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Como Black Mirror ajuda a entender o fenômeno Bolsonaro

“Contra a imprensa tradicional, o exército bolsonarista nas redes ataca com uma linguagem memética alimentada por sites especializados em disseminar o pânico moral através de notícias majoritariamente falsas. 81% das notícias maliciosas que circulam pelo Twitter, revelou um estudo de Oxford, são propagadas por seus simpatizantes. Segundo levantamento da Agência Lupa, as 10 notícias falsas mais compartilhadas no Facebook de agosto até aqui são pró-Bolsonaro ou contra seus opositores. Ao todo, quase 900 mil compartilhamentos. E isso sem contar o whatsapp, território preferido da militância bolsonarista e que não permite monitoramento.”

The Waldo Moment, terceiro episódio da segunda temporada, conta a história de um ursinho azul que fez tanto sucesso ofendendo os candidatos de uma eleição que acabou ele mesmo disputando uma vaga no parlamento
Waldo, do Black Mirror Foto: Reprodução
Waldo, do Black Mirror Foto: Reprodução

A jovem Gwendolyn Harris é chamada de uma sala de espera para uma entrevista. Depois de um rápido diálogo informal, recebe a primeira pergunta da mesa: “Por que você quer ser um membro do parlamento?”. O homem que a questiona está com a postura excessivamente relaxada, como quase escorregando da cadeira, e a observa por cima dos óculos com uma expressão entediante. Ela, previsível, diz que é porque não está satisfeita com as coisas como estão. “E, em vez de ficar lamentando, prefiro fazer algo a respeito”, conclui. A resposta, é claro, não convence ninguém. E Harris finalmente admite que pretende usar a candidatura apenas como uma ferramenta de promoção pessoal.

Poucas horas depois, Harris recebe a mensagem de texto que confirma sua seleção. Ela concorre, pela oposição de centro-esquerda, a uma vaga no parlamento graças a um escândalo sexual que afastou um político de longa carreira do partido conservador. Enquanto isso, na TV, um urso digital azul faz um sucesso estrondoso ao confrontar políticos com uma agressividade atípica: insulta-os com palavrões, faz gestos obscenos e chega a perseguir nas ruas o candidato conservador Liam Monroe, seu alvo preferido, para provocá-lo enquanto conversa com eleitores.

Essas são as primeiras sequências do episódio The Waldo Moment, o terceiro da segunda temporada de Black Mirror , a série de ficção científica que desde 2015 é exibida com exclusividade pela Netflix no mundo todo. Black Mirror é uma distopia, mas um pouco diferente das obras que se tornaram célebres no gênero, porque, nas palavras do ensaísta argentino Ariel Pennisi na coletânea Pensar a Netflix (editora D’Plácido, 2018), “acelera parcialmente uma possibilidade que já existe (engenharia genética, tecnológica, midiática), ou então torna a atmosfera defasada, até o ponto de nos devolver uma imagem quase idêntica à vida contemporânea e sua desordem, apenas de recobrir a imagem com uma tonalidade pós-apocalíptica, de baixa intensidade, quase naíf ”.

Se em outras distopias como Ensaio Sobre a Cegueira , 1984 ou The Walking Dead , por exemplo, a humanidade está imersa num cotidiano de caos e refém de totalitarismos, em Black Mirror – com raros episódios de exceção – tudo funciona, os cenários são harmoniosos e as pessoas são governadas por sistemas democráticos. É o caso de The Waldo Moment, que, além de tudo, ainda tem o processo eleitoral como fio condutor da trama.

Quando o sucesso de Waldo parece ter atingido o auge, a reunião de pauta que orienta o personagem toma a ousada decisão de lançá-lo também como candidato à vaga aberta pelo escândalo. O único que não gostou da ideia foi Jamie Salter, o comediante por trás do boneco. Para Salter, que sofre com problemas graves de autoestima e passa horas trancado no banheiro antes de incorporar o urso ao vivo, a incursão tem tudo para dar errado, afinal de contas ele não é e nunca foi político, assim como não tem propostas ou conhecimento o suficiente para denunciar problemas e apresentar soluções. Mas esse nunca foi um problema. A ideia, contra-argumenta a equipe do programa, é só encaixar Waldo nos debates e nas cédulas de votação. “O ponto é que estaremos lá. Ficaremos na contagem”, disse uma das produtoras. Salter é voto vencido na redação.

Jair Bolsonaro é uma espécie de Waldo. Embora esteja há quase três décadas na política institucional, em sucessivas reeleições na Câmara dos Deputados, o capitão reformado do exército é apresentado como a principal alternativa antissistêmica dessas eleições. Em linhas bem gerais, Bolsonaro – enquanto candidato à presidência – é resultado de um impeachment que não cumpriu nada do que prometeu aos 68% dos brasileiros que o apoiavam às suas vésperas; da derrocada da tradicional oposição à direita graças às revelações da Lava-Jato e o embarque no governo Temer; e da improvável repopularização do PT, que voltou a exercer hegemonia no campo da centro-esquerda, mais do que dobrou de intenções de votos desde o auge da crise política no segundo mandato de Dilma e recentemente alcançou a simpatia de 29% do eleitorado – o mesmo que todos os outros partidos juntos.

A estratégia majoritária de Bolsonaro é, neste sentido, ser o candidato anti. Não apenas o anti-PT, mas o verdadeiro anti-PT, considerando que, para o eleitor, as alternativas ao PT acabaram se tornando iguais a ele. No final do primeiro turno, Alckmin tentou impulsionar sua candidatura igualando PT e Bolsonaro, seja pelo apoio já manifestado ao chavismo ou por justaposições forçadas que os equiparavam como representações de extremismo. Mas não colou. E não só porque PT e Bolsonaro não são iguais.

Bolsonaro colhe fartamente, há anos, os frutos de uma crise que nunca se restringiu à política, mas às instituições como um todo. Contra a imprensa tradicional, o exército bolsonarista nas redes ataca com uma linguagem memética alimentada por sites especializados em disseminar o pânico moral através de notícias majoritariamente falsas. 81% das notícias maliciosas que circulam pelo Twitter, revelou um estudo de Oxford, são propagadas por seus simpatizantes. Segundo levantamento da Agência Lupa, as 10 notícias falsas mais compartilhadas no Facebook de agosto até aqui são pró-Bolsonaro ou contra seus opositores. Ao todo, quase 900 mil compartilhamentos. E isso sem contar o whatsapp, território preferido da militância bolsonarista e que não permite monitoramento.

E não é só. Numa coluna de julho no El País Brasil , a jornalista Eliane Brum defende a hipótese de que a ideia de pós-verdade é pouco para explicar o modo como militantes bolsonaristas leem o mundo. De acordo com Brum, Bolsonaro consolida uma “autoverdade” em que pouco importa o que se diz, mas quem diz e o ato de dizer nessa relação indissociada entre discurso e performance: “O valor da autoverdade está muito menos no que é dito e muito mais no fato de dizer. ‘Dizer tudo’ é o único fato que importa. Ou, pelo menos, é o fato que mais importa. É esse deslocamento de onde está o valor, do conteúdo do que é dito para o ato de dizer, que também pode nos ajudar a compreender a ressonância de personagens como Jair Bolsonaro”.

Quando Monroe parte para o ataque mais pesado, destacando a mentira que a candidatura de um personagem infantil significa e as contradições do operador que está por trás do boneco, Waldo responde: “Vá se foder! Você parece menos humano do que eu. E eu sou um urso inventado com um pau azul”. A plateia vai ao delírio. O gesto se parece muito com o de Danilo Gentili, um dos apoiadores mais expressivos de Bolsonaro, quando foi processado pela deputada Maria do Rosário. Num vídeo amplamente divulgado pelas redes sociais, o humorista rasga a notificação do processo e o coloca dentro da calça para devolver à parlamentar. “Para a Maria do Rosário ou para qualquer outro deputado de qualquer outro partido, eu pago seu salário. Então, eu decido se você cala ou não a boca. Nunca o contrário”, ele diz. Recentemente o comediante anunciou num show que discorda do parlamentar sobre o conhecido episódio em que Bolsonaro diz a Maria do Rosário que ela não merece ser estuprada. Sob os aplausos entusiasmados da plateia, ele disse que a deputada merecia, sim.

A lista de declarações controversas ou flagrantemente autoritárias de Bolsonaro é extensa demais para ser reproduzida integralmente aqui. Nessas 3 décadas de vida pública já sobrou para quase todo mundo, mas especialmente para mulheres, LGBTs, negros, índios e demais minorias agora protagonistas no debate público, além das próprias instituições democráticas às quais ele está submetido. Bolsonaro cresce porque rompe com frequência as fronteiras do que pode ou não ser dito e desta forma se reivindica como verdadeiro, como quem diz “a verdade” – embora ela seja apenas um lugar de negação irracional da legitimidade do que dizem os outros.

Mas há muito de cinismo nisso. No ainda inédito Política na era da visibilidade total: The Waldo Moment , Moysés Pinto Neto recupera Vladimir Safatle para lembrar que, diferentemente do hipócrita, que fala de um jeito e age de outro, “o cínico vive a contradição performativa”. Quer dizer, ele sabe que age errado, mas sob o álibi de que só pode agir daquele jeito. Como o urso desbocado que não consegue esconder as próprias limitações enquanto candidato, seu papel está concentrado em desmascarar a hipocrisia dos outros que se apresentam como tal. Quando Bolsonaro é questionado pelas declarações, devolve dizendo que só estava brincando. Seus militantes fazem questão de completar o raciocínio reclamando que o politicamente correto está deixando o mundo chato. Desta forma, é quase impossível responder aos insultos ou utilizá-los para desqualificar o capitão-candidato, afinal nunca se sabe de que lado está o que ele e seus simpatizantes mais entusiasmados dizem na fronteira entre o humor e, a ofensa e a ameaça.

Em 2015, o Huffpost fez um quiz com frases de Jair Bolsonaro e Eric Cartman, personagem de South Park. “Só porque ele gosta de dar o rabo dele passa ser um semideus?”; “O cara tem que ser arrebentado pra abrir o bico”; “Sou preconceituoso, com muito orgulho”; “Se eu vir dois homens se beijando na rua, eu vou bater”; e “Minoria tem que se calar, se curvar à maioria” são todas do candidato à presidência da república no Brasil.

É por isso que, apesar de reclamar que vive sendo chamado de machista e homofóbico enquanto os verdadeiros problemas do país são ignorados, Bolsonaro e seus principais apoiadores têm dedicado desde o início da campanha, segundo levantamento do Monitor Digital do Debate Público no Meio Digital, mais de 80% das suas publicações a temas que não têm absolutamente nenhuma relação com a ela, mas com feminismo, PT (ou esquerda em geral) e Globo.

Em todas as oportunidades que teve para defender um programa de governo, Bolsonaro tergiversou. Na primeira sabatina que participou na Central das Eleições, da GloboNews , depois de tanto fugir de perguntas sobre economia, Bolsonaro foi questionado sobre os impostos que pretende cortar, conforme anunciado genericamente antes pelo seu guru Paulo Guedes. “Poxa, Miriam, eu não sou médico”. Também desconversou sobre o subsídio para o diesel. Não tem nenhuma proposta para as escolas além de acabar com o que chama de “ideologia de gênero”. E por aí vai. Sua candidatura é um cheque em branco. Além de suas inclinações autoritárias, sabe-se pouco demais sobre ela.

Num momento crucial para a campanha, Salter está desesperado com a ideia de ser entrevistado por uma figura tradicional do jornalismo britânico. O diálogo com o produtor dono do personagem é revelador:

– e quando Crane (o entrevistador) perguntar coisas e eu não souber responder? Ele (Waldo) não defende nada
– mas pelo menos ele não finge que defende
– nós não precisamos de políticos. Nós temos iphones e computadores, certo? Então, qualquer decisão que tenha que ser tomada, nós tomamos online. Deixamos as pessoas votarem. Positivo, negativo. A maioria vence. Isso é democracia. Isso é democracia de verdade.

Vencido pelos conflitos internos, Jamie Salter renuncia ao personagem Waldo no meio de um evento público. Ele implora para que as pessoas o abandonem enquanto assume que é uma farsa. Ignorado, desce do trailer para revelar sua identidade e reforçar o boicote ao urso. Mas o produtor dono de Waldo assume seus comandos e instiga a multidão a derrubá-lo. Salter é por fim espancado pelas pessoas que estão em volta do veículo.

O grande problema do bolsonarismo é que ele é um movimento muito maior do que o próprio Bolsonaro. É o tipo de monstro que quem alimenta não é mais capaz de controlar, como Salter não conseguiu fazer com Waldo e como Bolsonaro não será capaz de fazer, nem se quiser, com a onda de violência que nos últimos dias atingiu eleitores de esquerda.

Murilo Cleto é historiador, especialista em História Cultural e mestre em Ciências Humanas. Atua como palestrante freelancer do Museu da Imagem e do Som de São Paulo e assessor pedagógico idem da editora Positivo.

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