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Guerra Híbrida na Venezuela: A Arma dos EUA que já matou milhares, mas que a mídia esconde

A pirotecnia assassina do bombardeio de pequenas lanchas que a mídia insiste em dizer que são “traficantes”, serve para manter escondido um crime de guerra que já matou milhares de venezuelanos

Desde 2017, quando os Estados Unidos impuseram sanções financeiras e comerciais amplas contra a Venezuela — especialmente contra a estatal petrolífera PDVSA e o Banco Central —, o país enfrenta um bloqueio econômico “unilateral coercitivo” e “criminoso”, como mostram dados internacionais.

Um dos efeitos mais devastadores e menos visíveis desse bloqueio é a dificuldade ou impossibilidade de importar medicamentos essenciais, equipamentos médicos e insumos hospitalares.

Relatórios da ONU, da CEPAL, de ONGs e do próprio Ministério da Saúde venezuelano apontam que, entre 2017 e 2025, dezenas de milhares de pessoas morreram ou tiveram sua saúde gravemente comprometida por falta de remédios que, em condições normais, seriam facilmente adquiridos no mercado internacional.

Como o bloqueio corta o oxigênio financeiro ao sistema de saúde

Mais de US$ 5,5 bilhões em ativos venezuelanos foram bloqueados em bancos norte-americanos e europeus (Bank of England, Novo Banco de Portugal, Clearstream, Euroclear). Parte desse dinheiro estava destinada ao pagamento de fornecedores de medicamentos e vacinas.

Proibição de transações em dólares: A maioria dos laboratórios farmacêuticos mundiais (Pfizer, Roche, Sanofi, Merck, Novartis) só aceita pagamento em dólares americanos via bancos correspondentes nos EUA.

Com a Ordem Executiva 13884 (agosto de 2019), qualquer banco que processe pagamento para o governo venezuelano ou empresas estatais corre risco de sanção secundária. Resultado: fornecedores simplesmente recusam vender.

Quando a Venezuela consegue comprar (via Rússia, China, Índia ou Irã), paga de 30% a 200% a mais porque precisa usar rotas alternativas, criptomoedas ou barter (troca de petróleo por remédios).

Isso reduz drasticamente a quantidade que pode ser adquirida com o mesmo dinheiro.

Aqui no Brasil, com o SUS funcionando a Pleno, a gente não tem a dimensão do que significa este bloqueio. Por isto levantei alguns dados a respeito, que descrevo a seguir:

Antirretrovirais para HIV: Em 2017–2019, o estoque caiu 80%. Em 2020, o Fundo Global suspendeu envios por medo de sanções secundárias.

Quimioterápicos oncológicos: Pacientes com câncer de mama, leucemia e linfoma ficaram sem medicamentos como paclitaxel, tamoxifeno, imatinibe e rituximabe. O Hospital Padre Machado (oncologia infantil de Caracas) chegou a ficar 14 meses sem ciclofosfamida.

Insulinas humanas e análogas: Entre 2018 e 2021, mais de 70% dos diabéticos tipo 1 e tipo 2 dependentes de insulina ficaram sem tratamento contínuo.

Imunossupressores para transplantados: Pacientes de rim, fígado e coração perderam enxertos por falta de ciclosporina, tacrolimus e micofenolato.

Anticonvulsivantes (valproato, carbamazepina, lamotrigina): Milhares de crianças com epilepsia sofreram crises graves ou morte súbita.

Antibióticos de última linha e antifúngicos para pacientes em UTI: A mortalidade por infecções hospitalares subiu 400% em alguns centros, segundo estudo da Universidade Central da Venezuela (2021).

Vacinas do calendário ampliado: Entre 2017 e 2020, a cobertura de DPT, polio e sarampo caiu para menos de 50% em várias regiões.

3. Números que doem

  • Relatório da relatora especial da ONU Alena Douhan (fevereiro de 2021): “As sanções causam aumento de mortalidade por doenças tratáveis”.
  • Centro de Investigação Econômica e Política (CEPR, Washington, 2019): Estimativa de 40 mil mortes excedentes entre 2017 e 2018 por falta de acesso a medicamentos e alimentos.
  • Encovi (Universidades venezuelanas, 2021): 84% dos hospitais públicos operavam com menos de 30% dos insumos necessários.
  • Ministério do Poder Popular para a Saúde (2022): Mais de 300 mil pacientes crônicos (câncer, HIV, hemodiálise, transplantados) estavam em “risco vital” por desabastecimento contínuo.
  • Human Rights Watch e Johns Hopkins (2020): Documentaram pelo menos 8 mil mortes de pacientes renais crônicos entre 2017 e 2019 porque máquinas de diálise pararam por falta de filtros e soluções.

4. Casos concretos que chocaram o mundo

  • 2019: O navio da Cruz Vermelha com 300 toneladas de ajuda humanitária (incluindo geradores e medicamentos) ficou 3 meses retido em Curaçao por pressão dos EUA.
  • 2020: A empresa colombiana que fornecia 90% dos filtros de diálise para a Venezuela cancelou o contrato após ameaça de sanção do Tesouro americano.
  • 2021: Pagamento de US$ 64 milhões à COVAX (mecanismo da OMS para vacinas Covid) foi bloqueado em banco suíço por ordem dos EUA; a Venezuela só recebeu as primeiras doses com 8 meses de atraso.
  • 2023: O laboratório indiano que enviava insulina foi multado em US$ 10 milhões por vender à Venezuela, mesmo sendo pagamento em rúpias.

Contra estas criminosas atrocidades, o governo Venezuelano criou o programa “Plan Nacional de Salud 2019–2025” e rotas alternativas, via Acordos com Rússia, Cuba, China e Irã e Produção local de genéricos em fábricas como Quimbiotec e ESPROMED-BIO. Além disto, troca Petróleo por Remédios com a Índia, turquia e outros,

Mesmo assim, a produção interna cobre apenas 25–30% da demanda nacional de medicamentos essenciais, segundo a Federação Farmacêutica Venezuelana (2024)

O bloqueio econômico dos Estados Unidos e seus aliados não é apenas uma medida de pressão política: é uma arma que mata lentamente, negando a um povo inteiro o direito básico à saúde.

Enquanto laboratórios multinacionais recusam vender por medo de multas milionárias, crianças com câncer, transplantados e diabéticos pagam o preço mais alto.

Morrem em silêncio, longe das câmeras, vítimas colaterais de uma guerra que Washington insiste em chamar de “sanções direcionadas”.

Como disse o ex-relator da ONU Alfred de Zayas: “Matar de fome uma população civil ou negar-lhe medicamentos essenciais constitui crime contra a humanidade segundo o Estatuto de Roma. O que está acontecendo na Venezuela atende a essa definição.”


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4 pensamentos sobre “Guerra Híbrida na Venezuela: A Arma dos EUA que já matou milhares, mas que a mídia esconde

  1. Buenas, caro amigo Müller.

    Não tenho Face, nem “Estragam”, nem X, nem Tik Tok.  Mas, vou enviar essa tua matéria a todos os contatos que tenho no Zap.  Precisamos fazer ver ao povo brasileiro a extrema importância de nos solidarizarmos com o bravo povo venezuelano, muito acima de críticas que tenhamos aos governos bolivarianos, notadamente ao de Maduro.

    O que temos ali no país vizinho é um povo disposto a seguir seu próprio caminho e o império tentando esmagá-lo para que desista de seu intento. 

    Como tenho ressaltado às pessoas com quem procuro debater, quando elegeu a Hugo Chávez para seu presidente, em 1998, o povo venezuelano se decidiu por retirar de seu pescoço, de uma vez por todas, a pesada canga que o colonialismo da Europa e dos EUA lhe impôs havia séculos.

    E a reação das democracias (sic) da Europa e dos EUA foi, como sempre fizeram com outros povos que também ousaram um caminho próprio, passar acossar e a esmagar os venezuelanos, a transformar suas vidas num inferno de modo a que eles aceitassem a canga de volta a seus pescoços.

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  2. AS IGREJAS TERIAM TIDO ATUAÇÃO DECISIVA NA EMIGRAÇÃO MASSIVA?

    Um detalhe considero importante e que faço questão de ressaltar às pessoas acerca da crise na Venezuela.  Eu não duvidaria de que, se for feita uma investigação, essa vá constatar que as igrejas, de um modo geral, tiveram participação ativa na indução e sedução massiva de venezuelanos à emigração.

    “Pega tuas trouxas e vai lá pro Brasil, pro Chile, pro Uruguai, sai desse inferno aqui.  Lá, a nossa igreja vai de dar um apoio”, possivelmente pastores e outros “emissários divinos” tenham dito a muitos venezuelanos.

    Certamente, ao afirmar isto não estou aqui a subestimar a contribuição abismal que a crise econômica e social – provocada de fora, como a tua matéria mostra, Müller -, que se abateu sobre o país vizinho teve no convencimento à emigração.

    Até há um ano atrás, eu não sabia disso, mas, no artigo “A OTAN, os migrantes na UE e a guerra próxima na Moldávia”, escrito pelo cientista político francês, Thierry Meyssan, em outubro de 2024, tomei conhecimento da utilização das grandes “migrações como arma de guerra”.

    Em um trecho do artigo, Meyssan afirma:

    “Trata-se da aplicação de uma teoria militar da OTAN: «as migrações como arma de guerra».”

    “Este conceito foi aplicado, pela primeira vez, durante as guerras da Jugoslávia. A CIA conseguiu convencer os Kosovares a deixar a sua terra para escapar aos combates que Belgrado travava contra os terroristas do UÇK. Uma longa coluna de civis chegou então à Macedónia seguindo uma linha de caminho de ferro. Um pouco surpresos, os Macedónios acolheram-nos.”

    “As imagens deste êxodo foram utilizadas pelos serviços de comunicação da OTAN para provar que o Presidente Slobodan Milošević estava a reprimir a minoria kosovar e a justificar assim a sua invasão ilegal da Jugoslávia.”

    O instrutivo artigo de Thierry Meyssan está disponível em https://www.voltairenet.org/article221415.html.

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