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São Lourenço do Sul: Pedido de Caducidade da Concessão da Água da Corsan/Aegea é Medida Inédita e exemplo a ser seguido por outros municípios do RS

O pedido de caducidade entregue pelo prefeito Zelmute Marten à AGERGS fundamenta-se em um histórico de falhas graves, com episódios repetidos de desabastecimento em pleno verão.

Diante da degradação acentuada na distribuição de energia pela CEEE Equatorial e do caos no abastecimento de água sob a gestão da Corsan/Aegea, a prefeitura local tomou uma medida drástica e exemplar: a criação do DESAN (Departamento Municipal de Saneamento) e o protocolo formal do pedido de caducidade da concessão da água a AGERGS. O gesto é um grito de basta contra um modelo que prometeu modernidade, mas entregou desassistência, falta de comunicação e prejuízos econômicos que castigam a população e os setores produtivos gaúchos.

O caso da CEEE Equatorial é emblemático. Desde que o grupo assumiu a distribuição, a demora no restabelecimento da luz e o sucateamento das estruturas operacionais tornaram-se pauta constante na mídia e até mesmo na privateira RBS.

Em São Lourenço do Sul, a situação atingiu o limite da tolerância. Durante recente reunião interinstitucional, a ausência de uma estrutura operacional permanente no município e a falta de equipes qualificadas foram expostas como feridas abertas, evidenciando que a busca pelo lucro imediato atropelou a segurança energética da região.

Com a Corsan (Aegea), o cenário é de crise institucional. O pedido de caducidade entregue pelo prefeito Zelmute Marten à AGERGS fundamenta-se em um histórico de falhas graves, com episódios repetidos de desabastecimento em pleno verão. A criação do DESAN surge não apenas como um órgão técnico, mas como um escudo da sociedade para fiscalizar o que a concessionária negligencia. É a prova de que, se o Estado se retira da prestação do serviço, ele precisa se agigantar na fiscalização para evitar que o direito básico à água seja sacrificado no altar dos dividendos.

O argumento de que o setor privado resolveria os gargalos de investimento esbarra na realidade de ruas sem luz e torneiras secas. Ao privatizar, o governo estadual fragilizou a capacidade de resposta a eventos climáticos e às demandas do interior. A resistência de São Lourenço do Sul é um microcosmo do que o estado enfrenta: a necessidade urgente de retomar o protagonismo público. Afinal, a privatização tem gerado o que lideranças locais classificam como uma “desassistência contínua”, provando que energia e água são serviços estratégicos demais para serem deixados sem a mão firme do interesse público.

Matéria de ZH 23/01/2023, fonte de informação para este artigo do Blog

O Pedido de Caducidade é, em termos simples, o “cancelamento” forçado de um contrato de concessão por culpa da empresa prestadora do serviço.

Diferente de uma rescisão amigável, a caducidade ocorre quando o Poder Público (neste caso, a Prefeitura de São Lourenço do Sul provocando a agência reguladora) decide extinguir o contrato antes do prazo final porque a concessionária não está cumprindo suas obrigações básicas.

Como funciona na prática?

O Motivo: Não é por qualquer falha. Para pedir a caducidade, o município precisa comprovar que a empresa está prestando o serviço de forma deficiente ou inadequada, ou que descumpriu cláusulas contratuais e normas regulamentares de forma reiterada.

O Processo: O pedido feito à AGERGS (Agência Estadual de Regulação dos Serviços Públicos Delegados do RS) exige um processo administrativo. A empresa tem direito à ampla defesa, mas, se as falhas (como os apagões e a falta de água em São Lourenço) forem comprovadas como sistêmicas, o contrato é rompido.

A Consequência: Uma vez declarada a caducidade, a empresa perde o direito de explorar o serviço e o controle retorna ao Poder Público, que pode assumir a operação diretamente ou realizar uma nova licitação.

No caso de São Lourenço do Sul, o uso desse instrumento jurídico é o nível máximo de pressão institucional. Ele sinaliza que a gestão da Aegea/Corsan chegou a um ponto de ruptura onde a prefeitura não acredita mais na capacidade de recuperação da empresa, buscando retomar as rédeas do saneamento local para garantir o básico à população.

Este Blog, não é de hoje, sempre esteve entre aqueles que alertou sobre o que viria com a Privatização de Serviços Estratégicos. Se os Municípios do RS quiserem voltar a ter o protagonismo que tinham quando a CORSAN era Pública, precisam tomar medidas como esta, para mostrar que há resistência e não submissão do poder público local aos interesses de grandes corporações que só pensam no Lucro.


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2 pensamentos sobre “São Lourenço do Sul: Pedido de Caducidade da Concessão da Água da Corsan/Aegea é Medida Inédita e exemplo a ser seguido por outros municípios do RS

  1. Para início de comentário, quero parabenizar o Müller pela excelente matéria. 

    Dos órgãos da mídia hegemônica, penso que nem devemos perder tempo esperando, pois, ali não veremos matérias desse tipo.  Porém, creio que mesmo a mídia alternativa tem falhado, uma vez que deveria estar apostando nas mesmas com frequência bem maior, com o intuito de ampliar a consciência popular frente à nocividade das privatizações.

    De outra parte, me parece que a situação que estamos vivendo vem demonstrado cabalmente o êxito retumbante, o sucesso monumental da propaganda em prol das privatizações.  Tal propaganda foi despejada em doses cavalares sobre o povo brasileiro, notadamente na década de 1990 e inícios dos anos 2000.

    Podemos constatar o quão grande foi o sucesso dessa propaganda no objetivo de alienar e de abobalhar o povo, quando observamos a postura do sistema dominante, o grande capital.  Tal sistema se deu ao luxo de “reduzir a rotação”, quero dizer, de diminuir drasticamente a rodagem dessa propaganda nos anos e décadas seguintes. 

    Uma enorme parcela do povo brasileiro ficaria de tal forma entorpecida pela propaganda que passaria a apoiar as extremamente ruinosas privatizações.  O abobalhamento foi tão grande que parcela expressiva passaria a adotar postura – absurda – de total indiferença e de franca passividade diante da pilhagem, da rapinagem, do roubo de suas riquezas e patrimônio.

    O resultado disso está aí, escancarado. 

    Os privatistas/entreguistas assumiram o poder em praticamente todos os rincões e estão a entregar ao grande capital – a preço vil ou quase de graça – tudo o que pertence ao povo.  E, à exceção de uns “gatos pingados”, sindicatos e movimentos sociais, não se vê resistência significativa ao entreguismo. 

    A esmagadora maioria segue tocando a vida como se nada tivesse a ver com ela.  Segue se portando como se as privatizações já não tivessem piorado suas vidas.  Vidas que, logo ali, num futuro próximo, quando tudo estiver privatizado, terão piorado ainda mais, podendo chegar ao ponto de ser transformadas num verdadeiro inferno.

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