Luiz Marques é Professor de Ciência Política da UFRGS, doutor pelo Institut D’Études Politiques de Paris (Sciences Po) e ex-secretário estadual de Cultura do Rio Grande do Sul (Governo Olívio Dutra).

O que é democracia? Para uns “respeito às regras do jogo” (Norberto Bobbio); para outros “aceite das normas procedimentais” (Alain Touraine). Sob esse ponto de vista, a discussão sobre a chapa do PT/RS é extemporânea, independente das nuances conjunturais no último período.
Mas a democracia não é um regulamento burocrático para toda e qualquer circunstância, com uma maioria e uma minoria congeladas no tempo.
A democracia é um processo vivo que exige, em sua defesa, um olhar atento para cada momento na correlação de forças entre as classes sociais na sociedade.
As definições tomadas nas instâncias internas do partido não previram o fortalecimento da extrema direita e o esboroamento das candidaturas do chamado centro, cujo programa em nada difere do neoliberalismo que tem como sonho de consumo tornar o Brasil uma nova Argentina com o recrudescimento das políticas de desregulamentação e as privatizações.
As pesquisas mostram que as condições de vitória do presidente Lula, para mais um mandato, se alteraram. Antes se aventava a possibilidade de ganhar no primeiro turno; agora o segundo aparece indefinido.
O fato acendeu o sinal de alerta em nível nacional e justifica a alteração de tom na fala do presidente da sigla em escala nacional, para que os petistas gaúchos retomem o debate sobre a composição com o PDT. Com Juliana Brizola de líder na chapa e Edegar Pretto do PT na posição de vice.
A aliança tem um caráter simbólico. Unifica o trabalhismo no Rio Grande do Sul: (a) enfraquece a direita na disputa estadual ao atrair os pedetistas ao campo da esquerda e; (b) fortalece a competitividade eleitoral de Lula na disputa.
A polarização ocorre já no primeiro turno.
Esse é o dado novo a ser observado com atenção O acirramento na corrida presidencial, com a direita liberal fagocitada pela candidatura do miliciano Flávio Bolsonaro (PL) e digerida pelas classes dominantes – finanças, agronegócio, grande comércio varejista, megaconstrutoras, mídia corporativa – exige muita maturidade de nossos dirigentes para uma adaptação rápida ao quadro atual.
Os Estados Unidos e as big techs têm enorme interesse em derrotar o projeto encabeçado pelo presidente Lula, e já atuam contra os ideais republicanos. Jogo duro.
Os setores hegemônicos nunca tiveram apreço pela democracia, que é o regime da maioria. Sendo a maioria composta por pobres, a democracia é por consequência o regime governado pelos pobres.
A taxação dos ricos para garantir a liberação de impostos a quem recebe até cinco salários mínimos é a prova, para o andar de cima, de que sua existência corre risco com a ideia de pôr os trabalhadores no Orçamento da União e acabar com a equação de 6 por 1, na jornada de trabalho.
Tais propostas metem medo nas elites econômicas, as quais desenham o inimigo comum a ser abatido. A burguesia sabe: “camarão que dorme, a onda leva”.
As elites estão convergindo para o combate à candidatura à reeleição do presidente Lula, em nível nacional e internacional. Devemos fazer o mesmo em cada unidade da Federação.
A luta de classes elevou de patamar e cobra exigências que não estavam tão claras meses atrás, aos bravos militantes do PT/RS.
A situação se agravou, apesar de todas as conquistas do governo federal na reconstrução do país-continente dilapidado desde a deposição da presidenta honesta, celebrada pelos neoliberais.
Luiz Marques é Professor de Ciência Política da UFRGS, doutor pelo Institut D’Études Politiques de Paris (Sciences Po) e ex-secretário estadual de Cultura do Rio Grande do Sul (Governo Olívio Dutra).
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