Lula

O repórter, a nova geração de universitários, os desempregados e o julgamento de Lula (Por Carlos Wagner)

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O julgamento da apelação do Lula no dia 24 vai desenhar o futuro do Brasil. Foto. EBN

Qual será o perfil econômico, político e de segurança pública que terá o Brasil quando a geração de jovens que está agora ingressando nas universidades encontrará no final dos seus cursos? Essa é a pergunta que centenas de pais estão fazendo atualmente. E a resposta para ela começa a ser desenhada no que irá acontecer no julgamento da apelação do ex-presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva (PT – SP), no próximo dia 24, pelos desembargadores do  Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF4), em Porto Alegre. Lula recorre de uma condenação por corrupção e lavagem de dinheiro de 9 anos e seis meses em primeira instância, feita pelo juiz federal Sérgio Moro, da Operação Lava Jato, no ano passado, em Curitiba (PR). O ex-presidente foi acusado de ter recebido como propina, da empreiteira OAS, um apartamento triplex, em Guarujá (SP). Lula ocupa o primeiro lugar nas pesquisas das próximas eleições e, caso seja condenado, fica inelegível e pode ser preso. A história política de Lula o tornou um ícone ao redor do mundo. Portanto, tudo o que acontece com ele é notícia.

Na atual volatilidade da conjuntura política brasileira, esse julgamento é um dos escassos fatos concretos que vai demarcar o rumo dos acontecimentos nos próximos meses. Portanto, o interesse do que irá acontecer está muito além das pessoas envolvidas diretamente no caso, que são os seguidores do ex-presidente, os desembargadores, o juiz Moro, da Lava Jato e os partidos de oposição ao PT, especialmente o grupo político do atual presidente da República, Michel Temer (MDB – SP). Entre outros, o que vai acontecer no dia 24, em Porto Alegre, interessa aos pais que colocaram os seus filhos nas universidades e aos 13 milhões de desempregados que estão gastando sola de sapato em busca de uma colocação pelo país afora. Aqui vou fazer uma reflexão com os meus colegas repórteres, velhos e novatos. A primeira armadilha para o repórter dentro desse tipo de cobertura é ficar preso no meio do fogo cruzado da disputa: a política, entre os partidos, e a jurídica, entre os desembargadores e os advogados. Nós temos que olhar a questão com os olhos dos pais que colocaram os seus filhos nas universidades e dos desempregados que buscam uma colocação no mercado.  Independentemente do que irá acontecer nesse julgamento, essas pessoas terão que tocar as suas vidas. E, para isso, irão precisar de informações precisas sobre o que aconteceu. Essa é a nossa função.

No meio de uma disputa do calibre da que irá acontecer no dia 24 em Porto Alegre, não é uma tarefa fácil para o repórter encontrar a informação que será relevante para o leitor tomar as suas decisões futuras. Mas é possível encontrá-la. Já vivi essa situação. Em 1994, o ex-governador de São Paulo (1987 a 1991) Orestes Quércia (MDB – SP) era candidato a presidente da República. Fui a Pedregulho, pequena cidade no interior de São Paulo, investigar o uso de materiais desviados do Estado, usados em obras da fazenda da família Quércia. O assunto ocupava as páginas dos jornais da época. Eu li o processo sobre o caso, as dezenas de reportagens publicadas e tudo que achei sobre o assunto. No final de uma semana de trabalho, fiquei desesperado, porque tudo o que havia descoberto já tinha sido notícia. Na época, em Pedregulho, tinha mais repórter investigando o Quércia do que moradores na cidade. Eu estava em um carro locado e precisei ir a uma oficina para verificar um som estranho no motor. Enquanto aguardava o mecânico, eu comecei a jogar conversa fora com um homem, que era dono de um velho caminhão. Na conversa, descobri que ele tinha sido a pessoa que transportou os materiais do depósito do Estado para a fazenda, onde foram usados em obras. E mais: ele não tinha sido entrevistado ainda por colega algum. Foi sorte. Mas é assim a vida do repórter.

Mas, muito mais do que encontrar um fato novo em uma cobertura, o repórter precisa estar atento à exatidão do que escreve. E, no meio da disputa e da pressão da concorrência, saber a exatidão do que é visto não é uma tarefa fácil. Nessas ocasiões, há uma regra de ouro na nossa profissão: se não entendeu o que está acontecendo, não coma na mão de outro – termo do jargão de jornalista que significa publicar a interpretação parcial de um acontecimento. É preferível levar um furo a escrever bobagem. O que vai acontecer em Porto Alegre, no dia 24, é grandioso. E o nosso leitor espera que estejamos à altura dos acontecimentos, como falavam os antigos repórteres de rádio.

Carlos Wagner é repórter, graduado em Comunicação Social — habilitação em Jornalismo, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul — Ufrgs. Trabalhou como repórter investigativo no jornal Zero Hora (RS, Brasil) de 1983 a 2014. Recebeu 38 prêmios de Jornalismo, entre eles, sete Prêmios Esso regionais. Tem 17 livros publicados, como “País Bandido”. Aos 67 anos, foi homenageado no 12º encontro da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (ABRAJI), em 2017, SP.

Um pensamento sobre “O repórter, a nova geração de universitários, os desempregados e o julgamento de Lula (Por Carlos Wagner)

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