No Rio Grande do Sul, o diagnóstico de esquizofrenia e o surto psicótico deixaram de ser questões de saúde pública para se tornarem sentenças de morte executadas em via pública. O braço armado do Estado, que deveria servir e proteger, consolidou uma “solução” definitiva e bárbara para quem sofre de transtornos mentais: o extermínio.
O episódio mais recente dessa crônica de mortes anunciadas ocorreu em Santa Maria, no bairro Boi Morto. Neri Antônio de Oliveira, um homem de 50 anos que convivia com a esquizofrenia, foi morto a tiros pela Brigada Militar. Neri não era um criminoso; era um paciente em crise. Sua família, num ato de desespero e confiança — hoje revelada trágica — nas instituições, chamou o socorro. Recebeu, em troca, o corpo de Neri crivado de balas.
O assassinato de Neri não é um erro isolado; é o subproduto de um sistema que garante o salvo-conduto para matar. Enquanto Santa Maria chora por Neri, a Corregedoria-Geral da Brigada Militar acaba de dar um tapa na cara da sociedade e dos direitos humanos: concluiu que os policiais que mataram Herick Cristian da Silva Vargas, de 29 anos, em Porto Alegre, agiram em “legítima defesa”.
Herick, também esquizofrênico, foi morto em setembro. A decisão da Corregedoria é o combustível que arma o gatilho em Santa Maria. Ao validar a morte de Herick como um ato legal, o Estado envia um recado cristalino à tropa: podem atirar, a instituição os protegerá. É a “legítima defesa” mais covarde e desigual do mundo: de um lado, agentes treinados, com coletes e armas de grosso calibre; do outro, homens desorientados em profundo sofrimento psíquico. Se a única técnica que a Brigada Militar possui para conter um cidadão em surto é a força letal, então o treinamento da nossa polícia é uma farsa e sua doutrina é a da eliminação sumária do “indesejado”.
Por que o SAMU não é o protagonista absoluto nessas abordagens? Por que a lógica é o confronto e não a desescalada? No Rio Grande do Sul de Eduardo Leite, a gestão da crise mental foi terceirizada para o cano do revólver.
O doente mental é desumanizado e lido como “ameaça absoluta”. Isso justifica, no tribunal corporativo da caserna, o uso da força letal como primeira e única opção.
Enquanto o governo negligencia o atendimento psicossocial e os CAPS, as famílias ficam reféns de uma polícia que não foi formada para acolher, mas para neutralizar alvos.
Enquanto houver inquéritos militares onde o Estado julga a si mesmo — e absolve o erro óbvio, como no caso de Herick — o sangue de cidadãos como Neri continuará manchando as fardas gaúchas.
Basta de Barbárie
Não há “ordem” que se sustente sobre o cadáver de pessoas com deficiência mental. A morte de Neri Antônio de Oliveira e a absolvição dos matadores de Herick Cristian são provas de que, para este governo, a vida dos vulneráveis é descartável.
Não aceitaremos o silêncio. A esquizofrenia exige tratamento e humanidade, não execução. Justiça para Neri! Justiça para Herick!
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