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UM (1) FOGUETE! (Por Selvino Heck)

FogueteA monja budista Kokai, que mora na periferia de São Leopoldo, Rio Grande do Sul, não ouviu espoucar nenhum foguete quando Philippe Coutinho marcou o primeiro gol brasileiro na Copa da Rússia contra a Suíça.

Ouvi um (1) foguete sendo estourado na segunda vitória do Brasil na Copa contra a Costa Rica, eu que moro numa reunião densamente povoada de Porto Alegre. Ouvi o estouro de quatro ou cinco foguetes na vitória brasileira e uma corneta solitária ao longe, que logo silenciou, na vitória brasileira contra a Sérvia e classificação às oitavas de final.

A monja Kokai falou de paz, de convivência na Roda de Conversa promovida pelo Fórum Inter-religioso e Ecumênico sobre o Congresso do Povo, a unidade das esquerdas e a conjuntura. E também como psicóloga, expressou seu sentimento com a apatia popular, com o silêncio das pessoas, com a ausência de diálogo e fraternidade no cotidiano, com a perda das simbologias populares que está em curso no Brasil.

Miguel Rossetto, participante da Roda de Conversa e pré-candidato a governador do Rio Grande do Sul pelo Partido dos Trabalhadores, falou de sua preocupação: ”Roubaram até as cores do Brasil. As pessoas não querem o amarelo, preferem o azul, torcem pela seleção, que quero que ganhe, quase envergonhadamente. É o resultado do golpe e de tudo que estão fazendo com a democracia e a soberania brasileiras nestes momentos da história do Brasil. É preciso recuperar o sentido de brasilidade e de Nação.”

Em certa medida, voltou o mesmo debate de 1970, que acompanhei um tanto à distância. Com 19 aninhos, morava em Daltro Filho, então município de Garibaldi, hoje Imigrante, fazendo o noviciado dos franciscanos. A pergunta da esquerda, em tempos de ditadura, quando o comunista Saldanha, técnico da seleção, foi substituído por Zagalo, porque não aceitou atender os pedidos do General Médici, era: torcer ou não torcer pela Seleção brasileira? O tema atravessou quase toda Copa, mas quanto mais o Brasil ia avançando, e ganhando, e chegando perto da final no México (aliás, o adversário brasileiro na segunda, dia 2, Copa da Rússia, quando, espero, López Obrador já tenha sido eleito presidente mexicano), todo mundo começou a torcer pelo Brasil, afinal campeão, mesmo quem estava na cadeia.

Hoje, 2018, o quadro parece mais complexo. É a população em geral que não quer vestir/comprar a camisa amarela, ou não se dispõe a cantar o hino brasileiro ardorosamente, e soltar foguetes na hora do gol ou da vitória. Lula está preso, torce pelo Brasil, faz análises dos jogos da cadeia, e continua disparado à frente em todas as pesquisas, como ainda vimos esta semana. Mesmo assim, ou por tudo isso, não há foguetes, não há empolgação popular.

O que está havendo? Sem dúvida é o desencanto geral, não só entre a esquerda, mas no conjunto da população, o desencanto com a política, a rejeição praticamente unanime, beirando os 100%, do governo golpista e traidor, misturada ao desemprego galopante, à crise econômica, à intolerância, ao ódio, tudo também transferido para a seleção brasileira.  

Nos últimos dias, o assunto maior nos botecos, nas ruas, em qualquer lugar não era a seleção e o seu desemprenho dentro de campo, mas era Neymar e sua arrogância, Neymar e seu individualismo, eram os salários e rendas polpudas de quem joga na Europa, o treinador da seleção e suas propagandas inadequadas, eram os narradores da Globo e seu ufanismo fora de tom, de quem todo mundo fugia. A conversa do povo era tudo isso, menos o futebol e as vitórias da seleção.

Qual o futuro? Onde a esperança?

Em primeiro lugar, aos poucos, acreditar na própria seleção que, quando joga coletivamente e se empenha em campo, ganha, mesmo que não tenha o brilho dos grandes craques do passado.

Em segundo lugar, lutar por Lula Livre e com direito a ser candidato, expressando a esperança do povo, de quem pode levantar de novo o Brasil ante o mundo, e não fazer o papel ridículo e subserviente do presidente golpistas ante um vice-presidente americano que veio dar ordens ao Brasil, em vez de ouvir a exigência de reunir as crianças brasileiras separadas arbitrariamente de seus pais em terras americanas.

Em terceiro lugar, apoiar as muitas iniciativas em curso, como o M3D, Movimento lançado  esta semana no Rio Grande do Sul, por coincidência em dia de jogo do Brasil contra a Sérvia, com o Manifesto em Defesa da Democracia, do Diálogo e da Diversidade: “Somos um grupo de cidadãs e cidadãos, formado por intelectuais, religiosos, artistas, professores, juristas, profissionais liberais, assalariados, autônomos, servidores públicos, pequenos e médios empresários, que vêm a público defender a democracia e a soberania nacional como valores fundamentais.”

Diz mais o Manifesto: “Entendemos que a sociedade brasileira se encontra diante de uma encruzilhada: seguir pelo caminho da crescente intolerância e violência, ou escolher o respeito às diferenças, a solidariedade e o diálogo como forma de superação dos conflitos.

Nos meios de comunicação e nas redes sociais, difunde-se um discurso de ódio, alimentado, em grande parte, com notícias falsas e informações manipuladas por grandes empresas de mídia. O pacto de respeito às leis e de confiança na ação da Justiça, que permite o convívio social civilizado, foi rompido. O que está em curso é o desrespeito à Constituição Federal e o abandono dos valores democráticos. A memória histórica nos mostra quão difícil é interromper o processo de ruptura democrática depois de instalado em uma Nação.”

Ou seja, por aí se explica o que está acontecendo com a nossa seleção e sua falta de torcida. Há o derretimento de um país, de uma Nação, se nada for feito, se cidadãos e cidadãs, acima de partidos, além de suas crenças religiosas, não se unirem, não se derem as mãos para lutar pela democracia, por diálogo e respeito à diversidade E assim vestir a amarelinha com toda vontade, torcer a plenos pulmões pela vitória brasileira na Rússia e em todos os gramados, o do respeito aos direitos humanos, o das garantias das liberdades democráticas, a da sinalização da defesa dos mais fracos, da superação da miséria, da fome e da desigualdade.

Conclama o Manifesto do M3D (Ver em facebook.com/M3D; assinaturas do Manifesto: Change.org; M3D@gmail.com): “Neste momento, conclamamos todas as instituições, organizações, movimentos, sindicatos, tradições religiosas, partidos e pessoas que acreditam no respeito ao outro e na democracia a reunirem-se e manifestarem-se publicamente, exigindo o respeito irrestrito à Constituição, à qual todas as leis e os poderes da República estão subordinados. É HORA DE UNIÃO DE TODOS OS CIDADÃOS E CIDADÃS QUE DEFENDEM A CONVIVÊNCIA DEMOCRÁTICA, O RESPEITO À DIVERSIDADE, OS DIREITOS FUNDAMENTAIS, A JUSTIÇA SOCIAL, O PATRIMÔNIO PÚBLICO E A SOBERANIA NACIONAL.”

O convite está feito. Para torcer pela seleção, inundar campo e cidade com um grande foguetório nas vitórias. E o convite para conversar, dialogar sobre a Democracia, o Diálogo e a Diversidade em todos os lugares com todo mundo: nas escolas, nas empresas, nas Universidades, nas igrejas, nos sindicatos, nas famílias, nos Acampamentos de beira de estrada, nos bairros e vilas, nas comunidades, nas ruas.

Os tempos urgem e rugem.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em vinte e nove de junho de dois mil e dezoito

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