Do Contexto Livre
O “convite” foi repetido até a náusea, nesse intenso, denso e por vezes tenso 2015, pela voz de âncoras das grandes emissoras de televisão, como Ana Paula Araújo (Globo): “Vamos falar agora de crise. Nem bacalhau nem peru. Este Natal está mais para Natal do frango. É que o preço da cesta disparou e é mais um dissabor neste fim de ano, não é isso Rodrigo Bocardi? Tem empresa que já está até jogando a toalha e dizendo que não vai conseguir bancar a ceia para os funcionários….”.
Assim a jornalista e apresentadora do Bom Dia Brasil (TV Globo, ed. 15/12/2015) fez a chamada da reportagem de César Menezes, um caso que considero emblemático nessa sórdida arte de produzir uma narrativa sobre a crise que é muitíssimo mais grave que as dificuldades econômicas pelas quais o país passa. Não importa o que digam as fontes e a realidade na qual o repórter irá desenvolver sua pauta: vale a “hipótese” (neste caso, “2015 é o Natal do frango”) e ponto final. Vejamos os principais pontos da matéria.



Menezes abre com uma sonora do empresário Fernando Prata, declarando que sua empresa não conseguiria oferecer uma cesta de Natal aos seus mais de 400 trabalhadores, em função da crise, porém “para não deixar passar em branco, vamos dar um panetone e um espumante”. Por que a empresa de Prata está em crise? Qual o setor? Jamais saberemos, a menos que se refaça a apuração.
Para legitimar sua verdade já pronta, desde a redação, o repórter chama o especialista Fábio Gallo (FGV-SP). “Esse ano não vai ter bacalhau, não vai ter peru, vai ser no máximo o ano do frango e vamos estar contentes com isso”, decreta o professor de finanças, (assista à reportagem aqui:
Zona Cerealista
O que me parece mais grave, na narrativa construída pelo repórter da TV Globo, é sua incursão pela Zona Cerealista, um mercado alternativo no Centro de São Paulo, no qual os produtos são vendidos por até 50% do preço das grandes redes de varejo. Menezes ignora completamente o que seria a grande questão de sua pauta: existe uma cadeia de atravessadores, escroques e achacadores da economia popular, como é de domínio público, inflando preços e extorquindo a sociedade, de Norte a Sul do país. A inflação não é resultado apenas de decisões do governo federal. É um processo de transferência de renda e os agentes econômicos, públicos e privados, têm peso no índice final.
Voltemos à reportagem. Uma consumidora (Solange Maceira, empresária) garante que compra Castanha-do-Pará e queijo brie 30% mais barato naquele comércio. Temos aí um indício que poderia levar a negação de sua hipótese. No entanto, o desejo de desinformar e lograr a boa-fé do telespectador (e da sociedade em geral) ultrapassa todos os limites no instante seguinte,
César Menezes entrevista o gerente de marketing Thiago Moraes, que fala por uma determinada empresa da Zona Cerealista. E Moraes dá ao repórter a informação mais relevante: “A gente trabalha com até a metade do preço de grandes lojas, grandes redes de supermercados”. E Menezes pergunta: “Então vem comerciantes pra cá também?”. O empresário confirma: “Vem e compra em atacado, aqui direto da loja”.
É notável que o jornalista até tenta inverter a lógica da narrativa, após ouvir o gerente de marketing: “Desse jeito dá pra caprichar na ceia. Quem sabe sobra até um pouquinho para o panetone de presente. Aqui está R$ 6,90 cada um…”. Tarde demais.
O tom final da reportagem é do âncora de São Paulo, Rodrigo Bocardi: “Mas, não é que o panetone está barato. Segundo a pesquisa do Instituto de Economia da Fundação Getúlio Vargas está 12% mais caro. E o frango que falamos tanto aí como algo bom, baratinho, pro Natal ele também ficou 10% mais salgado de acordo com este levantamento”. E despede-se em tom jocoso, provocando gargalhadas dos outros dois apresentadores (Ana Paula Araújo e Chico Pinheiro): “Ana e Chico, na medida do possível, Feliz Natal pra vocês”.
Apesar da crise
O mote virou uma fanpage no Facebook (acesse aqui: http://zip.net/bxsBsg) com centenas de reportagens articuladas sob este rótulo: “Apesar da crise”. São páginas infelizes da história recente da história dos meios de comunicação que monopolizam o mercado, nacionalmente. Articulados a partir do flagrante desrespeito à Constituição Federal (que proíbe a existência de monopólios), seis grupos familiares ditam através de jornais impressos, emissoras de rádio e TV, complementadas por portais de entretenimento e notícias na internet (que geram robustos perfis nas redes sociais) a percepção primeira de “realidade” que o cidadão comum tem, todo santo dia. Trata-se de verdadeira “espada de Dâmocles” sobre a cabeça da nascente democracia brasileira… Até aqui, nenhum governo progressista enfrentou esse monopólio.
Para tentar ver e/ou ouvir os outros lados possíveis dessa história, o/a leitor/a tem de se virar. Não basta apenas desconfiar da verdade de ocasião, vendida a todo instante pela mídia. É necessário, além do senso crítico, ter tempo e paciência para buscar as poucas fontes alternativas e fazer o sagrado contraponto.
Penso que este tipo estranho de “reportagem” (assim mesmo, entre aspas) assinada por César Menezes diz muito dessa postura antidemocrática e fraudulenta dos meios de comunicação tradicionais, no país. Na obra “Mídia, poder e contrapoder” (em parceria com os professores Ignácio Ramonet e Dênis de Moraes), o jornalista e pesquisador espanhol Pascual Serrano chama nossa atenção para isso: a oposição aos governos progressistas na América Latina “não é dos partidos políticos de ideologia contrária, a par de sua militância cidadã, mas os grandes meios de comunicação que se tornaram atores políticos fundamentais”.
Serrano, contudo, vai acrescentar algo que considero ainda mais grave neste protagonismo antidemocrático da mídia brasileira: “Os jornais, os canais de televisão e as rádios, com seus colunistas, seus editoriais, suas reportagens por encomenda e suas informações manipuladas, lançar-se-ão como hienas contra qualquer um que ousar atentar contra os privilégios do mercado, pois foram criados para defendê-lo. E o mais grave: chamarão isso de liberdade de imprensa”. Em outras palavras, a mídia corporativa coloca-se como balizador de peso nas relações de poder da contemporânea sociedade democrática.
A crise econômica, vitaminada pela crise política protagonizada pelas forças de oposição no Congresso Nacional, desde 1º de fevereiro de 2015 com a eleição do ainda presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ), foi ressignificada e potencializada pela narrativa da crise econômica midiática. A ver, os desdobramentos para 2016, quando talvez a atual presidente da República finalmente consiga começar seu segundo período de mandato, caso vença a tentativa de golpe em curso.
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Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
Manjado, sacado, descoberto. Por alguns.
Entretanto, ainda há os idiotas idiotizados que ainda não perceberam que são manipulados.
Ainda há, também, os idiotas idiotizados que, de tão manipulados, tornaram-se manipuladores nas mãos dos titeriteiros impiedosos e covardes.
Contudo, ainda há uma categoria muito pior: a dos manipuladores profissionais, titeriteiros, canalhas. A cada dia a gente vê um deles a aparecer, no auge de sua canalhice e decadência, mas a receber um maciço prestígio de uma mídia igualmente cretina e canalha. Eles vêm de várias partes e de classes profissionais, de artistas, a atores de filmes pornôs, à jogadores (futebol, pôquer), a herdeiro de massas que tanto espoliaram a economia brasileira, … Estão aí e temos que nos cuidar e proteger.
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“E assim se produz a crise econômica midiática” – com a GBOBO Gboebbels na liderança do processo do qual não se salva ninguém e nenhum deles.
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