Se foi no dia 31 de março ou no dia 1º de abril, pouco importa. A Ditadura militar que se instalou no Brasil em 1964 , persegiu, demitiu, torturou e matou muita gente. E mesmo a gente falando assim, tem gente que lembra de heróis combantentes que foram assassinados. Mas há heróis que combateram a ditadura e ainda estão vivos. E muitas vezes moram perto da casa da gente. Em Porto Alegre tem muitos destes. O Juremir fala de alguns neste texto. Mas fala também de resgatar a história. Resgatar a história para que nossos filhos e nossos saibam o quanto custaram para o Brasil os 21 anos de trevas que vivemos. Mas servee também para lembrar que heróis combateram as trevas. Reproduzo aqui no Blog o texto do Juremir, em homenagem aqueles heróis, muitos até amigos da gente, e que por conviver, a gente esquece o combate que travaram. A luta é permanente pela democracia e pelo socialismo. E por permanente, tem que resgatar permanentemente a memória dos tempos em que brasileiros combateram para derrotar as trevas. Vai o texto do Juremir, publicado ontem no Correio do Povo.
Luiz Müller
| Crédito: ARTE JOÃO LUIS XAVIER |
Na Ilha do Presídio
Domingo de sol, manhã perfumada, Porto Alegre outonal. Lá fomos nós, de catamarã, sob o comando de Jair Krischke, com a participação do prefeito José Fortunati, acompanhados por convidados do Uruguai, do Chile e da Bolívia, visitar a Ilha das Pedras Brancas, mais conhecida como Ilha do Presídio, onde nossa gentil ditadura manteve em condições insalubres dezenas de presos políticos e outros tantos presos comuns. Tudo isso num espaço de míseros 100 metros de comprimento por 60 de largura. Ali, no século XIX, existiu um depósito de munição. Éramos 80 pessoas no passeio, entre os quais Christopher, neto de João Goulart, e Ivan Marx, procurador da República que ingressou com representação pedindo a investigação da morte de Jango na Argentina.
Jair Krischke quer o tombamento da ilha. A antiga prisão está em ruínas. As guaritas, porém, permanecem de sentinela, elevações de um tempo melancólico. Visitamos o local na companhia de três homens muitos especiais: Raul Pont, Índio Vargas e Paulo de Tarso Carneiro. Os três estiveram presos na ilha. Raul mostrou-nos a cela onde passou mais de um ano, a peça que servia de biblioteca, com livros proibidos levados por familiares com capas de obras inofensivas, e o espaço dos banheiros, que, pelas dimensões, só podiam ser lamentáveis. Índio relembrou com humor seu medo de morrer no lugar, ele, então um desconhecido, sonhando em ser incluído na lista dos presos trocados por algum embaixador. Paulo de Tarso resumiu o drama dele e dos seus companheiros. Carlos Araújo, ex-marido da presidente Dilma Rousseff, por problemas de saúde, não foi. Pont lembrou-se dos domingos em que a jovem Dilma ia à ilha visitar o seu Carlinhos.
Fiquei pensando nos presidiários, reunidos em cima daquela minúscula ilha, tomando sol, vendo Porto Alegre e Guaíba tão próximas, como se fossem os pinguins que se aglomeram em ilhotas na Patagônia. A nossa amável ditadura produziu os seus crimes horrendos sem a menor cerimônia. Em 24 de agosto de 1966, o sargento Manuel Raimundo Soares, um dos hóspedes involuntários do presídio, apareceu morto boiando no Jacuí, com as mãos amarradas, depois de torturado no “Dopinha”, na rua Santo Antônio, 600. Uma maneira, sem dúvida, patriótica de matar. Índio Vargas, com seu jeito manso, sintetizou: “O inferno foi aqui”. Todos esses resistentes foram punidos. A acusação contra Pont, numa ditadura que se pretendia democrática (uau!), com pluralismo na Constituição, falava em “tentativa de organização de partido proibido”.
Se eu fosse secretário de Educação, o que jamais serei, pois ninguém seria louco de me oferecer tal cargo, nem eu de aceitar, daria um jeito de que nossos estudantes tivessem aulas sobre a república castilhista na Capela Positiva, ali, na João Pessoa, e sobre o regime militar na Ilha do Presídio. Questão de memória e verdade. Foi a minha primeira vez na ilha. Fiquei impressionado com o cenário. Senti até uns calafrios. Olhei disfarçadamente para Índio, Raul e Paulo de Tarso. Por fim, numa reverência, exclamei para mim: três heróis!
Juremir Machado da Silva | juremir@correiodopovo.com.br
Pescado do Correio do Povo
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