Declaro aqui, bem claramente – se as unidades de autodefesa da Crimeia não tivessem conseguido pôr a situação sob controle, lá também haveria mortes. Para nossa felicidade, não aconteceu. Não houve um, um único, que fosse, confronto armado na Crimeia e nenhuma baixa. Por que aconteceu assim? A resposta é simples: porque é muito difícil, é, de fato, praticamente impossível, lutar contra a vontade do povo.
Aqui, cabe-me agradecer aos militares ucranianos – e a seus 22 mil soldados armados. Agradeço aos soldados ucranianos que não mancharam de sangue os próprios uniformes.
Outras reflexões vêm à cabeça, ligadas a isso. Continua a haver muita conversa sobre alguma espécie de intervenção russa na Crimeia, algum tipo de agressão. Muito estranho. Não conheço registro algum, na história do mundo, de intervenção sem que um único tiro tenha sido disparado, sem nenhuma baixa, sem nenhum ferido.
Como imagem num espelho, a situação na Ucrânia reflete o que se passa e o que vem acontecendo no mundo ao longo das últimas várias décadas. Depois do fim da bipolaridade no planeta, acabou-se a estabilidade.
Instituições internacionais chaves não se estão fortalecendo; ao contrário, em muitos casos, estão em degradação. Nossos parceiros ocidentais, liderados pelos EUA, preferem não se deixar guiar pela lei internacional; preferem, como orientação, a lei das armas.
Com o tempo, acabaram por se autoconvencer do próprio exclusivismo, do próprio excepcionalismo; que poderiam decidir os destinos do mundo; que só eles e sempre eles, estão sempre certos. Fazem o que bem entendam: aqui, ali, acolá, por toda parte usam força bruta contra estados soberanos, construindo “coalizões” baseadas no princípio de “se você não está conosco, está contra nós”.
Para dar a essa agressão ares de legitimidade, forçam as necessárias ‘resoluções’ nas organizações. E se por algum razão o ardil não funciona, então simplesmente ignoram e atropelam o Conselho de Segurança da ONU e a ONU inteira.
Foi o que aconteceu na Iugoslávia; lembramos muito bem de 1999. Era quase impossível acreditar, mesmo vendo acontecer ante os meus próprios olhos, que nos anos finais do século 20 uma capital europeia, Belgrado, estava sob ataque de mísseis e assim ficou por várias semanas, até que, afinal, veio a verdadeira intervenção. E havia resolução do Conselho de Segurança da ONU que permitisse aquelas ações. Não. Nada.
E, depois, atacaram o Afeganistão, o Iraque. E violaram flagrantemente uma resolução do Conselho de Segurança sobre a Líbia, onde, em vez de impor a chamada zona aérea de exclusão, puseram-se a bombardear o país.
E houve toda uma série de revoluções “coloridas’ controladas. Claramente, o povo naquelas nações, onde esses eventos aconteceram, estavam fartos de tirania e de pobreza, da falta de possibilidades; mas esses sentimentos foram cinicamente manipulados para deles extrair vantagens que nada tinham a ver com as necessidades e carências populares. Impuseram-se padrões a essas nações que de modo algum correspondem aos padrões de vida, às tradições e à cultura de cada um desses países. Como resultado, em vez de democracia e liberdade, o que há lá é o caos; surtos de violência e levantes. A Primavera Árabe virou Inverno Árabe.
Situação similar desdobrou-se na Ucrânia. Em 2004, par impor lá o candidato de que precisavam, mas através de eleições, tiveram de inventar uma espécie de terceiro turno que não estava previsto em lei. Foi absurdo. Foi zombar da Constituição. Agora, meteram lá um exército de militantes organizados e equipados.
Entendemos o que está acontecendo; entendemos que são ações que visam Ucrânia e Rússia, e visam também a integração eurasiana. E, isso, quando a Rússia esforça-se para construir um diálogo com nossos colegas do ocidente. Vivemos a propor cooperação em todas as questões chaves; queremos reforçar o nível de confiança e que nossas relações sejam igualitárias, abertas e justas. Mas não vimos passos recíprocos.
Ao contrário, mentiram para nós incontáveis vezes; tomaram decisões pelas nossas costas, nos impuseram fatos consumados. Aconteceu com a expansão da OTAN para o oriente, e aconteceu também com o deslocamento de infraestrutura militar para junto das nossas fronteiras. E continuam a nos dizer a mesma coisa: “Bem… isso não diz respeito a vocês.” Fácil dizer.
Aconteceu também com o deslocamento para cá de um sistema de mísseis de defesa. Apesar de todas as nossas apreensões, o projeto está em andamento e andando rápido. Aconteceu com a infindável confusão que criam sobre a emissão de vistos, promessas de concorrência comercial livre e justa e livre acesso aos mercados globais.
Todos os dias nos ameaçam com sanções, mas já enfrentamos muitas limitações, algumas bastante significativas para nós, nossa economia e nossa nação. Por exemplo, ainda nos tempos da Guerra Fria, os EUA e, na sequência, outras nações, limitaram a lista de tecnologias e equipamentos que podiam ser vendidos à URSS, e criaram a lista da Comissão de Coordenação de Controle de Exportações Multilaterais. Hoje, essa lista foi formalmente eliminada, mas só formalmente; na realidade muitas limitações ainda estão vigentes.
Em resumo, temos todas as razões para assumir que a infame política de contenção, dos séculos 18, 19 e 20, continua ainda hoje. Vivem tentando nos encurralar porque temos posição independente, porque a defendemos e a mantemos, e porque damos às coisas os nomes reais e não nos envolvemos em hipocrisias. Mas para tudo há limites. E, com a Ucrânia, nossos parceiros ocidentais cruzaram a linha, jogaram sujo, agiram irresponsavelmente e sem seriedade.
Afinal, eles sabem que há milhões de russos vivendo na Ucrânia e na Crimeia. Teria de não ter nenhum instinto político e nenhum bom-senso para não antever a consequências de suas ações. A Rússia viu-se numa posição da qual não poderia recuar. Se se comprime a mola além do limite dela, ela fatalmente escapará à compressão e saltará com força. Não esqueçam disso, nem por um instante.
Hoje, é imperativo pôr fim a essa histeria, refutar a retórica da guerra fria e aceitar o fato óbvio: a Rússia é participante independente e ativo das questões internacionais; como outros países, a Rússia tem seus próprios interesses nacionais que têm de ser levados em consideração e respeitados.
Ao mesmo tempo, somos gratos a todos que compreenderam nossas ações na Crimeia; somos gratos ao povo da China, cujos líderes sempre consideraram a situação na Ucrânia e na Crimeia sem deixarem de levar em consideração o grande contexto histórico e político. E muito apreciamos a reserva e a objetividade da Índia.
Hoje, quero me dirigir ao povo dos EUA, o povo que, desde a fundação de sua nação e a Declaração de Independência tanto se orgulhou de levar a liberdade na mais alta conta. O desejo dos moradores da Crimeia, de escolher livremente o próprio destino, não é a encarnação do desejo deles, por liberdade? Por favor, nos compreendam bem.
Creio que os europeus, os alemães, antes de tudo e de todos, também me compreenderão. Permitam-me lembrar-lhes que, no curso de consultas políticas sobre a unificação do Leste e Oeste da Alemanha, no nível de especialistas, mas de alto nível, algumas nações que eram então e são hoje aliadas da Alemanha não apoiavam a ideia da unificação. A Rússia, contudo, apoiou inequivocamente, sempre, o sincero, incontível desejo dos alemães pela sua unidade nacional. Tenho certeza de que não esqueceram disso. E espero que os cidadãos da Alemanha também apoiem o desejo dos russos – da Rússia histórica – de restaurar a unidade.
Quero dirigir-me também ao povo da Ucrânia. Quero sincera e profundamente que nos compreendam bem: não queremos feri-los de nenhum modo, nem agredir seus sentimentos nacionais. Sempre respeitamos a integridade territorial do estado ucraniano, aliás, bem diferentes nisso, os russos, de tantos que sacrificaram a unidade da Ucrânia em nome das próprias ambições de poder. Cantam slogans sobre a grandeza da Ucrânia, mas são os primeiros a fazer qualquer coisa para dividir a nação. O impasse que hoje divide a sociedade ucraniana é culpa deles, integralmente. Ouçam-me, caros amigos, com atenção. Não acreditem nos que querem fazê-los temer a Rússia, gritando que outras regiões seguirão a Crimeia. Não queremos dividir a Ucrânia; não precisamos disso. O mesmo vale para a Crimeia, que sempre foi e permanece terra de russos, ucranianos e tártaros crimeanos.
Repito que, como foi durante séculos, a Crimeia será lar de todos os povos que ali vivem. A única coisa que a Crimeia jamais será fará é seguir os passos de Bandera.
A Crimeia é nosso patrimônio histórico comum e fator muito importante de estabilidade regional. E esse território estratégico deve ser parte de soberania forte e estável, a qual, hoje, só pode ser russa. Sem isso, amigos (e aqui me dirijo à Ucrânia e à Rússia), vocês e nós – os russos e os ucranianos – poderíamos perder completamente a Crimeia, o que poderia acontecer em perspectiva histórica bem próxima. Por favor, reflitam sobre isso.
Permitam-me observar que já ouvimos declarações de Kiev sobre a Ucrânia unir-se à OTAN, em futuro próximo. O que significaria isso para a Crimeia e Sebastopol, no futuro? Significaria ter a marinha da OTAN bem ali, nessa cidade da glória militar russa; o que criaria ameaça não ilusória ou fantasiada, mas perfeitamente real, para todo o sul da Rússia. São ameaças que se tornariam rapidamente realidade, não fosse pela escolha que o povo da Crimeia fez. Quero agradecer, dizer “obrigado” aos crimeanos, por isso.
Permitam-me dizer também que não nos opomos a cooperar com a OTAN, mas esse não é absolutamente o caso agora. Por todos os processos internos a ela, a OTAN continua a ser aliança militar, e os russos somos contrários a manter uma aliança militar instalada bem ali no nosso quintal ou em nosso território histórico. Absolutamente não consigo imaginar que viajaríamos a Sebastopol para visitar marinheiros da OTAN. Claro, muitos deles são excelentes sujeitos. Mas melhor que eles venham nos visitar, que sejam nossos hóspedes, que o contrário.
Quero dizer, muito francamente, que nos aperta o coração ver o que se passa na Ucrânia no momento, assistir ao sofrimento do povo, à incerteza em que se debatem sobre hoje e o amanhã. São preocupações compreensíveis, porque não somos simples vizinhos mas, como já disse várias vezes, somos um só povo. Kiev é a mãe das cidades russas. O
Rus ancestral é nossa fonte comum, e não podemos viver uns sem os outros.
Permitam-me dizer ainda mais uma coisa. Milhões de russos e falantes de russo vivem na Ucrânia e lá continuarão. A Rússia sempre defenderá seus interesses com meios políticos e diplomáticos legais. Mas o interesse superior a todos os demais, no próprio interesse da Ucrânia, é assegurar que os direitos e interesses daqueles russos estejam plenamente protegidos. Essa é a garantia da estabilidade e da integridade territorial do estado da Ucrânia.
Queremos ser amigos da Ucrânia e queremos que a Ucrânia seja país soberano forte e autossuficiente. Afinal, a Ucrânia é um dos nossos principais parceiros. Temos vários projetos conjuntos e creio que serão bem-sucedidos, apesar das atuais dificuldades. Mais importante que tudo, queremos que a paz e a harmonia reinem na Ucrânia, e estamos prontos a trabalhar juntos com outros países para facilitar e apoiar esse encaminhamento. Mas, como já disse, só o próprio povo da Ucrânia pode pôr a própria casa em ordem.
Residentes na Crimeia e na cidade de Sebastopol, toda a Rússia admirou a coragem, a dignidade e a bravura de vocês. Vocês, ninguém mais, decidiram o futuro da Crimeia. Estivemos mais próximos que nunca, nos dias recentes, um apoiando o outro. Foram sentimentos sinceros de solidariedade. É em momentos de virada histórica, como esses, que uma nação demonstra a própria maturidade e fortaleza de espírito. Os russos mostraram essa maturidade e essa fortaleza de espírito, pelo apoio unificado que garantiram a todos os seus compatriotas.
A posição da política externa da Rússia nesse assunto obtém sua firmeza, do desejo de milhões de russos, de nossa unidade nacional e do apoio das principais forças políticas e públicas. Quero agradecer a todos por esse espírito patriótico. A todos, sem exceção. Daqui por diante, temos de continuar a manter esse tipo de consolidação, para superar as tarefas que nosso país enfrentará adiante, nessa nossa trilha.
É claro que enfrentaremos oposição externa, mas essa é decisão que temos de tomar nós mesmos. Estamos prontos para consistentemente defender nossos interesses nacionais, ou continuaremos para sempre a ceder, a nos recolher e retirar, sabe-se lá para onde?
Políticos ocidentais já começaram a nos ameaçar não só com sanções, mas também com a ameaça de problemas cada vez mais sérios no
front doméstico. Gostaria de saber o que eles têm em mente, exatamente: ação de alguma
“Quinta Coluna”, esse bando disparatado de “traidores nacionais”, ou esperam nos pôr em situação social e econômica sempre mais difícil, na esperança de, assim, promover o descontentamento massivo?
Aquelas declarações, as vemos como irresponsáveis, em tom abertamente agressivo. Nenhum delas ficará sem resposta adequada. Mas, simultaneamente, não procuraremos confrontação com nossos parceiros, nem do Leste nem do Oeste. Ao contrário, faremos tudo que pudermos para construir relações civilizadas de boa-vizinhança, como se deve fazer no mundo moderno.
Colegas,
Entendo o povo da Crimeia, que pôs o problema nos termos mais claros possíveis, no referendo: “A Crimeia deve ficar com a Ucrânia ou com a Rússia?”
Não há dúvidas de que as autoridades na Crimeia e em Sebastopol, as autoridades legislativas, ao formularem a pergunta, puseram de lado interesses de grupos ou políticos, e tomaram, como pedra de toque a partir da qual formularam a pergunta, os interesses fundamentais do povo da Crimeia. As circunstâncias específicas, históricas, populacionais, políticas e econômicas da Crimeia tornariam qualquer outra opção proposta – ainda que parecesse tentadora à primeira vista – só temporária e frágil, e levaria, inevitavelmente a piorar ainda mais a situação lá, que já teve efeitos desastrosos sobre a vida das pessoas. O povo da Crimeia, assim, decidiu pôr a questão em formato claro e sem concessões, sem áreas cinzentas.
O referendo foi justo e transparente, e o povo da Crimeia de modo claro e convincente, manifestou seu desejo e declarou, firmemente, que quer ser se pôr ao lado da Rússia.
A Rússia, agora, também terá de tomar uma difícil decisão, considerando os vários aspectos domésticos e externos. O que pensa o povo russo? Aqui, como qualquer país democrático, as pessoas têm diferentes pontos de vista. Mas sei que a absoluta maioria do nosso povo claramente apoia o que está sendo encaminhado.
A mais recente pesquisa de opinião pública que temos aqui na Rússia mostra que 95% das pessoas entendem que a Rússia deve proteger interesses dos russos e de outros grupos étnicos que vivem na Crimeia. 95% de nossos cidadãos. Mais de 83% entendem que a Rússia deve fazê-lo, mesmo que isso complique nossas relações com alguns outros países. Um total de 86% de nosso povo vê a Crimeia como território que continua a ser russo e parte de nosso próprio país.
E outro número particularmente importante, que corresponde exatamente ao resultado do referendo na Crimeia: quase 92% de nosso povo apoia a reunificação da Crimeia à Rússia.
Assim vemos que a vasta maioria do povo da Crimeia e a absoluta maioria do povo da Federação Russa apoia a reunificação da República da Crimeia e da cidade de Sebastopol com a Rússia.
Mas essa é uma questão de decisão política para a Rússia, e qualquer decisão aqui só se pode basear no desejo do povo, porque o povo é a fonte absoluta de toda a autoridade.
Membros do Conselho da Federação, deputados do Parlamento do Estado, cidadãos da Rússia, residentes na Crimeia e em Sebastopol, hoje, conforme o desejo do povo,
– encaminho aqui à Assembleia Federal pedido para que preparem Lei Constitucional sobre a criação de duas novas entidades dentro da Federação Russa: a República da Crimeia e a cidade de Sebastopol; e que ratifiquem o tratado pelo qual Crimeia e Sebastopol são admitidas na Federação Russa, já pronto para ser assinado.
Sei que conto com o apoio de vocês.
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Muito obrigado pela tradução de um dos melhores discursos da história contemporânea e que pôs fim ao mundo unipolar. Parabéns Presidente Putin. Parabéns Rússia!
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