De presente de aniversário, ganhei do meu filho, o Eduardo Müller, o DVD “Raul, o Inicio, o Fim e o Meio. ” Assisti ontem. Me emocionei, como me emociono a cada vez que ouço qualquer música do Raul Seixas. O filme consegue mostrar a vida deste que mais do que músico, foi um filósofo que construiu um modo de vida e viveu dentro dele. Raul em suas canções sempre criticou o sistema da propriedade privada: “…Porque longe das cercas Embandeiradas Que separam quintais No cume calmo Do meu olho que vê Assenta a sombra sonora De um disco voador…”. Esta mesma propriedade privada que torna as pessoas serviçais e propriedade de outrem, mas que ele também sinalizava como se libertar e libertar ao outro do jugo da propriedade “Se eu te amo e tu me amas E outro vem quando tu chamas Como poderei te condenar Infinita tua beleza Como podes ficar presa Que nem santa num altar…” Como anuncia na música Maluco Beleza, dos primórdios de sua carreira, Raul sempre foi intensa emoção, buscando mediá-la com a razão: “Controlando A minha maluquez Misturada Com minha lucidez…” Raul definitivamante vivia o que cantava. E por viver o que cantava, o que deveria ser a prática de todos e não a da maluca vida de disputas por mais e mais propriedades em que vive o mundo, talvez ele tenha tantas vezes tentado começar de novo a sua mediação entre a maluquez e a lucidez: ” Queira! (Queira!) Basta ser sincero E desejar profundo Você será capaz De sacudir o mundo Vai! Tente outra vez! … Tente! (Tente!) Que a vitória não está perdida Se é de batalhas Que se vive a vida !” Raul sacudiu o mundo. As suas canções são cantadas hoje por jovens que nasceram depois do desaparecimento do Raul. Continuam sinalizando um modo de vida, mediar a maluquez da emoção com a lucidez da razão. Depois do filme, estou agora a ouvir novamante as músicas do Raul, todas. Quanto ao conteúdo do filme? É um documentário. Não há muito o que comentar. O filme de Walter Carvalho ouve depoimentos de todas as mulheres que amaram e foram amadas por Raul e ouviu seus parceiros de vida. Me parece que ao ouvir Paulo Coelho e Bial, mais do que mostrar Raul, o autor buscou figuras midiáticas que lhe pudessem ampliar as possibilidades de venda do filme, afinal, no próprio filme a verdade esta declarada. A ultima parceria de Raul com Paulo Coelho havia sido em 1974 e Bial, este, assim como milhares de outros, assistiu vários shows do Raul, única declaração clara no filme. É bem provável que Raul, defenestrado pelas gravadoras e vendido como sujeito exótico pela Globo em seus programas dominicais, se estivesse vivo, não topasse um filme como este, que reafirmou na prática o que Raul sempre combateu, qual seja “…Eu não preciso ler jornais Mentir sozinho eu sou capaz Não quero ir de encontro ao azar…” Mas assim como na guerra, a história sempre é contada por que a vence. Por isto, mesmo com a recomendação de que é preciso olhar as entrelinhas e ler para além do que o documentário propõe, sugiro que quem ainda não viu o filme, veja.
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