Mundo

O Mundo segundo Joe Biden

Foto: Agência Brasil

As ideias sobre política internacional do candidato democrata à presidência dos EUA

Por Alexandre G. de B. Figueiredo* no DESACATO

A pandemia de covid-19 nos Estados Unidos, somada ao negacionismo de Donald Trump, já havia atrapalhado o que despontava ser uma provável reeleição. Trump minimizou o risco da doença, colocou-se contra medidas de isolamento social e viu, com isso, seu país atingir a marca de 7 milhões de infectados e mais de 200 mil mortes. Agora, a contaminação do próprio presidente lança mais uma nuvem de incerteza sobre o resultado das eleições, a serem realizadas no próximo mês. Conforme as pesquisas mais recentes, Joe Biden é o favorito.

Não obstante, nos Estados Unidos, analistas fazem indagação semelhante à que fizemos aqui, em 2018, sobre o atentado contra Bolsonaro: Trump conseguirá tornar sua doença uma arma eleitoral eficaz? E, em outro sentido, Biden sobe nas pesquisas porque um Trump contaminado é a materialização do fracasso de um governo de extrema direita? São questões que se confirmarão nas urnas, em novembro.

Por agora, a vantagem de Biden é também a vantagem evidente de ter na Casa Branca alguém que não pratique o racismo, a misoginia, a xenofobia, a homofobia, a mentira e o ódio como método e de forma tão escancarada. Contudo, em matéria de política externa, Joe Biden não promete nada muito diferente de Trump nos punctum dolens da geopolítica contemporânea.

O candidato do Partido Democrata é um dos mais experientes políticos dos Estados Unidos em matéria de política externa. Enquanto senador, ocupou um assento no poderoso Comitê de Relações Exteriores por anos. Na vice-presidência do governo Obama, também era destacado articulador na matéria. Aliás, a proximidade com as ideias de Hilary Clinton é tamanha que seus principais assessores para as relações internacionais são os mesmos que também a apoiaram.

Dentre eles, o principal é Jake Sullivan, conselheiro-chefe de Biden para as relações internacionais e que já havia sido também seu assessor sobre segurança nacional, quando Biden ocupava a vice-presidência. Na hipótese de vitória democrata tende a ser, senão o Secretário de Estado, ao menos Conselheiro Nacional de Segurança. De todo modo, trata-se de um ideólogo e uma voz a se ouvir para perscrutar os caminhos da política externa de um eventual governo Biden.

Sullivan tem defendido uma visão renovada do excepcionalismo norte-americano, a ideia formadora segundo a qual os Estados Unidos seriam um caso único e, portanto, com a missão de exercer o papel de farol de valores para um mundo que não teria as suas mesmas condições de maturação política e democrática. Ora, não é diferente do pensamento apresentado por Trump e, antes dele, Dick Cheney, o verdadeiro falcão do governo Bush Jr. Sullivan se apressa em dizer que, na verdade, esses republicanos (Trump, especialmente) é que se apropriaram de uma ideia que não lhes pertence para, na prática, exercer outra política[i].

O que isso quer dizer exatamente, ainda não foi explicado. Parece uma retórica um tanto vazia? A razão é que se trata exatamente disso. A campanha democrata indica que procura sensibilizar a classe média norte-americana com conceitos e visões populares, mas sem materialidade. Sullivan já acusou os republicanos de praticarem um “unilateralismo predatório”[ii]. Contudo, sua proposta de alternativa, repetida por Biden, pode também ser chamada de “multilateralismo predatório”: reforçar a OTAN, unir uma coligação de Estados para perseguir os inimigos apontados pelos EUA.

“Paz mundial” não é um conceito que está na plataforma apresentada.

O candidato segue a mesma linha do seu assessor. Em artigo no qual lançou sua visão das relações dos Estados Unidos com o mundo, Biden invocou, desde o título, o gasto clichê da “liderança norte-americana”. Para uma politica externa pós-Trump, ele intitula seu programa com um “porque a América deve liderar novamente”. De pronto, o texto defende que Trump teria esgarçado a liderança dos EUA, atacado amigos, encorajado inimigos, além de haver se afastado dos valores que dariam identidade ao país e legitimidade à sua presença ostensiva pelo mundo[iii].

Biden aponta para um cenário difícil, no qual “o sistema internacional construído pelos EUA está ruindo”: avanço de autoritarismos, nacionalismos e políticas antiliberais. Nesse ponto, o único do texto que aparenta um chamado à paz, ele dialoga com uma tradição liberal que vê nas barreiras ao comércio internacional e no nacionalismo os gérmens da guerra. Prega que os EUA se engajem na questão climática, defende uma revolução verde, investimentos em tecnologia e infra-estrutura e outras propostas muito caras à mesma classe média a quem Jake Sullivan prega, há anos, sua visão do velho e tradicional “excepcionalismo”.

Novamente, vale a pergunta: qual a real substância da proposta do Partido Democrata? Biden faz um apelo vago a alguns valores e noções antigas, sem objetividade. Obama fez o mesmo quando foi eleito e, inclusive, recebeu um Nobel da Paz para depois tornar-se o presidente do maior orçamento militar da história da belicosa república do norte.

Quando os pés buscam o chão, o cenário não é tão idílico.

As críticas de Biden a Trump por ter abandonado o acordo nuclear com o Irã e por ter ordenado o assassinato do general Qasem Soleimani, popular e eficaz comandante da iraniana Força Quds, soam mais à retomada do “smartpower” da gestão de Hilary Clinton na Secretaria de Estado, do que um chamado aos bons modos.

Além disso, no que tange às relações com a Rússia, o candidato democrata propõe o enfrentamento. Acusa o governo russo de crimes e diz que os EUA devem ampliar a atuação da OTAN e voltar a estreitar os laços afrouxados por Trump com os aliados europeus. Portanto, nada de diferente do que foi praticado pela Washington do triunfalismo do pós-Guerra Fria: Biden projeta uma OTAN ainda mais engajada no cerco à Rússia. A consequência dessa política foi, como se sabe, a instabilidade no leste europeu e a busca (sensata) de Moscou pela defesa de sua segurança e soberania. A rigor, as “ações” russas no tabuleiro geopolítico são, na verdade, reações à expansão da OTAN, contra a qual até mesmo Henry Kissinger lançou advertências.

Para a China, tampouco Biden e seu assessor trazem palavras mais brandas que as do atual governo. Em maio deste ano, Sullivan emulou Pompeo e escreveu na Foreign Policy que a China tem um “projeto de dominação global”. No mesmo texto, em passagem sincera, confessa que sua preocupação é mais com um “desafio à liderança dos Estados Unidos”. Seu artigo leva à conclusão de que um Estado que cresça economicamente, invista em pesquisa e procure tratados de comércio com outros países estará, automaticamente, “desafiando a liderança norte-americana”[iv].

Por sua vez, Biden vai na mesma linha. Para o mais provável futuro presidente dos Estados Unidos, a China pretende estender sua influência usando pra isso o investimento em alta tecnologia (que bom seria se o Brasil pudesse hoje ser acusado de tamanha ousadia). Por fim, prega um enfretamento ainda mais intenso que o promovido por Trump…

Uma vitória de Joe Biden seria, evidentemente, uma boa notícia em um mundo no qual governos de potências tem contado com a força dos piores preconceitos e de uma incivilidade latente, para não falar do “terraplanismo”. Contudo, para as principais questões geopolíticas da época, a receita apresentada até aqui é a mesma: defender os interesses dos Estados Unidos colocando na defensiva qualquer país do mundo que ouse se desenvolver.  Apesar de toda a carga também simbólica de uma derrota de Trump, a volta dos democratas não pode ser saudada como a de emissários da paz em busca de um caminho aberto e democrático para o mundo.

*Alexandre G. de B. Figueiredo é doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Integração da América Latina (PROLAM-USP).

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