política

“As novas tecnologias conspiram contra a democracia” (Juan Carlos Mondero do Podemos da Espanha)

Embora este blogueiro não concorde com concepção de “partido movimento”, publico a entrevista de Juan Carlos Mondero, do Partido Podemos Espanhol por que suas opiniões ajudam a compreender o que se passa na atual conjuntura mundial. Mondero, assim como boa parte da esquerda, já não tem mais em seu vocabulário a Luta de Classes, como se ela já não existisse. Esta é a principal razão da minha discordância com Mondero, embora concorde com boa parte do conjunto de sua análise, inclusive na releitura que precisa ser feita dos movimentos, para que de identitários, passem a ter uma compreensão mais ampla da política e da sociedade, sob pena de nos dividirmos cada vez mais. Segue a entrevista de Mondero a Carta Capital:

Juanpor Marina Gama Cubas na Carta Capital

Segundo Juan Carlos Monedero, fundador do espanhol Podemos, as redes sociais viraram um espaço de manipulação a favor da extrema-direita

Monedero, um dos fundadores do Podemos espanhol, veio ao Brasil lançar seu livro

Juan Carlos Monedero, um dos fundadores do partido espanhol Podemos, esteve no Brasil com dois objetivos: visitar o ex-presidente Lula em Curitiba e lançar seu livro Curso urgente de política para gente decente, pela editora Contracorrente. Em uma conversa com a CartaCapital, o cientista político destacou que a esquerdas precisam entender que sempre haverá pequenos matizes nas ideias, mas os interesses devem ser maiores para sua união.

Apesar do avanço de extrema-direita em países da Europa, ele intui que essa “onda” será breve, pois resultado em uma crescente exclusão de amplos setores da sociedade. Entretanto, o campo progressista precisa entender que “não pode mais olhar para trás e voltar ao passado”.

“É muito importante que os partidos da esquerda se entendam como partidos-movimentos, quer dizer, que seus laços estejam ligados também aos movimentos sociais porque é a única maneira para não se converter em partidos tradicionais.” Leia a entrevista a seguir:

CartaCapital:  Como foi a conversa com Lula?

Juan Carlos Monedero: Falamos muito de história. O presidente está lendo um livro sobre a influência do petróleo na política latino-americana. Acho que isso é muito importante, pois o ajuda a entender de maneira muito clara que ele está na prisão pelos interesses dos grandes capitais.Também vi um interesse muito grande do presidente Lula pela caminho que vem percorrendo a Europa e o avanço da extrema-direita por lá.

CC: Como o senhor e o seu partido analisam a vitória do Bolsonaro?

JCM: Considero ilegítima a vitória de Bolsonaro nas eleições. Ainda que tenha havido regras de tempo de televisão na campanha para cada partido, não houve um plano de controle do uso das redes sociais, como o WhatsApp.

CC: O Senado espanhol discutia justamente o uso das redes sociais por partidos políticos. Entre os objetivos do projeto estava autorizar a criação de grupos partidários nessas plataformas, inclusive no WhatsApp, e a autorização dessas legendas em recolher dados de usuários sem necessitar de seus consentimento. Como vê essa propostas e qual a posição do Podemos sobre ela? 

JCM: As novas tecnologia conspiram contra a democracia. Vimos o Facebook vendendo os dados a extrema-direita, que os usaram de forma determinante para o êxito do Brexit na Inglaterra. Milionários de extrema-direita usaram as redes sociais para subverter a democracia e foi exatamente o que ocorreu aqui no Brasil. Houve um uso ilegítimo para mudar a opinião da população e isso vai contra a democracia. O partido é contra essa medida, mas o Senado é uma câmara dominada pela direita. Na Câmara dos deputados dificilmente essa medida será aprovada.

CC: Aqui no Brasil os partidos de esquerda e progressistas não se uniram nas eleições presidenciais o que, de certa forma, contribuiu para a vitória de Bolsonaro. A fragmentação da esquerda acontece também na Europa e na Espanha?

JCM: O capitalismo em crise sempre tem como resposta um aumento do autoritarismo. Ocorreu nos anos 30, nos anos 70 e agora.Cria-se um clima de medo e o medo unifica a direita porque tem uma característica mais fácil de entender porque está vinculada a violência, ao castigo, a repressão.

É verdade que a direita sempre é mais pragmática e o pensamento vinculado a ela sempre está mais perto de nossos tempos. Enquanto a esquerda costuma operar com o mundo alternativo e nem sempre tem um sentido de realidade.

A esquerda precisa da utopia, à direita basta prometer pequenos ajustes concretos. Isso explica que é muito fácil que a esquerda debata e discuta sobre ideias e que, ao ter um matiz em uma ideia, ocorra uma separação que não lhe permite manter-se junta. Os interesses unem muito, mas as ideias separam muito também.

Por último, é verdade que a esquerda desde o século XX está muito fragmentada entre reforma, revolução e rebeldia, entre comunismo socialismo e o anarquismo. Na tradição da esquerda essa separação é muito forte.

Agora é preciso ver vivemos em mundo muito mais complexo que todos podemos opinar sobre quase tudo faz com que um só partido político representa tudo o que pensamos. Por aí pequenos partidos surgem representando identidades pequenas e, ao final, todos estamos buscando ser lideranças, mesmo que pequenas, do que fazer parte de algo maior juntos. Quem pode resolver são lideranças populares.

CC: Como vê o futuro da esquerda no mundo?

JCM: Tenho a intuição de que esse “inverno neoliberal” será breve porque o modelo capitalista tem menos ferramentas para dar soluções e expulsa mais gente cada vez mais, expulsa mais minorias. Também há um esgotamento ambiental muito grande e isso é um problema que não se pode ignorar.

A esquerda tem que fazer bons diagnósticos e entender que não pode olhar para atrás e voltar para o passado. Tem que construir uma sociedade que é muito diferente daquela do passado, dos anos 60 e dos anos 80. Além disso, precisa incorporar temas como o feminismo e o ecologismo, incorporando-os do programa da esquerda.

Vamos necessitar partidos com identidades claras, mas dificilmente um só partido vá represar a pluralidade, interesses e vontades de toda uma cidadania de esquerda. Isso nos obriga a mudar essas pretensões hegemônicas que sempre tiveram os partidos da esquerda.

É muito importante que os partidos da esquerda se entendam como partidos-movimentos, quer dizer, que seus laços estejam ligados também aos movimentos sociais porque é a única maneira para não se converter em partidos tradicionais.

CC: Hoje a Espanha tem Pedro Sánchez do PSOE,  um partido de esquerda tradicional, como presidente. As pautas do Podemos estão avançando com esse governo? Há problemas?

JCM: Podemos conseguiu dois objetivos: primeiro, tirar Mariano Rajoy da presidência e retirar as políticas neoliberais deles. Tivemos uma discussão com o Partido Socialista em que negociamos algumas propostas e projetos. O PSOE governa e nós sustentamos seu governo. Com essa aliança, conseguimos arrancar enormes melhoras sociais, como o aumento do salário, recuperação da memória histórica do país perdida com durante o governo de Franco, valorização de temas como saúde e educação.

CC: Como o Podemos pode crescer ainda mais na Espanha?

JCM: Podemos tem crescido muito nesses meses precisamente porque foi flexível e por fazer parte do governo de Pedro]Sánchez. A sociedade reconheceu seu papel importante no governo.

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