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O que a China entendeu sobre ciber-guerras que o Brasil ainda ignora: soberania de dados, não só data centers

O artigo “Ciberguerras: o que a China entendeu antes do mundo”, traz uma lição estratégica que o Brasil precisa absorver urgentemente.

Pequim percebeu, muito antes do Ocidente, que as guerras do século XXI começam com vigilância em massa, interceptação de dados e controle das infraestruturas digitais.

Por isso, a China tratou o ciberespaço como infraestrutura crítica de segurança nacional: criou o Grande Firewall, internalizou dados governamentais, restringiu plataformas estrangeiras e construiu gigantes tecnológicos próprios com nuvem soberana, 5G nacional e ecossistema autônomo.

Como disse o criador do Firewall, Fang Binxing, “a autonomia tecnológica só pode existir quando o Estado é capaz de proteger, regular e estruturar seu próprio ambiente informacional”.

Enquanto isso, o Brasil segue o caminho oposto. Estamos celebrando a chegada de novos data centers — atraídos por incentivos fiscais e energia barata —, como se quantidade de servidores fosse sinônimo de progresso. Mas falta o essencial: uma política de soberania sobre os dados que esses centros armazenam. Sem ela, continuamos entregando o controle dos dados gerados aqui para as Big Techs americanas.

O sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, um dos maiores especialistas brasileiros em soberania digital, tem denunciado isso há anos com clareza cirúrgica.

Amadeu mostra que 69% dos data centers no Brasil são controlados por apenas 16 empresas, sendo 14 multinacionais estrangeiras. Ou seja: os prédios estão aqui, a energia é nossa, mas o poder — o código-fonte, a governança, o acesso aos dados — fica lá fora.

O caso mais grave é a chamada “Nuvem Soberana” do Serpro. Vendida como avanço, trata-se de uma armadilha. Os dados sensíveis do SUS, da Receita Federal, da Previdência e de toda a administração pública são processados em plataformas de Amazon, Microsoft, Google ou Oracle.

Mesmo com servidores físicos no Brasil, os contratos obrigam conexão com infraestruturas americanas. Resultado? Qualquer ordem judicial dos EUA (via Cloud Act) permite que esses dados sejam acessados, copiados ou entregues ao governo americano — sem que o Brasil possa fazer nada.

Já Pequim entendeu que depender de softwares, sistemas operacionais e protocolos ocidentais cria “portas dos fundos” estruturais. A estratégia chinesa foca na criação de uma infraestrutura digital de ponta a ponta (do chip ao sistema de nuvem), o que o país chama de “Comunidade de Futuro Compartilhado no Ciberespaço“.

Como Amadeu resume: “Isso não tem nada de soberania. É um produto, uma peça de marketing dessas big techs para manter contratos”.Ele usa uma analogia devastadora: “A gente entrega minério de ferro para comprar aço”. Vendemos dados brutos (o “minério”) gerados pela população brasileira e, em troca, compramos serviços processados no exterior.

É colonialismo de dados puro: o Sul Global extrai, o Norte processa e lucra.

E o pior: muitos defendem essa dependência com o argumento derrotista de que “não temos capacidade técnica”. Amadeu rebate: “Não é verdade que a gente não tem condição de desenvolver essa tecnologia de nuvem”.

O Brasil já tem exemplos viáveis — como o data center do Comitê Gestor da Internet em São Paulo — e poderia contratar engenheiros brasileiros que hoje trabalham para as próprias Big Techs no exterior para montar infraestruturas nacionais, com software livre e governança pública.

Enquanto a China internaliza dados e reduz vulnerabilidades, o Brasil aprofunda a subordinação. Permitimos que até dados públicos fiquem hospedados nos Estados Unidos, expostos às leis de vigilância americanas (Cloud Act, FISA, Patriot Act).

Em tempos de ciber-guerras híbridas — onde dados são munição —, isso não é apenas ingenuidade econômica: é risco estratégico à soberania nacional.

A solução não é proibir data centers estrangeiros, mas subordiná-los a regras claras de soberania: obrigatoriedade de localização de dados sensíveis, auditoria pública dos contratos, preferência para soluções nacionais e investimento maciço em nuvem pública soberana (como fez o Uruguai com seu data center 100% estatal e software livre).

Precisamos de um Plano Nacional de Soberania Digital que transforme dados em bem comum estratégico, não em commodity privatizada.

Na doutrina chinesa, os dados não são apenas mercadorias comerciais, mas um recurso estratégico de segurança. Isso contrasta com modelos que priorizam apenas a proteção individual (como o GDPR europeu) ou o livre mercado (como o modelo dos EUA), focando em como os dados podem ser usados para prever e neutralizar ameaças externas antes mesmo que elas atinjam a infraestrutura física.

Como alerta Sérgio Amadeu, sem converter a soberania de dados em luta política concreta, o Brasil não sairá da condição de dependência aguda.

A China entendeu isso décadas atrás. O mundo está aprendendo agora.

O Brasil ainda pode escolher não chegar atrasado — e não pagar o preço de ser apenas mais um território digital colonizado.

É hora de passar de data centers para soberania de verdade. Os dados gerados aqui pertencem ao povo brasileiro. Quem os controla, controla o futuro.

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