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13 ANOS, 5 MESES E 179 DIAS (Por Selvino Heck)

Selvino e Lula

Ivanir Bortot, Lula e Selvino Heck (Foto de 2008)

Hora de partir. A 28 de junho de 2016 terminou uma longa jornada noite e dias adentro, 13 anos, 5 meses, 179 dias depois de chegar em Brasília para o primeiro governo Lula. Jamais poderia ficar e contribuir com um governo interino que é golpista, como cada dia fica mais evidente e comprovado, comandado pela corrupção e por um programa neoliberal em grau máximo. Estou definitiva e felizmente fora do governo interino golpista que usurpou o poder.

Tudo começou em 2003, com a equipe do TALHER, formada por Frei Betto para fazer a mobilização social e ações de formação com as famílias do Fome Zero e envolvendo todos os setores sociais sensibilizados com a urgência política e ética de acabar com a fome no Brasil. Construiu-se a Rede de Educação Cidadã (RECID), centenas, milhares de educadoras e educadores populares envolvidos na mística da mudança e no empoderamento dos mais pobres e historicamente excluídos da sociedade brasileira.

Foi um tempo de semeadura: viagens Brasil afora, reuniões, oficinas de formação, seminários, reflexões, Cirandas, estimulando a mudança a partir da base popular, ajudando a dar voz a quem nunca teve voz nem direitos.

O coroamento da jornada foi a construção da Política e do Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (PNAPO e PLANAPO),  onde pude contribuir como Secretário Executivo da Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (CNAPO).

A direita conservadora não abre mão de seus privilégios. As elites brasileiras, desde sempre, impediram que os debaixo assumissem a história nas próprias mãos, fossem protagonistas do seu destino.

Como encarar o futuro? É sempre bom voltar à planície. Nunca fui dos salões acarpetados, nos dois últimos andava de ônibus todos os dias, as eventuais bondades e reverências do poder sempre estiveram longe dos meus planos e prática.

Mesmo assim, estar no cotidiano enfrentando as urgências das lutas, por exemplo contra o impeachment que é golpe, voltar à militância que põe a mão no bolso para discutir programas de governo e eleger prefeitos e vereadores a partir de ideias e propostas faz bem à alma e ao coração.

A luta continua. No momento imediato, contra o impeachment que é golpe, contra o desmonte das políticas públicas construídas com amor nesta década e meia, a participação social expressa nos Conselhos, Conferências e outras tantas formas de ouvir a comunidade e a população, dos processos formativo-educativos, em diálogo com a sociedade, movimentos sociais, ONGs, experiências e práticas como a Rede de Educação Popular, a educação popular em saúde, o programa de formação da economia solidária, a educação ambiental, a educação em direitos humanos, da agroecologia e segurança alimentar e nutricional, entre outras muitas. O povo organizado e consciente haverá de exigir sua continuidade e ampliação.

A luta por soberania, por justiça, por igualdade é permanente. Quem já passou por uma ditadura militar e sofreu suas consequências, quem já participou dos grandes processos de mobilização social como as Diretas-Já, a Constituinte, a campanha eleitoral para presidente em 1989, quem já sobreviveu a uma velha Nova República e a um neoliberalismo destruidor de empregos e fomentador da pobreza e da concentração de renda não se renderá a um governo conservador, neoliberal, corrupto como este governo interino que promove o impeachment que é golpe. Não há nem haverá descanso enquanto a vontade popular não voltar a ser respeitada num país que enfrentou a fome como nenhum outro nos últimos anos, que diminuiu ineditamente sua ainda grande concentração de renda e desigualdade social, numa terra capaz de promover uma Copa do Mundo de futebol com elogios e fará uma Olimpíada e Paralimpíada vitoriosa. Este povo e este país não perderão sua história democrática para um golpe impetrado nas caladas da noite por quem que salvar sua pele e corpo de ir para a cadeia.

Escrevi um poema, ‘Ranzinza, mas democrático’, como me auto-defino e dizem que sou: “Aqui Paulo Freire tem lugar,/ a Rede de Educação Cidadã brilha,/ a educação popular é estrela./ Aqui a agroecologia é feita de frutas frescas e saudáveis,/ como a vida deve ser./ Aqui o povo esta no centro./ Aqui a utopia floresce,/ viçosa e transparente.”

A esperança está viva. “E na memória eterna,/ no coração,/ educadoras e educadoras da RECID./ Esparramados nos bairros, nas comunidades, nos sertões,/ debaixo das árvores,/ nos salões das igrejas,/colados nos movimentos sociais e populares,/ nas ONGs e nas pastorais,/ no povo pobre e trabalhador/ desta pátria amada chamada Brasil.”

Valeram a pena os 13 anos, 5 meses e 179 dias. A luta continua!

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul – 1987/1990

Em primeiro de julho de dois mil e dezesseis

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