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O CLIC (Por Selvino Heck)

Cérebro

A imprensa estrangeira pergunta insistentemente, sem entender: Com tudo que está acontecendo no Brasil, porque o povo brasileiro não está nas ruas?

A minha pergunta: quando vai acontecer o clic, aquele momento mágico em que espíritos, corpos e mentes decidem enfrentar o poder estabelecido, ir massivamente para as ruas protestar, ou protestar em qualquer lugar e em todos os lugares, denunciar, ir para a desobediência civil? Ou será que não vai acontecer, as vozes foram definitivamente abafadas, o silêncio e a apatia dominam o cenário, acabou a esperança? Ou, ainda, estará acontecendo algo subterrâneo, imperceptível agora, mas que pode explodir a qualquer momento?

A resposta não é fácil, nem é única. Há muitas, diversas e variadas razões para o povo brasileiro não estar nas ruas, tal como aconteceu, ainda na ditadura militar, com as Diretas-Já, depois na Constituinte, na campanha a presidente em 1989, no impeachment do Collor e na eleição de Lula em 2002, para citar apenas alguns fatos históricos mais recentes.

Estudo da FEE (Fundação de Economia e Estatística, do Rio Grande do Sul, da qual a presidenta Dilma é funcionária aposentada e que o governador Sartori, do PMDB, está privatizando) diz o seguinte: 106 mil jovens entre 15 e 29 anos estão desempregados na Região Metropolitana de Porto Alegre (Jovens são mais da metade dos desempregados na RMA,  In: www.sul21.com.br). Em 2015, eram 15,4%, em 2016, 19,5% (e em 2017, serão quantos?) A renda dos trabalhadores caiu 9,5% neste período, na mesma Região Metropolitana.

Há um empobrecimento geral dos mais pobres, visível no cotidiano e nas ruas, agravado pela extinção de políticas públicas por parte do governo golpista, há a insegurança, dominando as periferias e até o centro das cidades, há a violência de todo tipo. Este quadro não estimula a mobilização social. Como dizíamos nos anos 1970, nas lutas por melhores condições de vida, emprego e salário, ‘barriga vazia não faz revolução’.

Há a criminosa criminalização da política, gerando o descrédito, produzido especialmente pela grande mídia, especialmente em cima dos partidos e políticos de esquerda e o conjunto dos movimentos sociais, gerando a frase que se ouve quase todos os dias: “Os políticos são todos ladrões.” E iguala-se tudo e todos, tirando os holofotes dos verdadeiros ladrões, corruptos e entreguistas. Resultado: o povo afasta-se da ação política e vai cuidar da sua vida.

Há a repressão crescente sobre todos e sobre tudo, como há dezenas de exemplos nos últimos tempos.

A desigualdade econômica e social voltou a crescer, depois de um inédito, embora tímido, decréscimo em tempos de governos Lula e Dilma. O Brasil continua sendo um dos países com a pior distribuição de renda do mundo. Está aí o debate de como enfrentar o déficit fiscal crescente, onde o povo, mais uma vez, é chamado a cobrir o rombo. Rico não paga imposto neste país.

A história do Brasil e da América Latina é uma história de ausência de democracia e de pouca participação social. O povo sempre foi acessório. O poder do grande capital, do latifúndio e da grande mídia sempre abafou as vozes. Todas as vezes em que os lascados e oprimidos se levantaram, em grandes momentos históricos, um dos quais neste início do século XXI, e conquistaram direitos e soberania, a reação conservadora veio e está fazendo de tudo para calar as vozes, retirar direitos, acabar com a democracia.

E o clic? Segundo Márcio Pochmann, presidente da Fundação Perseu Abramo, em Seminário na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul sobre ‘O Papel do Estado e o Desenvolvimento do País’, ante o caos dos anos 1870/1880, tempos de abolição da escravatura e de proclamação da República, e o caos dos anos 1929/1930, com a Revolução de Trinta, houve mudanças estruturais no Brasil. Houve reações da direita conservadora às mudanças – a Lei Saraiva, diminuindo o número de eleitores no Brasil no final do século XIX; e a Revolução constitucionalista de 1932 em São Paulo -, mas elas foram insuficientes, embora atrasassem as mudanças estruturais. Ante o caos reinante hoje, com o golpe que destituiu a presidente Dilma e todas as suas consequências, por que não, segundo Márcio Pochmann, esperar e lutar de novo por mudanças estruturais? Do e no caos poderá ou poderia vir a mudança estrutural.

Os acontecimentos da história não estão dados, como não estavam nos anos 1970, com as greves do ABC e o surgimento de Lula e do Partido dos Trabalhadores, dos novos movimentos sociais, das Oposições Sindicais, das Centrais Sindicais, das lutas e movimentos populares, das CEBs e pastorais sociais e tantas outras coisas que levaram o Brasil à redemocratização, a eleger governos populares que construíram, por exemplo, o OP, Orçamento Participativo, que trouxeram o Fórum Social Mundial para Porto Alegre e para o Rio Grande do Sul – ‘Um outro mundo é possível’-, para citar apenas alguns fatos históricos.

Diz a teóloga feminista Ivone Gebara (Entrevista ao Brasil de Fato, 09.08.17): “Nós estamos em luta contínua. O povo está em uma luta contínua pela sobrevivência. Não estamos apáticos, mas num momento de buscar uma nova saída. Tem muita coisa em ebulição e em transformação.” Ela fala de novos movimentos, como o teatro popular e o rap, entre outros, com os quais está trabalhando e que estão nas periferias e em muitos lugares.

Segundo alguns, todos ou quase todos os problemas estão na esquerda, em seus erros, desvios e incapacidade política.  Antes de culpar a esquerda é preciso, no entanto, achar as respostas e responsabilidades na direita golpista, elitista e antidemocrática. O que não significa que a esquerda e o campo popular não tenham que, permanentemente, olhar sobre si, como a gente olha todos os dias para si mesmo para eventuais autocríticas, corrigir rumos, etc.

É preciso pensar fora da caixinha, diz Márcio Pochmann. “Se queremos eleições em 2018, não podemos aceitar só o caminho das eleições. Não há saídas tradicionais em tempos de caos.”

E o clic? Vai acontecer? Quando? Não sei, quem o sabe? Sei, com certeza, que, sem informação, sem trabalho de base, sem formação, sem estudo, sem esforço de mobilização permanente, ele, com certeza, não acontecerá.  Sei também que a História não para.

  1. PARABÉNS MIL A TODOS OS PAPAIS NO SEU DIA, A TODOS OS PAPAIS QUE LUTAM PELA VIDA E LUTAM PARA ACONTECER O CLIC.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em onze de agosto de dois mil e dezessete

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