
Do Facebook do Francisco Costa
Uma das perguntas que mais me surpreenderam, das que foram feitas a mim, ouvi ontem, de um colega, também professor, politizado e com idade de ser meu filho: “Se ficasse provado que o Lula tem uma fortuna injustificável, que o triplex e o sítio são dele, em nome de laranjas, que os filhos dele estão ricos… Você continuaria petista?”
Minha resposta: “quando Lula tinha 80% de aprovação e 2/3 do Congresso nas mãos, ele poderia ter feito o que quisesse. Nessa época cobrei a Lei da Mídia. Aliás, o Gurshiken, José Dirceu, Franklin Martins… Cobraram a mesma coisa… Mas simplório, sem conhecimentos teóricos de Sociologia e Economia, Lula acreditou em conciliação de classes (como tudo na vida dele, agora, a alto preço, aprendeu que isso não existe, é impossível, a burguesia e o proletariado são naturalmente antagônicos na calmaria e inimigos quando com interesses contrariados).
Este foi o grande furo de Lula, ter deixado passar a oportunidade de transformar a Mídia de partido político neofascista em órgão de telecomunicações.
Pois na semana passada, num evento em São Paulo, discursando para uma multidão, sem ser questionado, naturalmente Lula fez a sua autocrítica, admitindo isso, humildemente.
São poucos os homens com essa grandeza, com essa dimensão de espírito, com esse desprendimento, e fica muito difícil acreditar que haja desonestidade em gente assim.
Há esperteza nele, muita esperteza. Se a política é o reflexo da Economia, não existe ambiente de maior competição, o que quer dizer que o não esperto permanece na base, não sobe.
Eu diria que Lula é um anti Eduardo Cunha, o Cunha ao avesso, em extremo opostos, ambos agindo por instinto e intuição, porque sem lastros teóricos, sem conhecimentos acadêmicos, o que os faz grandes, um para o bem e o outro, para o mal.
Por isso confio em Lula.
Mas imaginemos que, conforme você me perguntou, Lula venha a me decepcionar.
Eu criaria reservas em relação a ele, mas não lhe daria as costas, e por quê?
Por tudo o que fez, pelo que encarna e representa, Lula tornou-se símbolo de um projeto de sociedade, caudatário de ambições coletivas, e quando se chega a esse estágio, possíveis desvios pessoais não invalidam a sua necessidade histórica.
Como a sua pergunta foi sobre hipótese, considere como hipótese: ainda que Mandela fosse pouco honesto, isto não invalidaria o seu papel no fim do apartheid sul africano; ainda que Mao fosse pouco honesto, não podemos subestimar que sob a sua liderança dezenas de etnias, centenas de línguas e religiões se uniram para formar a gigantesca, sob todos os aspectos, China de hoje…
Pela carga afetiva dirigida a ele, pela admiração que gera, Lula tem a obrigação de ser honesto, mas, considerando que foi o sujeito que, em oito anos tranformou a décima sexta economia do mundo em oitava, inserindo vinte e dois milhões de seres humanos na sociedade de consumo, tirando oito milhões da miséria, levando o país a ser o segundo produto mundial de alimentos, listando-o no rol dos países mais importantes do mundo, tirando-o do mapa da fome, da ONU… Ainda que Lula tivesse a honestidade de Eduardo Cunha ou Aécio Neves seria uma necessidade urgente e definitiva, como foi, o que poderia provocar críticas de homens pequenos, leitores das páginas policiais dos jornais, mas que não o invalidaria como um dos grandes da nossa História.
Entende porque eu não trocaria de lado, meu amigo?
Moro faz uso da mais rudimentar e desumana tática para obter delações: prende e maltrata, joga no anonimato da masmorra, uma modalidade de tortura psicológica, tão agressiva e cruel quanto a física, até que desesperado, deprimido, quase despersonalizado, porque isto é o que se busca na tortura, a vítima peça o benefício da delação premiada, em troca da liberdade.
José Dirceu está preso por isso, sem culpa formada e sem julgamento, com o pequeno Hitler de Curitiba esperando que ele se curve, mas entre ser um Delcídio do Amaral, um Cabo Anselmo, um Silvério dos Reis, um Roberto Freire ou continuar preso, a depender dele, está condenado à prisão perpétua.
Pois é este o espírito do verdadeiro homem de esquerda, a determinação do homem de esquerda, a honestidade do homem de esquerda, com a qual me identifico, e que me impede de mudar.
Para os inconscientes, os alienados, a direta é uma opção. Para os esclarecidos, conscientes, a esquerda é um necessidade.
São os rebeldes e os dissidentes que fazem a História, impulsionando a caminhada.
Francisco Costa
Rio, 10/04/2016.
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Francisco costa, com sua licença, faço minhas suas colocações, eu já mais vou sair desse lado, haja o que houver.
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