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ULISSES OU NARCISO? A ELITE BRASILEIRA SEM RUMO

Por Ricardo Cappelli*

O apresentador e empresário Luciano Huck saiu de cena sem nunca ter entrado. Qual sua opinião sobre a reforma da previdência? Qual sua opinião sobre a reforma trabalhista? O que sugere para tirar o país da atual crise econômica? Como reduzir o desemprego que atinge 13 milhões de brasileiros? E a reforma do Estado? E os supersalários? Como inserir o país na era da indústria 4.0? Reduzir juros? Como equacionar o câmbio? Como revolucionar a educação? Como resolver o problema do subfinanciamento da saúde? Nenhuma palavra ou opinião além de platitudes e autoelogios, simplesmente nada.

Confesso que li estupefato seu artigo-despedida publicado na Folha. Merece ser emoldurado e debatido nos cursos de ciência sociais. Poucas vezes vi a alma de nossa elite “desnuda” com tanta sinceridade. Ao se comparar a Ulisses em “A Odisseia”, amarrado ao mastro resistindo bravamente ao canto das sereias que ansiavam por sua candidatura, demonstra ter escolhido o “grego errado”.

Afirma que tentou descobrir porque foi o escolhido para a nobre missão de comandar o país. E logo a frente responde a si mesmo como quem olha apaixonado o próprio reflexo no rio: “minha exposição pública e, espero, meu jeito, minhas características, minha personalidade e a forma como vejo o mundo. As mesmas forças que me movem desde sempre me levaram a esse lugar.” Há de se reconhecer, nem Narciso seria capaz de tanto.

Proclama a necessidade de transformar “um país à deriva numa nação de verdade.” Termina dizendo que conversou com os melhores, estimulando todos a participar da vida política do país. Em tom de sacrifício, agarrado aos seus contratos milionários, declara que continuará contribuindo, mas não como candidato.

Uma leitura desatenta poderia fazer o leitor se sentir como um Tupinambá ao avistar o colonizador, um ser superior e salvador, encostando em nossas areias. Huck não consegue, por estar, como na mitologia, preso à devoção de si mesmo, enxergar o principal. As “sereias” que cantaram nos seus ouvidos o escolheram justamente pelo que é: um “gente boa” simpático, vaidoso e vazio, pronto para ser preenchido com um neoliberalismo tardio e anacrônico.

A elite brasileira sofre de ignorância histórica crônica, amnésia conveniente e/ou oportunismo escancarado. Quem são os melhores com quem nosso guia conversou? Os financistas da Avenida Paulista? Os barões da mídia do Cosme Velho? Ou os que habitavam junto com o apresentador o apartamento de Aécio em Belo Horizonte no dia da reeleição de Dilma? Entre os melhores está o playboy Accioly, seu amigo do peito?

A vida pública requer compromisso. Exige trajetória, história e sacrifícios. Não é um programa de auditório. Quem deu o golpe parlamentar que levou o país ao completo desarranjo institucional Luciano? Quantos destes seus “melhores” ocuparam a linha de frente na conspiração irresponsável que jogou o país neste atoleiro?

Ao brincar com a realidade, os “novos” vão caindo, um a um. Doria virou ração. Huck desintegrou na sopa rala do seu caldeirão. A elite perdeu o rumo e está sem saída. Sem candidato, sabe que seu programa jamais será aprovado nas urnas. A população empobrecida clama por mais estado e não por alquimistas do mercado. Cada vez mais encurralada e impressionada com a resiliência de Lula, não terá outra saída a não ser aprofundar sua sanha antidemocrática. Irresponsabilidade para isso não lhe falta. O obscuro “semi-presidencialismo” voltou a circular como “opção”.

Entregarão de bandeja o poder de volta a esquerda? A cada movimento fracassado da reação, 2018 parece ficar mais distante e imprevisível.

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*Ricardo Capelli é Ex presidente da UNE e atualmente faz parte do Secretariado de Flavio Dino, Governador do Maranhão

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