Me perdoem os leitores. O texto é longo, mas fundamental, pois neste discurso Lula descreve a sua visão do mundo e o que deve ser feito para melhorá-lo. Critica o Fórum Social Mundial, o Fórum de Davos e sinaliza o “caminho do meio”. No conteúdo do discurso, o resgate do “Estado do Bem Estar Social” conquistado na Europa graças a forte atuação dirigemte dos partidos socialistas europeus(Social democracia). O “lulismo”, ainda sem grande elaboração teórica, passa a tomar contornos cada vez mais claros e sinaliza o caminho da construção do “Estado do Bem Estar Social” no Brasil e no mundo. E para construir este estado Lula dá os sinais: solidariedade internacional, mulilateralismo, internacionalismo, erradicação da pobreza no mundo, desconstrução do sistema financeiro pautado pelo neo liberalismo e Estado sob forte controle social. Este discurso deveria virar livro, pois dá rumo pro PT, concordemos com o discurso ou não.Agora se trata de ver se o PT seguirá o mesmo caminho que levou a social democracia européia a se entregar ao neo liberalismo, sucumbindo aos interesses do sistema financeiro e pautado pela mídia venal, ou se fará a diferença necessaria para construir e elaborar o “mundo do bem estar social” para todos.
Luiz Müller
Vai a transcrição do discurso que pesquei do Sitio do Instituto Lula
Transcrição do discurso: Discurso de Lula no fechamento do “Fórum pelo progresso social” [cumprimentos] que vieram participar dessa primeira experiência de debate sobre a crise, entre a Fundação Jean-Jaurès e o Instituto Lula. Confesso a vocês que eu tenho um problema de tomar muita água, porque, depois do câncer, eu tenho um edema na garganta, que ainda não está 100% curada, e eu tomo água exageradamente. Não se preocupem: não comi bacalhau (RISOS NA PLATEIA). E uma outra preocupação que eu tenho é com os nossos intérpretes. Eu não falo francês, não falo inglês e mal falo português (RISOS NA PLATEIA). E eu vou tentar falar devagar pra ver se nossos intérpretes conseguem me acompanhar, porque não tem nada pior para uma pessoa que está falando: não ser compreendida. Eu aprendi que, quando você fala uma vez e as pessoas não entendem, as pessoas são burras. Quando você fala a segunda vez e as pessoas ainda não entendem, as pessoas continuam burras (RISOS NA PLATEIA). Mas, quando você fala a terceira vez e as pessoas não entendem, burro é quem tá falando (RISOS NA PLATEIA), porque você não pode falar três vezes e as pessoas não entenderem. Eu queria fazer aqui um tratado com nossos queridos intérpretes e com vocês, pra terem um pouco de paciência. Eu fiquei aqui dois dias ouvindo falar em crise. E a mim e ao ex-primeiro ministro Jospin foi dada uma tarefa difícil, porque, quem deveria estar no nosso lugar, eram os dois presidentes, era o companheiro François Hollande e a companheira Dilma Rousseff, que, por compromissos outros, fizeram a abertura ao invés de fazerem o encerramento. É a primeira vez que as pessoas que são secundárias falam no horário mais importante. E é muito ruim, porque político sem mandato, aqui na França e no Brasil, vale muito pouco. De qualquer forma, nós queremos agradecer a plateia que, ideologicamente ou dó de nós dois, Jospin, que estão aqui, à espera dos nossos discursos. Eu, diferentemente de muitos companheiros, não sou muito acostumado a ter medo de crise. A minha vida inteira eu vivi em crise. Eu sou de uma terra que, quando a gente não morre de fome até completar cinco anos de idade, já é um sucesso extraordinário. Depois, vocês sabem que um engenheiro é engenheiro por opção, um político é político por opção, um médico é médico por opção, um jornalista é jornalista por opção, mas o operário não tem opção. Ele só é, porque não sabe fazer outra coisa. E foi assim que eu me transformei em operário, metalúrgico, que me permitiu, com essa qualificação toda e com esse currículo importante, chegar à Presidência do meu país (RISOS NA PLATEIA). Eu, aliás, se fossem seguir os conselhos dos meus amigos economistas, e tem muitos aqui, eu não deveria ser presidente, porque eu, durante anos e anos e anos, me reunia com os mais importantes economistas do meu país, figuras extraordinárias, e no final de cada reunião, o Brasil tava quebrado, o Brasil não tinha saída, o Brasil não tinha jeito. E eu ficava pensando: “Mui amigos. Querem que eu seja candidato a presidente e me dizem que não tem jeito”. Quando eu ia subindo a rampa do Palácio do Planalto, em 2002, depois de tantas derrotas. Eu perdi tanta eleição, perdi tanta eleição, que um dia o povo brasileiro, com dó de mim, me elegeu (RISOS NA PLATEIA). Falou: “Deixa eu eleger esse coitado” (RISOS e APLAUSOS NA PLATEIA). E os meus adversários, sobretudo no campo da sociologia (RISOS NA PLATEIA), eles… acho que até votaram em mim de dó. Porque eles achavam que, como eles, eu ia fracassar. E que depois eles poderiam votar no poder. A vitória os enganou e eu, muito mais, porque eu tinha consciência da tarefa que estava reservada a mim na Presidência da República. Mas, quando eu ia subindo a rampa do Palácio do Planalto, depois de tanta derrota, ainda tinha companheiros meus, economistas, me puxando pelo paletó: “Ô Lula, não sobe não (RISOS NA PLATEIA). O Brasil não tem jeito, o Brasil tá quebrado. Você não vai conseguir governar. E eu tinha convicção de que era preciso fazer alguma coisa diferente do que até então estava sendo feito no Brasil. A primeira coisa era fazer com que o Brasil se respeitasse. Eu aprendi, no movimento sindical que, numa mesa de negociação, nenhum interlocutor respeita o outro interlocutor se ele próprio não se respeitar. Então era preciso que eu me respeitasse, para fazer valer a ideia de que o Brasil não era uma republiqueta, que nós éramos uma nação importante, tínhamos projeto, tínhamos tamanho, tínhamos população, tínhamos riqueza e tínhamos um povo ávido a mostrar que queria melhorar de vida. E eu lembro que, no dia 25 de janeiro, eu era o único presidente da República que podia participar dos dois fóruns: eu fui ao Fórum Social de Porto Alegre, aonde estavam todos os xiitas do Brasil, muitos trotskistas, inclusive os companheiros da França, e fui a Davos, aonde tava a nata do capitalismo mundial, discutindo o fim do Estado e o coroamento do mercado como solução para o problema do planeta terra. E eu nem acreditei no Fórum Social Mundial, em que o Estado era Deus, e nem acreditei em Davos, de que o mercado era Deus. Eu acreditava que a política poderia sobrepor a certeza do economicismo, a certeza do marxismo ou a certeza daqueles que achavam que o mercado era solução pra tudo. E resolvi começar a discutir a necessidade de mudar um pouco a geografia política e econômica. Eu fui o primeiro presidente do Brasil que visitei todos os países da América do Sul e da América Latina. Fiz 33 viagens à África. Depois de 1846, quando o imperador Dom Pedro foi ao Líbano, eu fui o primeiro presidente do Brasil a ir ao Líbano. Fui até o Timor Leste, não sei o que fazer, mas fui (RISOS NA PLATEIA). Porque eu entendia de que era preciso criar novos paradigmas para discutir a questão comercial e não ficar preso ao olhar brasileiro de sempre, ao olhar latino-americano de sempre, que olhava para os Estados Unidos, que olhava para a União Europeia, como se, tanto a União Europeia quanto os Estados Unidos, tivessem a obrigação de resolver os problemas quase que insolúveis do nosso país. A coisa mais comum, na América Latina, era ter divergência. No caso do Brasil era certo: o presidente do Brasil e o ministro da Fazendo do Brasil brigando com o presidente da Argentina e com o ministro da Fazenda da Argentina pra ver quem era mais amigo do Bill Clinton, pra ver quem era mais amigo do presidente francês, pra ver quem era mais amigo da primeira-ministra alemã, e a gente não conversava entre nós. O Brasil estava de costas para a América do Sul, e temos quase 17 mil quilômetros de fronteira seca. O Brasil estava de costas para a África, com quem temos uma fronteira oceânica extraordinária. Alguns ignorantes pensam que o oceano é um obstáculo, quando, na verdade, é um caminho para integração entre o Brasil e o continente africano. E resolvemos acreditar que era possível estabelecer uma nova lógica para que a gente pudesse construir conjuntamente mais parceiros, mais amizades e tentar ter uma influência no jogo mundial tão viciado, porque tem algumas pessoas que acham que o mundo ainda continua sendo aquele em que Churchill, Stalin e Roosevelt, em volta de um Jack Daniel`s, podem decidir o destino do planeta, e não se dão conta que tem mais gente no mundo hoje, que tem 1bilhão e 300 milhões de chineses querendo participar; que tem 1 bilhão e 200 milhões de indianos querendo participar; que tem 1 bilhão de africanos, que há pouco tempo conquistará sua independência, que querem participar; que tem latino-americanos que vivem hoje o melhor momento de democracia do planeta terra. Se, na década de 70, todos estávamos pensando em chegar ao poder pela luta armada, em 2010 todos chegaram ao poder pela via da eleição democrática. E não tem mais orgulho que eu tenho na vida: não é de um metalúrgico ter sido presidente do Brasil. É de um índio ser presidente da Bolívia, um índio com a cara da Bolívia, com o jeito da Bolívia. E não um índio com olhos verdes, com cabelos loiros, como se fosse um holandês (RISOS NA PLATEIA) ou americano. Pois bem, meus companheiros e companheiras: estabelecemos algumas lógicas na política mundial. Convoquei para o Brasil uma reunião entre o mundo árabe e os países da América da do Sul. Convoquei uma reunião – e foi a primeira vez na história, em 500 anos de América Latina –, uma reunião de toda América latina e Caribe, sem Estados Unidos e sem Panamá. E nós convocamos também uma reunião dos países africanos e dos países sul-americanos, e isso mudou um pouco as coisas que estavam acontecendo até então. Passamos a ser agentes nas discussões políticas tão viciadas e tão camufladas como era. Foi com essa situação que o Brasil deixou de ser um país que tinha uma exportação de 60 bilhões de dólares e um fluxo na sua balança comercial, entre exportação e importação, de 107 bilhões de dólares em 2003 para, em 2011, fechar um fluxo na balança comercial de 482 bilhões de dólares. É pouco, se comparado à China, é pouco ainda se comparado à Alemanha, possivelmente até seja pouco se comparado à França, mas 480 bilhões é muito, se comparado a 107 que nós tínhamos oito anos atrás. E isso permitiu que nós provássemos algumas coisas que até então não se acreditava que fosse possível provar. Primeiro: não era possível crescer o mercado externo concomitantemente com o mercado interno. No Brasil sempre se fazia opção: vai exportar, diminui o mercado interno; vai fortalecer o mercado interno, diminui as exportações. Nós provamos que era possível crescer tanto as exportações quanto o mercado interno. Uma outra coisa grave que nós conseguimos vencer no Brasil: de que primeiro você tinha que crescer. Depois que você crescesse bastante e o bolo tivesse muito grande, você iria distribuir. No meu país aconteceu muitas vezes: o bolo cresceu, cresceu, algumas pessoas comeram e o povo não comeu. Pois bem, nós provamos que aquela teoria de que é preciso crescer para distribuir, nós provamos que era preciso distribuir para crescer. E fizemos os dois crescerem concomitantemente. Nós provamos que era possível aumentar o salário mínimo sem aumentar a inflação, de que era possível recuperar a renda do trabalhador sem trazer a inflação de volta. E durante oito anos de presidência, todas as categorias organizadas do meu país tiveram aumento real acima da inflação. E o salário mínimo teve aumento de dois terços acima da inflação e ainda assim a inflação continua controlada no meu país. Eu, meu querido Jospin, que estava dentro de uma fábrica, como operário metalúrgico quando a inflação era de 80% ao mês (não era ao ano, era ao mês). A gente recebia o pagamento, se não fosse gastar meia hora depois, ele já valia menos. Como a gente não tinha conta bancária, eu corria no atacadista e comprava lata de óleo, tudo que não era perecível, eu comprava pra colocar dentro de casa, que era o jeito de enfrentar a inflação. E nós conseguimos vencer todos esses dogmas fazendo apenas as coisas simples que nós tínhamos que fazer. Eu comecei o meu mandato dizendo: eu vou fazer primeiro o necessário, depois que eu fizer o necessário eu vou fazer o possível e, se depois eu conseguir, eu vou começar a fazer o impossível. E nós terminamos fazendo o impossível. Por quê? Porque nós fizemos uma coisa que eu aprendi e que um dia vai tá escrito nos livros: que qualquer governante que quiser dar certo, ele tem que fazer apenas o óbvio. Porque, quando nós somos candidatos, nós sabemos o que fazer. Depois que nós ganhamos é que nós mudamos o nosso discurso. Nós temos que fazer o óbvio, cuidar de quem precisa ser cuidado pelo Estado, fazer o que precisa ser feito pelo Estado. Uma outra lição que eu aprendi: é muito barato cuidar dos pobres. O que é duro é cuidar dos ricos (RISOS E APLAUSOS NA PLATEIA), é muito difícil, é muito… A necessidade do rico é infinita, a do pobre não. O pobre não tem muitas pretensões: ele quer sobreviver com dignidade, ele quer trabalhar, ele quer estudar, ele quer tomar café, almoçar e jantar todo dia; ele, se puder, vai comprar um carrinho; ele, se puder, vai ter uma casa, hoje ele quer… Porque o pobre tem três paixões na vida, quatro, quatro paixões: primeiro todo mundo quer casar ou com uma mulher bonita ou com um homem bonito (RISOS NA PLATEIA), depois ele quer ter uma casinha, depois a outra paixão é um carrinho e agora é um desgraçado de um computador, um laptop, um iPad, um iPod, um “i” não sei das quantas (RISOS NA PLATEIA), todo dia inventa uma coisa que nós não sabemos mais qual é a paixão. E eu achava que o povo tinha que ter isso e, portanto, quando veio a crise econômica, a gente já tava numa situação – e eu não quero comparar a França e o Brasil, porque, o que vocês conseguiram no começo do século passado ou logo depois da Segunda Guerra Mundial, nós estamos conseguindo agora; eu não quero fazer comparação, porque a França está muitos e muitos anos na nossa frente. Mas, na verdade, é que, quando chegou a crise, eu nunca tive tanta segurança na vida de que era possível vencer a crise. Eu lembro que eu disse uma frase assim: “Essa crise é uma marolinha”. Marolinha é uma onda pequena, que os surfistas não gostam porque não dá nem pra colocar a prancha na água (RISOS NA PLATEIA). E quando eu disse que a crise era uma marolinha, eu fui muito criticado por alguns especialistas do apocalipse. Eu fui muito criticado (CORTE INAUDÍVEL)… As manchetes dos jornais era o seguinte: “Na Europa, o povo diminui o consumo com medo de perder o emprego”. E as manchetes eram o seguinte para o Brasil: “No Brasil também o povo está comprando menos, porque não quer fazer dívida, perder o emprego e não poder pagar”. Isso era dia 20 de dezembro. Dia 22 de dezembro, (CORTE INAUDÍVEL)… tinha lutado contra a chamada sociedade de consumo, fui pra televisão fazer apologia do consumo (RISOS NA PLATEIA). Até hoje, nenhum empresário e nenhum comerciante me pagou nada por conta daquele pronunciamento. E eu fui dizer: “É verdade que nós temos sinais de crise, é verdade que, se a crise vier mais forte, você pode perder o seu emprego, mas é verdade também que, se você não consumir, a loja não vai vender, o empresário não vai produzir e aí sim é que você vai perder o seu emprego, então, com muita responsabilidade, compre o que você tem desejo de comprar, não faça dívida além daquilo que você pode pagar, mas faça dívida, porque é a melhor maneira da gente fazer a roda gigante da economia continuar girando”. E pela primeira vez a classe D e C consumiram mais do que a classe A e B, da região mais rica do país. Ou seja, os pobres foram às compras, porque, pela primeira vez, eles puderam ir às compras. E nós estávamos numa situação confortável, porque já tínhamos seis anos de governo, já tinha o Bolsa Família, já tinha o programa Luz pra Todos, já tinha quase 15 milhões de empregos novos criados no Brasil e havia uma autoestima extraordinária. Portanto, eu quero dizer pra vocês, Jospin, que eu aprendi uma lição: o Brasil era um país capitalista sem capital (RISOS NA PLATEIA), não tinha capital para as empresas, nem grande, nem pequena e nem média, muito menos pra micro; não tinha capital para os trabalhadores e não tinha capital pra ninguém. Nós já tínhamos feito uma revolução: quando eu cheguei no Governo, tinha 75 milhões de brasileiros com conta bancária. Em 2008 já tínhamos 115 milhões de brasileiros com conta bancária. Foi o maior processo de mobilização bancária da história do País. Ou seja, em sete anos nós colocamos, para dentro dos bancos, uma população equivalente à população da Colômbia. Porque, até então, pobre, se passasse em frente do banco, era preso (RISOS NA PLATEIA) ou era suspeito. E nós então passamos a pagar o Bolsa-família pelo banco, cartão magnético, dado à mulher e não ao homem, porque o homem poderia parar no bar pra tomar uma cerveja (RISOS NA PLATEIA), então nós preferimos dar pra mulher, e a mulher ia no banco retirar o seu dinheiro, e foi uma revolução no processo de bancarização no meu país. E depois crédito: nós criamos uma coisa chamada crédito consignado. Eu não sei se tem aqui algum companheiro banqueiro, mas eu lembro que uma vez eu perguntei, numa reunião da Febraban, por que que não emprestava dinheiro pra pobre. Aí disseram: “Porque pobre não tem garantia”. Pobre não tem garantia, portanto, não pode emprestar dinheiro. Então nós oferecemos uma garantia: o contracheque do trabalhador, o seu salário. Empresta o dinheiro pra ele, desconta uma prestação mensal, nunca excedente a 30% do seu salário, que o trabalhador vai tomar dinheiro emprestado. Ou seja, em pouco tempo – é uma pena que o Guido Mantega não esteja aqui – mas nós colocamos no mercado algo em torno de 80 bilhões de reais, ou 40 bilhões de dólares, pra circular na mão do pobre. E depois estendemos para o aposentado. E os aposentados começaram a pegar dinheiro no banco como jamais tinham pego. Então, essa combinação, crédito para os pequenos que nunca tiveram, foi uma das razões pelas quais a economia brasileira começou a dinamizar, combinado com uma forte política de investimento público e combinado com o grau de confiança que os empresários do setor privado passaram a ter nas relações com o Governo. Veja: todos eles tinham medo de mim. Aqui tá cheio de companheiros empresários, que, certamente, não votaram em mim por medo. E hoje eu olho com orgulho de dizer que eles nunca ganharam tanto dinheiro na vida como ganharam no meu Governo; nunca cresceram tanto na vida como cresceram no meu Governo e nunca geraram tanto emprego na vida como geraram no meu Governo. Eu espero que, se um dia eu voltar a ser candidato, eu tenha o voto deles (RISOS NA PLATEIA), porque acho que eu não tive nas outras eleições. Bem, então, eu acho que o que aconteceu no Brasil foi uma combinação de autoestima muito recuperada. A autoestima do povo estava em alta, o povo não se sentia mais inferior, o povo se sentia orgulhoso, há muito crédito, aumento do poder aquisitivo e políticas anticíclicas que permitiram a gente chegar numa situação confortável e sair da crise já em 2009 muito melhor do que nós tínhamos entrado. E aí eu deparei com um segundo ponto que é grave: as decisões do G20 e as suas consequências. Eu tive o prazer de participar da primeira reunião do G20 e tive o prazer de participar da reunião do G20 em 2010. E eu poderia dizer pra vocês que o problema do G20 não é falta de definição e não é falta de decisão, porque, na primeira decisão… nós tivemos no dia 2 de abril de 2009, em Londres, a melhor reunião do G20 de todas que nós tivemos. E eu vou só ler uns tópicos pra vocês, o que que nós decidimos: “Restaurar a confiança, o crescimento e os empregos; reparar o sistema financeiro e restaurar o crédito; fortalecer a regulação financeira, a fim de reconstruir a confiança; capitalizar e reformar nossas instituições financeiras internacionais para superar esta crise e prevenir outras no futuro; promover o comércio e investimento globais e rejeitar o protecionismo para garantir a prosperidade e, por último, promover uma retomada do crescimento que seja inclusiva, verde e sustentável”. Vou ler só mais um parágrafo: “Estamos adotando expansão fiscal sem precedentes, de forma coordenada, que totalizará 5 trilhões de dólares, aumentará a produção em 4% e acelerará a transição para uma economia ambientalmente sustentável; comprometemo-nos a fazer esforço fiscal sustentado e na escala necessária a fim de retomar o crescimento. Eu só vou ler esse ponto, pra mostrar pra vocês por que que eu saí da reunião de Londres muito otimista com o G20. Porque nós tínhamos tocado nos principais problemas que se apresentava na crise. E o que aconteceu? O que aconteceu é que nós descobrimos que não existia instituições multilaterais capaz de subordinar os interesses do Estado nacional e, sobretudo, os interesses das próximas eleições e as decisões não eram executadas. Quando o presidente da França voltava pra França, o presidente do Brasil voltava pro Brasil, o dos Estados Unidos para os Estados Unidos, nós voltávamos para os nosso problemas e as decisões do G20 ficavam para a próxima reunião. O máximo que nós conseguimos avançar foi na questão do FMI, mesmo assim, muito aquém do que nós necessitávamos, porque essas instituições de Bretton Woods não tinham sido criadas para crises em países ricos. Foram criadas para crises em países pobres. Qualquer funcionário de segundo escalão do FMI, nos anos 80, descia no México, em São Paulo, na Argentina e ditava regra aos presidentes, mas a União Europeia nunca ouviu o presidente do FMI, porque não tem nenhuma importância pra vocês, aliás, nem dinheiro tem, porque o Brasil acaba de emprestar 14 bilhões de dólares pro FMI, pra ver se ele consegue ajudar alguém. Ora: se você não tem instância multilateral que obrigue o cumprimento das decisões, alguma coisa tá errada. E eu vou dizer por que tá errada. Eu participei diretamente de negociações da OMC, e nós estivemos muito perto de fazer um acordo em 2008. Só não conseguimos fazer um acordo, por causa das eleições americanas e por causa das eleições na Índia, e o ministro negociador da China, o ministro Kamal, era candidato a governador no seu estado, que era um estado eminentemente agrícola, e ele então não quis fazer acordo pra perder as eleições. Conclusão: ele viu o Bush perder as eleições. O que é grave? O que é grave, Jospin, é que desde novembro de 2008 – já estamos em dezembro de 2012 – nunca mais se falou na OMC, nunca mais se falou na rodada de Doha e, se a gente não discutir o comércio, nós não estamos discutindo com seriedade a crise econômica que hoje paira mais fortemente na Europa, mas na cabeça de todos os países do mundo. Sem comércio não tem consumo, sem consumo não tem produção, sem produção não tem inovação e nós ficamos fazendo discurso para as próximas gerações, sem poder garantir nada. Mas não apenas na questão do comércio. Ontem eu vi o presidente François Hollande propor uma ideia extraordinária da criação de uma instituição pra discutir a questão econômica na ONU. Nós já temos a Ecosoc, que nunca se reuniu e que nunca deliberou por uma razão muito simples: a ONU, de (CORTE INAUDÍVEL)… discutindo quantos países da África vão entrar na ONU: ah, é a África do Sul? A Nigéria não concorda. África do Sul e a Nigéria e um país africano árabe? Ora, qual é o problema dos africanos decidirem quem entra: se vai entrar a África do Sul, se vai entrar a Nigéria, se vai entrar o Egito, qual é o problema? Qual é o problema do México ter divergência com o Brasil? Qual é o problema da China não querer o Japão ou da Itália não querer a Alemanha? O que é preciso discutir é que os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU estão aquém daquilo que o mundo precisa pra garantir a paz e a democracia, porque senão nós vamos ver as mentiras acontecerem e os países serem invadidos como o Iraque foi, a pretexto de uma arma química que até hoje não apareceu. Eu acho que é preciso dar mais representatividade e democratizar mais as Nações Unidas para que a gente possa se valer dela para manter o equilíbrio no mundo, seja no mundo ambiental, seja no mundo econômico, ou seja, no mundo político. Por que, se em 1948, a (CORTE INAUDÍVEL)… por que que em 2012 ela não tem força pra criar o Estado Palestino? Qual é o problema? (APLAUSOS NA PLATEIA). Eu quero dizer pra vocês que uma das fragilidades nossas é a ausência de instituições multilaterais para garantir uma melhor governança global. O caso da União Europeia, depois eu vou dizer, que é uma coisa extraordinária e que nós poderemos avançar. Um quarto problema que eu vejo é a fragilidade política. Eu acho que a política no mundo ela tá terceirizada. (CORTE INAUDÍVEL)… de quem deveria decidir. Eu queria dizer uma coisa aos companheiros da França, que vale para a Alemanha, vale para o Brasil, vale pra qualquer lugar: o povo elegeu a Dilma pra ela governar e pra ela fazer aquilo que ela prometeu fazer durante as eleições. O povo elegeu François Hollande pra ele governar e fazer aquilo que ele prometeu durante o processo eleitoral. Da mesma forma, o povo elegeu o Obama pra isso. Então, nós não podemos permitir que, em determinadas situações de crise, ao invés dos presidentes se reunirem e decidirem, eles terceirizam a política e as coisas que poderiam ser resolvidas numa semana, demoram um ano ou, às vezes, nunca são resolvidas. E eu queria dar um exemplo dessas coisas que eu considero importantes. A questão ambiental. A questão ambiental: por que nós não avançamos na questão ambiental? Eu fui pra Copenhagen, em 2009, certo que nós íamos ter um avanço extraordinário. Eu consegui aprovar no Congresso brasileiro de que nós iríamos reduzir a emissão de gás de efeito estufa entre 36 e 39% e, ao mesmo tempo, a presidenta Dilma disse ontem, diminuir o desmatamento na Amazônia em 80% até 2020. E não foi discurso. Foi aprovado no Congresso Nacional e se transformou em lei. Quando eu chego em Copenhagen o que que eu percebo? Alguns países já estavam incomodados com o Protocolo de Kioto e já queriam rasgá-lo. A proposta dos Estados Unidos era tão fantástica, que diminuía no máximo a emissão em 4% e ainda propuseram a criação de um Fundo. Eu acho fantástico esse negócio de Fundo, acho fantástico, porque rico acha que resolve tudo com dinheiro: “Ah, vamos dar dinheiro pra África, vamos dar dinheiro pro Brasil, vamos dar dinheiro pra defender a Amazônia e tá resolvido. Deixa que fique com as mata deles e a gente que faça a nossa industrialização. E vamos culpar a China; a China é a culpada”. E eu fiz reuniões individuais com todos os presidentes. Eu sei lá, eu acho que a China tem problema. A China polui demais, mas e a dívida histórica? Quem que começou a poluir primeiro? Há quantos anos a Revolução Industrial poluiu o planeta Terra? E não tem nada pra pagar? E o desenvolvimento americano, não tem nada pra pagar? Ou seja, simplesmente a reunião terminou do jeito que começou: sem nenhuma solução. Houve um avanço na Rio + 20 e houve um avanço em Durban agora e eu espero que o espírito da Revolução Francesa paire nos delegados que virão aqui em 2015 e que a gente consiga fazer um acordo mais razoável. Então, eu acho que nós tivemos esse problema sério nessa questão ambiental e eu queria só levantar uma tese pra vocês. Eu acho que nós precisaríamos tentar criar instituições pra unificar os números que nós trabalhamos, porque, depende da reunião que a gente vai, cada uma tem um número e o número nem sempre são iguais. Eu já vi aquecimento de 4%, de 5, de 3 e meio, de 2, de 1, de zero; já vi cientista dizer que é mentira, que não vai acontecer nada disso. Então, eu acho que a gente poderia tentar criar mecanismos, quem sabe através da Fundação, de a gente começar a discutir a uniformização de uns números, pra gente melhor utilizar. Eu digo números, porque, no meu país, às vezes eu vou em reunião com a ministra do Desenvolvimento, quando eu era presidente, ministra do Meio Ambiente, ministra da Reforma Agrária, ministra do MDA, na reunião cada um dizia um número. Então é preciso uniformizar o número. O que que eu tenho certeza? A única coisa que eu tenho certeza é que alguma colisa vai acontecer no mundo. Vai acontecer. Não sei se é por causa do aquecimento global apenas. Mas eu acho que por outras coisas. Em 1978 eu vi, num debate em Frankfurt, que um físico me disse uma coisa, que nunca mais eu ouvi, mas foi a coisa mais verdadeira que eu ouvi. Ele disse assim: “Lula, se o mundo quiser garantir, a cada habitante do planeta Terra, a qualidade de vida de um alemão, utilizando a mesma matéria prima que tem hoje, na mesma quantidade de exploração tecnológica que nós fazemos hoje, seria necessário que o planeta Terra fosse três vezes maior do que ele é. Ora, como o planeta não vai crescer, e nós só tiramos e não colocamos nada… A Petrobrás agora, Jospin, a Petrobrás tá buscando petróleo a 7 mil metros de profundidade. Imagina se o Japão também tá a 7 mil metros (RISOS NA PLATEIA)? Daqui a pouco os dois se encontram (RISOS E APALUSOS NA PLATEIA). Ou seja, eu fico preocupado que, qualquer dia, a broca brasileira vai pegar um japonesinho ali na ponta (RISOS NA PLATEIA), nos criando um problema grave. Então eu acho que essa discussão é que tem que ser feita. Porque nós tiramos alumínio, tiramos ferro, tiramos ouro, tiramos diamante, tiramos… sabe… tiramos petróleo. Agora os Estados Unidos acharam petróleo de xisto, ou seja, agora diz que é a maior reserva do planeta Terra e que vai exportar pra todo mundo. E nós vamos tirando óleo, tirando gás… Vocês sabem como é que tira petróleo, né? Eu pensei que petróleo era um poço, mas não é um poço. O petróleo é que nem numa esponja dessas de lavar louça, sabe, é que tá o petróleo. E você tem que jogar alguma coisa pra fazer pressão pra ele subir. Aquilo foi feito há 160 milhões de ano pra quê? Será que aquilo tinha alguma serventia pro planeta ou será verdade que é gordura de dinossauro? Era preciso muito dinossauro pra fazer o tanto de petróleo que nós tamo gastando. Então, eu tô falando brincando essas coisas sérias, porque eu tenho medo de falar sério e vocês saírem daqui todo mundo com medo, todo mundo achando que o mundo vai acabar. Eu só tô alertando vocês. Nós temos mais coisas pra discutir, além das coisas que já estão colocadas pra nós. E aí, nós entramos numa coisa, meus companheiros, que é a participação da sociedade. Vou fazer uma pergunta pra vocês, olhando no olho de cada companheiro: aqui na França, vocês estão exercendo a democracia na sua plenitude? Qual é o grau de participação da sociedade nas discussões para a saída da crise? Ou será que vocês encontraram um economista que pensa que sabe tudo (RISOS NA PLATEIA)? Porque economista é bom, e sabe tudo, quando é oposição (RISOS NA PLATEIA), não é verdade, Belluzzo? Economista, na oposição, ele sabe tudo! Ele só fala: “Eu vou fazer, eu vou fazer, eu vou fazer”. Quando toma posse, ele fala: “Eu acho, eu penso, eu acredito”. Então veja, na incerteza nossa – e aí eu falo de cátedra –, eu, em oito anos de mandato, fiz 74 conferências nacionais para discutir todos os assuntos que vocês possam imaginar. Fecha os olhos e pensa um assunto (RISOS NA PLATEIA): discutimos. Fizemos tudo que vocês possam imaginar. Não houve um assunto, por mais polêmico que fosse, que nós não tivéssemos feito uma conferência nacional, pra que ela pudesse bem orientar o Governo. Porque nós, políticos, precisamos aprender uma coisa: antes das eleições, a gente anda de carro aberto, dando tchau pra todo mundo, e depois das eleições, a gente anda num desgraçado de um carro blindado, não vê nem a cara do povo mais. E quando a gente vê um cara protestando contra a gente, já é inimigo e a gente nunca para pra perguntar se aquele inimigo de hoje não era o amigo de ontem e o que que nós deixamos de fazer pra ele virar nosso inimigo? O medo da democracia permitiu a Primavera Árabe. E eu tive, meu caro amigo Jospin, no Qatar, a convite da TV Al Jazeera, que é uma grande rede de televisão, você conhece. Fala de democracia a toda hora, mas só pra fora do Qatar; pra dentro é mais silenciosa (RISOS NA PLATEIA). Mas eu fui pra um debate interessante lá e tive com a juventude da Tunísia e tive com a juventude do Egito. Eu fiquei indignado porque, na América Latina, nos anos 60, quando a gente tava lutando, perguntavam pra gente: “Por que você tá lutando?” “Ah, eu quero o poder.” Tudo era pelo poder. E na Primavera Árabe, as pessoas falaram: “Não, eu quero dignidade, eu quero democracia, eu quero esperança.” Meu Deus do céu: se um governante não puder oferecer democracia, dignidade e esperança pro seu povo, pra que Governo? É o mínimo que a gente pode oferecer! Por isso que eu acho que o exercício da democracia e essa crise exige é que a gente faça um debate mais sério com a sociedade, pra que a gente possa errar menos e, quem sabe, encontrar na cabeça de muita gente que quer dar palpite, uma solução pra gente enfrentar essa crise. Porque, uma coisa que vocês têm que ter em conta é que, diferentemente do Brasil, em que nós brigamos todo dia pra melhorar alguma coisa, os franceses tem que brigar pra manter o que vocês já conquistaram. Vocês não podem perder o que vocês já tiveram (APLAUSOS NA PLATEIA), porque o estado de bem-estar social conquistado depois do pós-guerra não foi dádiva. Vocês sabem quantas greves, vocês sabem quanta gente perdeu a vida, vocês sabem quantos acordos vocês fizeram, e agora não podemos… alguém que não tem coragem de falar contra os banqueiros que quebraram o país, falar que é o salário do aposentado ou o salário do químico, do metalúrgico que tá muito alto e que, portanto, tem que ser reduzido. O conselho que eu poderia dar a um amigo europeu é de que já foi muito mais barato resolver essa crise, muito mais barato se a gente tivesse feito as coisas na época certa. Agora tá muito mais caro e, se continuar demorando, vai ficar muito mais caro. Os economistas sabem disso. Então o paciente estava com uma unha encravada. Hoje, ele já está com uma perna amputada e, se demorar mais um pouco, poderá morrer. Então eu acho que a França tem história, tem tradição, tem cultura, tem indústria e tem uma economia forte, pra não permitir que haja um retrocesso no que vocês conquistaram com tanta luta no século passado. E o que eu posso recomendar, se eu tivesse aqui com meu amigo François Hollande sentado, eu ia dizer o que eu disse pra Dilma muitas vezes: paciência. Um governante não pode tomar nenhuma atitude precipitada. Paciência. O que não pode é permitir que as pessoas comecem a desacreditar numa coisa que vocês constituíram, que é um patrimônio da humanidade, que é a construção da União Europeia. Talvez, lá do Brasil, eu enxergue com olhar diferente de vocês, mas eu acho que a construção da União Europeia é um patrimônio democrático da humanidade que deve ter muitos defeitos, e os defeitos existem exatamente para que a classe política possa consertar. O que não pode é abandonar um caminho extraordinário que vocês construíram. Mas, ao mesmo tempo, é preciso criar instrumentos e mecanismos de mais solidariedade, de mais democracia e de mais participação, para que as decisões não fiquem subordinadas a quem tem mais dinheiro, a quem tem mais indústria ou a quem tem a economia maior. Nessa hora é que precisa prevalecer a política e não o resultado dos números. E eu acho que a Europa precisa voltar à sua normalidade, eu acho, sinceramente – eu não sou economista; depois aqui os meus economistas vão me puxar a orelha no Brasil –, mas eu acho que o ajuste aqui não pode ser feito da mesma forma que foi feito em alguns países, sabe, da América do Sul, da América Latina. O ajuste aqui, pela força da economia, ele pode ser feito no mais longo prazo. Não precisa ser uma coisa imediata. Eu não sei por que – depois algum economista vai me explicar – eu fui candidato em 89. A dívida pública da Itália já era 120% do PIB e não era problema nenhum e, de repente, virou problema! Eu não sei a dívida da França quanto que é: 80% do PIB. A do Brasil é só 35 e alguns acham que é problema. Eu acho que vai ser problema o dia que a gente não tiver dívida, porque um pouco de dívida é que pode fazer a gente crescer, a gente fazer mais investimento, a gente se desenvolver. Então eu acho que é importante, e eu disse isso dia 23 de setembro de 2008: essa crise está nos chamando para as grandes decisões políticas que nós desaprendemos a tomar. Nós temos uma geração de dirigentes políticos que é resultado do estado de bem-estar social, que não estava acostumada a viver em crise e que, portanto, tá na hora de aprender. A crise é extraordinária, porque ela pode fazer aparecer algo novo, e a gente deixar de fazer a mesmice que a gente historicamente fez. Quando caiu o muro de Berlim, os representantes do partido Comunista no meu Brasil, Jospin, me criticaram, porque eu dizia: “Graças a Deus caiu o muro de Berlim e agora a gente vai ficar livre pra pensar outra vez”. Essa crise está nos convidando a pensar. E não é apenas a discussão econômica, que é uma discussão extraordinária, mas é pensar politicamente num modelo de desenvolvimento, num modelo de repartição, no resultado desse crescimento e eu tenho certeza que os franceses saberão fazer isso. E eu vou dar o exemplo de uma coisa importante: a União Africana acaba de aprovar um programa – Programa de Desenvolvimento de Infraestrutura Africano, o PIDA – então um programa que prevê o investimento de 360 bilhões de dólares até 2040 e 67 bilhões de dólares até 2020, se não me falha a memória. Eu acho que, se é verdade o número que o meu ministro da Economia falou na hora do almoço, que já foi investido, para salvar a crise, algo tá errado no mundo, gente. Já foram investidos 9 trilhões de dólares, trilhões. Eu fico imaginando: o grande programa de desenvolvimento da União Africana, pras principais obras de infraestrutura, é de 360 bilhões de dólares até 2040. Eu fico imaginando… se é verdade que a gente pode, sabe, discutir a crise, a gente tem que saber o seguinte: nós precisamos de mais crescimento, não é isso? Mais crescimento significa que nós precisamos de mais crédito. Mais crédito significa que nós precisamos de mais comércio. Mais comércio significa que nós precisamos de mais consumo. Tudo isso junto significa que nós precisamos de mais empregos. Tudo isso junto significa que nós precisamos de mais salário. Ora, porque que um mundo desenvolvido, que está com problema de consumo, não cria mecanismo de financiamento, para que os países africanos recebam financiamento de longo prazo a juros mais baratos, para poder começar a desenvolver uma indústria, uma agricultura? E isso vai virar o quê? (APLAUSOS NA PLATEIA) Isso vai virar uma região em desenvolvimento, que vai gerar mais poder de consumo e que vai comprar produtos dos países desenvolvidos, que é quem consegue produzir os manufaturados que nós precisamos. Então por que que a União Europeia não faz uma discussão – e não tô dando palpite na França e na Europa. Eu tô dizendo o que eu fiz no Brasil. Quando veio a crise, eu disse ao meu ministro Guido Mantega: “Temos que colocar dinheiro à disposição da Argentina, temos que colocar dinheiro à disposição do Mercosul, para que a gente possa financiar as exportações brasileiras. E o mesmo nós temos que fazer pra África, o mesmo nós temos que fazer… Exportar com o objetivo de fazer com que as máquinas sejam o início de um processo de industrialização, de modernização de uma agricultura, que todos nós sabemos que eles precisam, mas que, sem dinheiro, não vai acontecer. E o que eu acho fantástico é que o Lehman Brothers quebra, ninguém vai preso e ele recebe os trilhões que os países pobres não recebem no mundo. Não é séria a discussão. Eu acho que é preciso colocar um pouco mais de responsabilidade nessa discussão. Eu digo isso porque, no meu Brasil, nós quase nunca tivemos reserva, mas agora a presidenta Dilma falou que nós temos 378 bilhões de reseva, mais 14 emprestado pro FMI, já vai pra quantos? Nós não precisamos de tanto. Precisamos, vocês economistas? Ela poderia pegar um tiquinho disso, um pouquinho só, e colocar pra financiar países mais pobres, pra vender máquinas financiadas de longo prazo, pra que esses países tenham chance de crescer (APLAUSOS NA PLATEIA). Eu acho que essa é uma forma mais importante, mais importante para que a gente possa, nas próximas reuniões, (INAUDÍVEL) da crise. Eu queria encerrar lendo pra vocês o seguinte: uma outra debilidade. Tudo no mundo está globalizado. Você vê a seleção da França jogar, o que menos tem é jogador da França no time francês. Tem jogador do mundo inteiro. Vê o Real Madri jogar, é o time mais globalizado do planeta. A economia tá globalizada, qualquer banco da França é banco no Brasil. A única coisa que não foi globalizada, meu caro Jospin, foi a política. A política ainda está subordinada aos interesses eleitorais de cada país, de cada partido (APLAUSOS NA PLATEIA). Eis aí a questão: nós precisamos globalizar a política, por isso precisamos criar fóruns multilaterais mais representativos, mais consistentes, que possam fazer as decisões acontecer, porque, veja, você não pode, você não pode ter no mundo um país que tenha a moeda padrão para o comércio. Qual foi o fórum que decidiu que o dólar seria a moeda? Da mesma forma, Paulo Nogueira, que não tem nenhuma decisão de que o presidente do Fundo tem que ser europeu e o do Banco Mundial tem que ser americano. Também não existe nenhuma lei que diga que o dólar é a moeda padrão. Era o ouro, virou dólar. Quando vocês criaram o Euro, o Euro foi uma coisa importante. Por que o Brasil tem que fazer negociação com a China tendo o Dólar como moeda? Com a Bolívia? Por que não fazemos entre as nossas moedas? É fácil falar, mas é difícil fazer, porque a burocracia dos bancos centrais ainda é muito poderosa. Mas nós sabemos que este é o caminho. Não tem sentido eu querer comprar, sabe, um colar boliviano, eu ter que ter um Dólar pra pagar, quando eu posso pagar em Real ou com Peso Mexicano. Por que é que eu tenho que fazer isso? O que a gente não se dá conta é que cada vez que o país que tem a maquininha de produzir moeda resolve fazer os seus ajustes internos, precisa discutir os reflexos externos. Eu lembro que, em 1975, o Brasil fez um bom programa de investimento em infraestrutura, e o Brasil tinha Dólar de monte no mundo, e o Brasil pegou Dólar emprestado a 3% de juro ao ano. E um belo dia, um amigo dos economistas brasileiros, Paul Volcker assume o Banco Central americano e, pra fazer um ajuste interno, ele eleva os juros de 3 para 21% e o Brasil ficou 20 anos encalacrado, sem crescer, sem gerar empregos, sem investir em educação de qualidade. Então, instituições multilaterais mais fortes deveriam trabalhar para corrigir esses equívocos existentes no mundo de hoje. E eu queria dizer que eu espero que os presidentes das Repúblicas não se reúnam mais pra discutir crise. Nós temos que discutir soluções. Soluções. Se a gente dedicar… Ô, Jospin, você foi primeiro-ministro, eu fui presidente. Cada vez que acontece uma desgraça na nossa vida, aparece alguém falando o seguinte: vamos criar um comitê de crise. Você criou comitê de crise? Eu criei muitos (RISOS NA PLATEIA), mas eu só fui pra frente quando eu comecei a criar comitê de soluções. É muito mais fácil comitê de soluções, porque as pessoas pensam de forma positiva, as pessoas pensam no melhor, as pessoas pensam em encontrar alternativas. As pessoas não ficam fazendo aquelas análises de conjuntura de desgraça o tempo inteiro, desgraça o tempo inteiro, sofrimento o tempo inteiro. Eu, em cada reunião dessas, eu ficava mais velho dez anos. Olha como eu tô bonito agora, sem barba, tô muito melhor do que eu estava antes (RISOS E APLAUSOS NA PLATEIA). Por isso, meus queridos companheiros, eu acho que não é pra gente ficar desesperado. Falo isso do coração. Eu acho que tem problema, esse problema era menor, ele virou maior, porque deixaram passar muito tempo, deixaram passar muito tempo, mas ainda é tempo de consertar. E eu queria dizer pra vocês que é muito mais barato consertar em tempo de paz do que em tempo de guerra. E pra consertar em tempo de paz, não vamos ter medo. A Fundação Jean-Jaurès, o Partido Socilaista pode convocar debate com a sociedade. Não tem problema que tem gente mais radical, menos radical. Vamos ouvir todo mundo. Sabe por quê? Porque essa crise não é de nenhum de nós individualmente. Essa crise é da responsabilidade de pessoas que nós nem conhecemos, porque, quando o político é denunciado, a cara dele sai de manhã, de tarde e de noite no jornal. Vocês já viram a cara de algum banqueiro no jornal? Sabe por que não sai? Porque é ele que paga as propagandas dos jornais, então não sai nunca (RISOS E APLAUSOS NA PLATEIA). Então, meus queridos, eu espero que eu tenha dado mais alento do que desestímulo pra vocês. A única coisa que vocês não podem é perder a esperança. A única coisa que vocês não podem é deixar de acreditar que um país que construiu a história que vocês construíram vai tremer diante de uma crise como essa. Que Deus nos ajude, e que o espírito da Revolução Francesa (RISOS NA PLATEIA) permeie a cabeça de cada francês e de cada francesa e que a gente encontre a melhor solução pra França continuar sendo essa extraordinária nação que ela é. Um Abrão e muito obrigado (A
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