Uncategorized

A única causa pela qual podemos lutar (Sobre o massacre do povo palestino)

Desde 1947, Israel já tomou quase todas as terras do palestinos. Verde é Palestina e Branco Israel

Desde 1947, Israel já tomou quase todas as terras do palestinos. Verde é Palestina e Branco Israel

Varsóvia, 1940

Logo depois da invasão alemã, os judeus de Varsóvia foram espremidos em uma espécie de gueto dentro da cidade. Lá, quase 400 mil judeus, amontoados em apartamentos compartilhados, foram submetidos a todo o tipo de tortura física, moral e psicológica. Tinham que sobreviver em meio a uma densidade populacional obscena (o gueto ocupava apenas 2% do território de Varsóvia) sem ter o que comer, sem ter mais água, sem trabalho, sem mínimas condições de vida. Ainda assim, foram os primeiros a resistir à ocupação nazista, e entraram para a história como herois, embora fossem chamados de terroristas pelos oficiais de Hitler. Praticamente não houve sobreviventes ali, mas os judeus do gueto escreveram seus nomes como gigantes.

Gaza, 2014

Num território com 40 quilômetros de comprimento e 12 quilômetros de largura moram quase 2 milhões de palestinos. Vivem em condições desumanas de higiene, vigiados pelo exército de Israel, amontoados como bichos, sem trabalho e sem direito a uma pátria.

Vivem assim desde que, em 1967, Israel decidiu estender seu território — delimitado depois de acordo diplomático mundial em 1947 –, e invadiu a Cisjordânia e Gaza, colocando-se entre esses dois pedaços de terra, encurralando palestinos para a pequena faixa perto do mar, e iniciando a construção de assentamentos nas terras ocupadas.

(Vale explicar que esses assentamentos não são exatamente barracas de pano e banheiros químicos como eu e minha brutal ignorância achávamos que eram até ontem, mas sim apartamentos luxuosos, ruas bem asfaltadas e decoradas com fontes, tudo construído com a ajuda do dinheiro do contribuinte americano e oferecido gratuitamente, ou por preço simbólico, para o israelense que quiser ir morar lá).

Os Palestinos em Gaza são, portanto, refugiados, e, por uma cerca, podem ver as terras que eram deles, agora ocupadas. Têm direito a uma pequena faixa de oceano, mas se entrarem e mergulharem além de seus ombros, são executados por soldados Israelenses.

Ao escutar o parlamentar britânico George Galloway jogar essas e outras verdades na minha direção, me senti levando um murro no estômago.

Quando era pequena e comecei a aprender sobre o horror do Holocausto, dizia a mim mesma que se vivesse naquela época ia lutar contra o Nazismo com todas as minhas forças. Iludia-me com a noção de que defenderia o mais fraco, de que batalharia heroicamente para acabar com o preconceito e com o extermínio do povo judeu. Por isso, ao escutar Galloway e deixar de ser tão colossalmente ignorante em relação ao que está acontecendo em Gaza, percebi a gravidade de permanecer em silêncio.

Porque não sei vocês, mas eu consigo ver dezenas de paralelos entre Gaza e o Gueto de Varsóvia.

Não sei vocês, mas eu, nos dois casos, só consigo ver um lado pelo qual gostaria de lutar.

Não sei vocês, mas eu, tivesse nascido em Gaza, e vendo minha família morrer e meus amigos desaparecerem, me candidataria a pegar em armas.

Não se trata de defender as causas do Hamas, uma organização que faz uso de atos terroristas, e que, como todas as organizações terroristas, deveria ser simplesmente eliminada. Se trata de lutar por dignidade e moral. Hoje, a maioria dos palestinos que pegam em armas não são Hamas, apenas cidadãos que cansaram de sofrer.

O alegado direito de “se defender” que o estado de Israel vocifera ao mundo, chamando de anti-semita aqueles que ousam argumentar que bombardear hospitais e escolas passa longe de se enquadrar em um “direito de defesa”, é apenas mais uma imoral manifestação do sionismo.

Israel, terra que nasceu fundamentada na esperança da construção de um mundo melhor, mais justo e menos intolerante, se transformou com o passar dos anos em um estado imperialista.

Rico e economicamente alinhado com as maiores potências do mundo, coloca-se na posição de opressor, extremista e, usando a bandeira do “quem me acusar de crime não gosta de judeus e é, portanto, anti-semita”, pratica alguns dos crimes contra a humanidade mais grotescos dos dias de hoje.

Mas, porque é um estado economicamente poderoso, não é oficialmente criticado sequer pelos países árabes, muitos dos quais são, também, seus parceiros econômicos.

O argumento sionista da auto-defesa tampouco explica nem justifica o massacre de palestinos. Dos mais de mil mortos desde que a atual investida bélica começou, 75% são mulheres e crianças.

O argumento de que “precisamos eliminá-los porque o Hamas em seu estatuto jura nosso aniquilamento” é também vazio porque, antes de mais nada, a maioria da população de Gaza, mesmo aqueles que hoje lutam contra o exército de Israel, não é Hamas. E depois porque o Hamas não tem sequer um exército, apenas uns mísseis capengas que são, em sua maioria, interceptados pelo poderoso e bem equipado exército de Israel logo depois de disparados.

Talvez seja hora de pensarmos da seguinte forma: se tudo isso está sendo feito por causa de palavras em um estatuto (já que o Hamas, embora tenha jurado Israel de morte, não teria força para destruir sequer uma rua de Telaviv) o que vem a ser pior: jurar de morte com palavras, ou de fato executar essas mortes? Porque o que estamos vendo é Israel varrer do mapa toda uma população, o povo que até 1947 era proprietário da totalidade daquelas terras.

E aqui vale um outro parenteses porque é nessa hora que sionistas dão um passo à frente e gritam “É contra a criação de Israel!” Não se trata de ser contra, apenas de não descartar o contexto dentro do qual o país foi criado. Terras palestinas foram dadas a Israel por terceiros.

Portanto, trata-se de entender que desde 1947 a Palestina está desaparecendo do mapa. Primeiro porque parte de suas terras foram oferecidas por terceiros ao povo judeu, e depois porque, anos mais tarde, Israel decidiu que aquele tanto de terra já não era assim um negócio tão bom e resolveu conquistar mais e mais, encurralando o povo palestino para Gaza (cujo tamanho ridículo já divulgamos acima) e para umas partes da ocupada Cisjordânia.

Então, vamos deixar claro o que penso: Sim, Israel tem direito de existir. Sim, o povo judeu foi vítima do maior e mais grotesco crime já executado contra a humanidade (ao lado da escravidão). Mas a negociação para seu nascimento me parece ter sido feita de forma a descartar qualquer interesse palestino, o morador anterior — e desde então, graças ao imperialismo israelense, a palestina está sumindo do mapa.

Vamos tentar fazer um exercício: Como Israel se comportaria se um dia a ONU aparecesse por lá e dissesse: irmão, chega um cadinho pra lá que vamos colocar aqui no meio de vocês os índios Tapanuquins, cujo livro sagrado diz categoricamente que esse pedaço de terra foi oferecido a eles por Deus, e nós, o resto do mundo, estamos concordando. A partir de então, ainda que Israel tivesse aceitado o novo vizinho, os Tapanuquins começariam a querer mais e mais terra, espremendo o povo israelense para pedaços cada vez menores.

Sei que a situação hipotética acima é tosca, mas vale para ajudar a entender.

Agora voltemos à reflexão.

O argumento de que o cidadão palestino está sendo usado como escudo humano pelo Hamas também é derrubado quando entendemos o mapa de Gaza: não há ali nada além da população palestina. Não há espaço para que se criem guetos de resistência, não há florestas nem vales. Tudo é misturado à população porque tudo é a população.

Claro que uma vida Israelense perdida nesse conflito já pode ser considerada uma enormidade, porque toda a vida é uma enormidade e não deveria ser perdida em guerras, mas uma vida israelense não vale mais do que uma vida palestina, e a contagem até agora é de mais de mil de um lado para menos de 30 do outro.

E embora os grandes líderes desse mundo apodrecido não se manifestem, a verdade é que eles sabem perfeitamente que só existe um lado legítimo a favor do qual podemos nos manifestar.

Sem dizer isso oficialmente, mas flagrados conversando antes de irem ao ar, tanto Obama, quanto David Cameron e John Kerry, secretário de estado americano, se mostraram horrorizados com as atitudes de Benjamin Netanyahu, primeiro ministro israelense (detalhes sobre essas “verdades escapadas” estão na eloquente palestra de George Galloway que me inspirou a escrever esse texto e cujo link eu coloco abaixo).

Quando as câmeras são ligadas, entretanto, o discurso é o de “apoiamos integralmente as ações do estado de Israel”. Ah, a pequenez moral das democracias corporativistas. Kerry chegou a dizer publicamente que Israel estava sitiada pelo Hamas, uma declaração que fica entre o mais completo absurdo e o mais ridículo cinismo

Na mesma palestra, Galloway questiona por que Obama, que já está em seus segundo mandato, não deixa pelo menos algum tipo de legado dizendo ao mundo a verdade sobre o que pensa a respeito da questão Israel Palestina.

Diante do cenário econômico atual, feito de parcerias que visam o lucro de grandes e poderosas corporações a despeito de abusos cometidos contra pessoas e contra o ecossistema, não há quem se levante pelos palestinos, a não ser a opinião pública.

A boa notícia é que os jovens, em sua maioria, constituem essa massa heroica de pessoas que estão saindo às ruas para apoiar a Palestina. Jovens inclusive dentro de Israel, como o grupo que se autodenomina “If Not Now, When” (“se não agora, quando?”) que foi às ruas de Telaviv no sábado rezar o Kaddish para Palestinos, numa das mais belas e comoventes ações críticas ao terrorismo que estamos assistindo de braços cruzados.

Mas o fundamental é o seguinte: já não se trata mais da questão judaica, muçulmana, árabe ou israelense. Trata-se de questão humanitária. Alguma coisa precisa ser feita para que a matança tenha fim. Mas, mais do que isso, para que se devolva dignidade ao povo palestino porque o “cessar fogo” não vai resolver muita coisa, embora seja necessário para que o genocídio termine. Devolver dignidade significa devolver a eles um lar – ou a terra que a eles pertence e que foi ilegalmente deles tomada por imperialistas israelenses.

E então é importante que se encontre uma forma de convívio, e que rezemos para que esses dois povos culturalmente tão ricos finalmente entendam o que escreveu Joseph Campbell — Ame ao próximo como a si mesmo na verdade quer dizer: “ame o próximo porque é tu mesmo”.

Como em Varsóvia/1940 só havia um lado pelo qual eu me candidataria a lutar, agora, mais uma vez, não há outra causa ou outra luta possível.

 

Um pensamento sobre “A única causa pela qual podemos lutar (Sobre o massacre do povo palestino)

  1. Pingback: BRASIL VAI REJEITAR NOME DE EMBAIXADOR DE ISRAEL #PalestinaLivre | Luizmuller's Blog

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s