
Há décadas, a história de Cuba é escrita sob a sombra de uma das políticas mais perversas da era moderna: o embargo econômico imposto pelos Estados Unidos.
Mas o que o povo cubano enfrenta hoje não é apenas a continuação de uma velha dinâmica da Guerra Fria; trata-se de uma asfixia deliberada, calculada e intensificada.
Em uma recente e profunda entrevista ao jornal espanhol elDiario.es, o lendário trovador cubano Silvio Rodríguez deu voz a esse sentimento de indignação que ecoa pelo mundo: “Não existe na história um bloqueio mais longo que o de Cuba e, agora, com as últimas medidas, tampouco mais cruel e inumano”.
A voz de Silvio Rodríguez não é a de um propagandista, mas a de um intelectual e artista profundamente conectado com a alma e o sofrimento de seu povo.
Suas palavras jogam luz sobre a realidade de um país que atravessa uma crise severa, onde a falta de alimentos, combustíveis e medicamentos testa diariamente os limites da dignidade humana.
O Reforço da Crueldade como Arma Política
Diferente de outras nações que possuem grandes reservas de recursos naturais cobiçados geopoliticamente — como as gigantescas reservas de petróleo da Venezuela —, os principais recursos naturais de Cuba são, como lembra o próprio Silvio, “o clima e as praias”.
O alvo do bloqueio de Washington nunca foi o controle de riquezas materiais específicas, mas sim a tentativa de quebrar o espírito de um povo através da privação absoluta.
As sucessivas medidas restritivas impostas e endurecidas por administrações americanas transformaram o embargo em uma arma de destruição econômica em massa.
Ao barrar o acesso de Cuba ao sistema financeiro internacional e punir empresas estrangeiras que ousam negociar com a ilha, os EUA não atacam um governo: atacam a dona de casa que não encontra comida, o idoso que fica sem remédios e o jovem que se vê forçado a imigrar.
No entanto, o que torna a perspectiva atual de Silvio Rodríguez tão potente e respeitada é o seu compromisso inabalável com a verdade e com o bem-estar dos cubanos, o que o permite criticar o cerco externo sem fechar os olhos para os erros de dentro.
O Equilíbrio da Verdade: Crítica Externa e Autocrítica Interna
Para além de denunciar a crueldade de Washington, Silvio Rodríguez utilizou o espaço para fazer uma autocrítica severa e realista sobre o rumo econômico de Cuba.
Ele aponta que o modelo econômico cubano acabou se tornando “muito idealista” e “ortodoxo”, argumentando que a ilha deveria ter replantado e flexibilizado seu sistema há pelo menos três décadas, seguindo a própria máxima de Fidel Castro de que é preciso “mudar tudo o que deve ser mudado”.
O trovador questionou abertamente, por exemplo, as escolhas de investimento do governo cubano, que manteve uma forte aposta na construção de hotéis de luxo em meio a uma crise brutal, enquanto setores vitais como a agricultura, a saúde e a infraestrutura energética sofrem com a falta de recursos básicos.
Silvio defendeu também o direito fundamental à livre expressão e à manifestação pacífica dos cidadãos cubanos:
Acredito no direito à livre expressão e manifestação. As forças de ordem devem custodiar as manifestações para que não ocorram incidentes negativos.”
Ao mesmo tempo, ele rejeitou o oportunismo daqueles que usam o sofrimento legítimo da população para promover atos de vandalismo e violência com o objetivo de desestabilizar o país a serviço de interesses estrangeiros.
Respeito Mútuo: O Único Caminho Possível
Quando questionado sobre a viabilidade de um acordo ou de um diálogo futuro entre Cuba e os Estados Unidos, o compositor de Ojalá foi categórico: o diálogo só é bom e viável quando existe respeito mútuo.
Não haverá avanço enquanto a maior potência do planeta insistir em ditar os rumos políticos de uma ilha soberana por meio da fome e do desespero.
O bloqueio contra Cuba falhou em seu objetivo político de derrubar o sistema por mais de 60 anos, mas triunfou em sua crueldade de gerar escassez.
O artigo de Silvio Rodríguez é um lembrete urgente de que a solidariedade internacional com Cuba exige o fim imediato desse bloqueio inumano, mas exige também o respeito à inteligência do povo cubano, que tem o direito de construir seu próprio futuro econômico e social — livre da asfixia imperialista.
Leia a Entrevista na Íntegra, clicando no Link a seguir:
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