma lógica onde o nosso tempo de vida é transformado em ativos financeiros em nanossegundos.
O sistema não está quebrado; ele está, pela primeira vez na história, funcionando assustadoramente em velocidade total .
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