América Latina

MACONHA NAS FARMÁCIAS E O VANGUARDISMO URUGUAIO

A cena, mesmo que não comprovada, é muito plausível: separadas por menos de mil quilômetros, filas para comprar maconha formaram-se em duas cidades muito semelhantes do Conesul há cerca de um mês.

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Em Porto Alegre, a espera acontecia cercada de tensão, à noite, em uma famosa parada de ônibus de um bairro dominado pelo tráfico de drogas; Em Montevideo, a fila estava formada à luz do dia, em frente a uma farmácia de um tradicional reduto da classe média uruguaia.

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O estabelecimento foi um dos dezesseis pioneiros  na venda de cannabis produzida pelo próprio Estado, a última etapa do mais ambicioso modelo de regulamentação da droga já adotado na América do Sul. Enquanto no Brasil bocas de fumo como a da ‘Conceição’ vendem toneladas de maconha contrabandeadas do Paraguai e alimentam uma rede de corrupção que vai da polícia à política, o governo do Uruguai assume o controle da produção e distribuição e demonstra a viabilidade de uma nova forma de combater o poder do tráfico após o fracasso da guerra às drogas.

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A REALIDADE ENTRE AS CAPITAIS É TÃO DISTINTA QUE A DISTÂNCIA ENTRE AS CIDADE DEVERIA SER MEDIDA POR DÉCADAS AO INVÉS DE QUILÔMETROS

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A legislação que vem sendo aplicada desde o governo de Pepe Mujica, em 2013, permite a todo cidadão uruguaio ou residente permanente consumir, plantar, participar de clubes de cultivo e, agora, comprar maconha em farmácias – que esgotaram o estoque de seis quilos e meio em menos de 12 horas de comercialização em Montevideo. Com problema em apenas 5% dos cadastrados, o início da venda já provoca aumento na busca tanto de usuários como de estabelecimentos. Aos novos interessados em adquirir, bastará ter 18 anos, ir a uma agência dos Correios, apresentar documento e comprovante de residência e registrar as impressões digitais para que minutos depois tenha direito a comprar até 10 gramas por semana a um custo inferior a R$ 50.

Nas ruas, um misto de orgulho e indiferença era manifestado diante das câmeras e microfones da imprensa internacional que registrava cenas históricas no auge do inverno no hemisfério sul.

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ENQUANTO USUÁRIOS SAÍAM DAS FARMÁCIAS EXULTANTES EXIBINDO SEUS PACOTES COM DUAS VARIEDADES DE CANNABIS, OUTRA PARCELA DA POPULAÇÃO OBSERVAVA OS ACONTECIMENTOS COM MENOS DESLUMBRAMENTO

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Embora no Uruguai o consumo de maconha não carregue o preconceito imposto no Brasil, a legalização na Banda Oriental não chega a ser um consenso. Mas se por um lado setores encaram com desconfiança tamanha permissividade, não se pode dizer que a faixa etária defina este perfil. Pessoas de todas as idades e estilos eram vistas nas filas de farmácias, desmistificando rótulos pejorativos que normalmente são associados aos usuários.

A própria regulamentação do consumo proporciona transparência e dados que traçam o perfil médio dos consumidores. Segundo o Instituto de Regulamentação e Controle da Cannabis, homens residentes em Montevideo, com idade entre 30 e 41 anos, são a maioria dos consumidores cadastrados para comprar a erva cultivada pelo governo em instalações do Exército.

Cercada de mistérios, a última etapa da legalização deslanchou depois de uma série de titubeios do governo de Tabaré Vasquez, integrante da mesma coalização política de centro-esquerda que elegeu Mujica, mas com perfil mais conservador. Médico oncologista e ladeado por uma primeira-dama de tradição católica, o atual presidente aplicou – a contragosto – a última etapa da lei muito mais por compromisso com os partidos da Frente Ampla do que por convicção. Este contexto ajuda a entender a discreta comunicação do governo quanto ao tema, restrita a protocolares notas informativas.  No dia de início das vendas em farmácias, considerado histórico por muitos uruguaios, Vazquez recebia título de Doutor Honoris Causa na Argentina e encerrou a entrevista coletiva após ficar contrariado com jornalistas que insistiam nas repercussões sobre a última etapa da legalização.

O estilo low profile contrasta fortemente com a era Mujica, em que o ex-presidente se transformou em um pop star ao percorrer o mundo defendendo a proposta uruguaia e chegou a conceder uma entrevista enquanto repórteres fumavam maconha no pátio de sua chácara.

Apesar das tensões, não houve ruptura. A tradição laica e vanguardista que forjou a sociedade uruguaia prevaleceu e derrubou um novo tabu movido pelo mesmo sentimento que garantiu pioneirismo no direito das mulheres ao voto, ao casamento homossexual e a legalização do aborto.  Infelizmente o exemplo de progressismo continuará sendo exceção no mapa latino-americano, que caminha na direção oposta aos ventos de liberdade que sopram mais ao sul.

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