Fascismo/Porto Alegre

Estamos “Como Nossos Pais” lutando contra o Fascismo (ou precisamos estar)

ÓDIO

Do Prof. Julio Sosa

Sobre a exposição que o banco Santander cancelou no espaço cultural por causa dos protestos dos fundamentalistas do MBL, tenho uma única palavra a dizer: MEDO.

Foto das manifestações de Junho de 2013 no Brasil

Não que me surpreenda à ação do banco. Mas tenho muito medo quando o fundamentalismo começa a perseguir a educação, como já vem fazendo há algum tempo e agora também às artes. Qual o próximo passo? Queimar livros? Queimar pessoas?

Vivemos tempos sombrios, tempos de golpes à democracia, geralmente, abre caminho para que fundamentalistas passem a querer impor à força o seu conjunto de regras morais. E, ainda pior, perseguir a todos que não seguem essas regras.

Pedro Almadóvar, em uma entrevista à IstoÉ, em 2016, disse “estou aterrorizado com o avanço da direita. Não tenho filhos, mas, se tivesse, ficaria preocupado com o destino deles, por temer um futuro atroz para o mundo.” Eu também.

“O Reino Unido decidiu deixar a União Europeia depois de 40 anos. A aversão aos refugiados e a crise migratória alimentaram o debate sobre o Brexit. Nos Estados Unidos, o magnata Donald Trump venceu a eleição para a presidência dos Estados Unidos. Com um discurso polêmico, ele afirmou que pretende, por exemplo, erguer um muro para separar o território americano da fronteira com o México.” (CBN)

Seria ingenuidade supor que basta a vitória de Lula, em 2018, ou de um candidato de esquerda, para que tudo volte a andar nos trilhos – não vou fazer análise sobre o quadro político do próximo ano, aqui neste texto – e seria superficialidade acreditar que o avanço do conservadorismo se dê apenas pelo aspecto político. Antes fosse. Não é. E como vimos não se restringe apenas ao Brasil.

E também não se restringe ao embate político entre Esquerda versus Direita, como bem lembrou o blog Pragmatismo Político, tentar entender o avanço do conservadorismo pela disputa entre esses dois espectros da política  é supor erroneamente que a esquerda  é certa e que a direita  é errada e vice-versa. E eu acrescentaria a velha disputa entre o bem e o mal. Evidentemente a enormes diferenças entre Esquerda e Direita e elas bem distintas uma da outra.

Vejo poucas análises, profundas e maduras, sobre o que representaria uma vitória de Lula, em 2018. Repito não vou fazer análise do quadro político do próximo ano. Uma vitória de Bolsonaro, por exemplo, ou de um candidato do conservadorismo radical, que seja mais digestivo do que o Mito, nós podemos imaginar as consequências. Mas o que representaria uma vitória de Lula ou algum candidato da esquerda? O cenário político-econômico-social não é o mesmo de 2002 e 2006. Se o atual Congresso é o pior dos últimos tempos, a tendência que o próximo supere esse no aspecto do conservadorismo.

Saulo Diniz, no Pragmatismo Político, atribuiu, de forma corretíssima, o avanço do conservadorismo ao que  Zygmunt Bauman, chamou de Modernidade Líquida, “as mudanças hoje são muitas e cada vez mais rápidas, o século XXI com menos de duas décadas completas já nos apresentou tantas novidades, tantas reviravoltas, a vida muda com muita rapidez, por isso é líquida, pois ela é cada vez mais fluida, não há como prendê-la. Essa é a tal liquidez, afinal, não podemos contê-la, ela escorre por nossas mãos.” (Diniz)

“ […] toda essa liquidez, essa efemeridade das coisas nos fazem procurar por segurança e frequentemente são encontradas em algumas coisas sólidas, ou seja, duradouras, estáveis. Mas o que pode ser sólido num mundo onde as coisas são líquidas?” , pergunta Saulo Diniz, ele mesmo responde que é o passado que traz essa segurança, se o presente passa por mudanças radicais, se tudo parece efêmero, e se o futuro é incerto as pessoas irão buscar na solidez do passado a sua segurança. Na Europa Medieval quando as pessoas daquela sociedade passaram por profundas mudanças que arrancaram a segurança que viviam a única Instituição que permaneceu firme e deu a impressão de ser duradoura foi a Igreja Católica.

Marcos Coimbra, na Carta capital, afirma que “em praticamente todo o mundo, o crescimento das organizações e da militância de extrema-direita é uma marca dos últimos 30 anos. Saímos do século XX e entramos no XXI obrigados a conviver com algo que parecia extinto desde quando o nazifascismo foi derrotado na Segunda Guerra Mundial.”.

A Presidenta (Legitima) Dilma Rousseff tem afirmado algo que tem ficado de fora das análises políticas, mas que uma excelente visão da conjuntura política atual, e que remete a ideia da disputa Esquerda e Direita, segunda ela, o Golpe de 2016 aniquilou a direita, representada pelo PSDB. Acertou na mosca. Muito se disse da derrocada da esquerda pós-golpe. E o que restou da direita?

O filósofo (tucano) José Arthur Giannotti, em entrevista dada, recentemente, à Folha, disse “O PSDB morreu. Quer que eu fale de defuntos? O PSDB não é mais um partido. Funcionava como um partido quando as decisões eram tomadas em bons restaurantes e todos estavam de acordo. Agora isso não há mais. E não existe alguém como Lula para aglutinar todos”.

O PSDB não nasceu de direita, caminhou para lá, precisaria ser feito uma análise mais profunda se o se deslocou à direita, quando o PT rumou ao centro, ou se foi o deslocamento dos tucanos que puxou os petistas. O tucanato surgiu Social Democrata. Porém, os partidos socialdemocratas estão se “desfazendo”, em boa parte do mundo.

Esse cenário político de crise da esquerda e da direita, a polarização entre ambos, tem dois efeitos: primeiro não parece surgir um projeto de país para tirar o Estado da crise, que vai muito além da crise política; e, segundo, se nem à direita nem à esquerda correspondem mais como solução à crise generalizada, surge à figura da extrema-direita, representada em salvadores da Pátria, com discurso fácil e pautado na intolerância.

Marcos Coimbra lembra que “A base da cultura democrática generalizada no pós-Guerra foi a tolerância e o reconhecimento da legitimidade do outro na interlocução política. Ao mesmo tempo que admitia a existência de interesses e pontos de vista distintos na sociedade, estabelecia o princípio de que ninguém tinha o direito de impor os seus aos demais, muito menos agir para eliminar aqueles de quem discordasse.”

Esse quadro não existe mais. Não é um fenômeno nacional, como mostra um estudo apresentado na Carta Capital, feito pelos professores S. Iyengar, da Universidade de Stanford, e S. Westwood, da Universidade de Princeton, “(…) no ambiente político norte-americano contemporâneo, constata-se uma crescente hostilidade entre os cidadãos (…), quem se identifica com um partido expressa visão negativa em relação ao outro e a seus simpatizantes. Enquanto os republicanos percebem seus correligionários como patrióticos, bem informados e altruístas, julgam os democratas como se possuíssem os traços opostos”.  E vão além “(…) fornecem os elementos para juízos de valor e comportamentos não políticos (…) levando os indivíduos a frequentemente discriminar aqueles com quem não se sentem identificados”. Para eles: “(Hoje) na sociedade norte-americana, a animosidade entre aqueles que se identificam com algum partido é mais alta do que a hostilidade racial”.

Cenário igual se percebe no Brasil a extrema-direita raivosa sempre existiu no Brasil, mas a partir de 2013, nas ditas “jornadas de junho”, eles saíram do armário, ou melhor, perderam a vergonha de se expor. Ali foi aberto a “Caixa de Pandora”.  A mídia é, talvez, a grande responsável por isso. A imprensa golpista percebeu que ali havia um ovo de serpente e a possibilidade de se derrotar o petismo.

Aquelas manifestações não nasceram da direita raivosa, à direita, raramente, vai às ruas espontaneamente. Elas nasceram, paradoxalmente, das medidas sociais de inclusão dos governos petistas. Explico. Os milhares de (não) cidadãos que estavam marginalizadas antes de 2003 e só se preocupavam se teriam o pão, mas que obtiveram acesso à sociedade com o petismo, agora exigia desta mesma sociedade o que nunca tiveram: melhores serviços. Isto é, desejavam tornarem-se cidadãos de fato e de direito.

A história cobrará do petismo e da esquerda não ter sabido fazer a leitura política daquele momento. As ruas sempre foram  o lugar do PT e do resto da esquerda. Esse espectro político é, historicamente, nascido das ruas, das lutas, dos movimentos, das marchas não soube olhar às ruas. O PT porque estava encastelado e parte da esquerda por estar lutando contra o PT.

Na política não existe espaço vazio, se a esquerda não organizou aqueles movimentos, a direito se apoderou deles. E aqui entra o papel da imprensa, intelectuais orgânicos do golpismo à brasileira. A imprensa ditou a pauta: CORRUPÇÃO. Historicamente a corrupção é a bandeira de luta da extrema direita, quando deseja alijar do poder qualquer governo minimamente progressista. Sempre funciona. Desta vez não foi diferente.

Segundo Coimbra “a inexistência, no Brasil de hoje, um elemento integrado há séculos no cenário político democrático: uma imprensa plural, com alguns veículos ligados aos partidos e outros equidistantes de todos. Se, nos EUA e na Europa, os dois (ou mais) lados vão à guerra partidária com suas tropas políticas, seus militantes e suas máquinas de comunicação, enquanto instituições como o Judiciário e a imprensa independente arbitram o conflito, aqui, a bem dizer, só existe um lado”, possibilitou que o avanço da extrema direita no país se desse tão rapidamente, a partir das “jornadas de junho”.  “A velocidade com a qual cresceu a extrema-direita brasileira é consequência de nossa “grande” imprensa funcionar como uma única e imensa Fox News, a emissora de televisão partidarizada e retrógrada de Rupert Murdoch.” (Coimbra)

Como vamos vencer o ódio e a intolerância? A resistência já está sendo feita, mas na minha humilde opinião não de forma articulada e organizada. Erra quem coloca no processo eleitoral de 2018 a saída para crise, nem sabemos se teremos eleições no ano que vem, e somente a possibilidade concreta de não haver as eleições já nos proporciona a ideia do caos que vivemos. A iminência de se repetir o 1965 nos mostra que não vivemos mais um Estado Democrático.

Resistência, organização, lutar, pensar o país, organização dos movimentos sociais e populares, construção de um programa de ação que unifique as forças progressistas, combate incessante ao fascismo em marcha cada vez mais acelerada são algumas das respostas possíveis e inevitáveis neste momento. Talvez, ninguém pudesse imaginar que estaríamos, em pleno século XXI, “Como nossos Pais” lutando contra o Fascismo.

Sim, o fascismo e o fundamentalismo parecem, no momento, está vencendo a boa ideia é que nos já o vencemos antes, venceremos novamente. Só temos que nos por em marcha e não ficar esperando apenas.

Fontes:

https://www.pragmatismopolitico.com.br/2017/06/avanco-conservadorismo-mundo.html

https://www.cartacapital.com.br/revista/868/a-radicalizacao-conservadora-9980.html

http://cbn.globoradio.globo.com/editorias/internacional/2016/12/22/AVANCO-DO-CONSERVADORISMO-PELO-MUNDO-MARCOU-O-ANO-DE-2016.htm

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