
Em agosto de 2025, artigo neste Blog afirmava Quilombo Kédi, um das muitas comunidades ameaçados pelo Plano Diretor de Sebastião Melo. Não deu outra. votada a revisão do Plano Diretor, e a derrubada de casas e pressão dobre quilombolas aumentou.
A aprovação da revisão do Plano Diretor de Porto Alegre em abril consolidou o que movimentos sociais e urbanistas vinham alertando: a transformação definitiva da capital gaúcha em um balcão de negócios para o setor imobiliário. Sob o pretexto de “adensamento” e “modernização”, a nova legislação ignora a função social da cidade e aprofunda a segregação, atingindo seu ápice de crueldade no que estamos testemunhando hoje no Quilombo Kedi. As casas estão sendo literalmente postas abaixo pelo poder imobiliário com o Respaldo da Prefeitura e infringindo claramente a Constituição Federal. E muitos casos similares virão.
Um Plano Diretor Contra a Cidade
O novo texto, aprovado na Cãmara de Vereadores sem ampla participação popular efetiva, mas com muita participação das Incorporadoras e construtoras, traz retrocessos que impactam diretamente a paisagem e a vida da população:
A autorização para prédios de até 130 metros em áreas centrais e eixos estratégicos. Essa medida beneficia exclusivamente as grandes incorporadoras, ignorando o impacto ambiental e o sombreamento de espaços públicos.
A redução dos recuos obrigatórios permite que as construções fiquem mais próximas umas das outras, diminuindo a circulação de ar e a privacidade, transformando bairros em “paredões” de concreto.
A retirada de proteções sobre áreas específicas facilita a entrada do capital em territórios que antes eram destinados à preservação cultural ou habitacional de interesse social.
Se o Plano Diretor é o projeto no papel, o Quilombo Kedi é a execução no canteiro de obras. Localizado no bairro Boa Vista, o território ancestral é hoje um cenário de guerra e desrespeito aos direitos humanos.
Enquanto a nova lei municipal abre caminho para torres de luxo, as 41 famílias do Kedi enfrentam um processo de demolição e pressão psicológica. Mesmo com decisões da Justiça Federal suspendendo remoções, relatos recentes denunciam a destruição de casas e o uso de empresas de segurança privada para coagir moradores a aceitarem indenizações irrisórias via Pix em troca da demolição de suas próprias memórias.
A prefeitura, ao aprovar um Plano Diretor que privilegia o “potencial construtivo” acima da identidade quilombola, atua como o braço institucional desse processo. O Kedi está sendo sufocado entre um clube de golfe e empreendimentos de altíssimo padrão da CFL e da Country Empreendimentos, em um caso nítido de racismo ambiental e institucional.
A aprovação desse Plano Diretor não encerra o debate; ela o torna uma questão de sobrevivência. O que se vê em Porto Alegre é a substituição do planejamento urbano pela lógica do lucro imediato.
A resistência do Quilombo Kedi torna-se, portanto, a vanguarda da luta contra este modelo de cidade. Defender o Kedi é defender o que resta de Porto Alegre contra uma gestão que escolheu governar para os metros quadrados mais caros da cidade, deixando o povo e a sua história do lado de fora dos tapumes.
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