política

Os últimos dias de novembro de 2018 (Por Selvino Heck)

Zé Dirceu

Zé Dirceu abraça o Jornalista Flavio Tavares no Lançamento de seu Livro de Memórias (Foto Mateus Bruxel )

Estou em casa de mamãe, Santa Emília, Venâncio Aires, interior do interior do Rio Grande do Sul. Dia 27 mamãe Lúcia fez 92 anos de vida bem vivida, nove filhos criados. Fico alguns dias, e por alguns momentos tento dar algum apoio/ajuda a meus irmãos mais novos, que trabalham na roça, preparando os alimentos, verduras e frutas para a Feira do Produtor das quartas e sábados. Empurro-a na cadeira de rodas para o banheiro, dando uma de cuidador/enfermeiro pela primeira vez na vida. E vivo as limitações, angústias e dificuldades que a idade impõe, enquanto ela me conta histórias de vida, da família e de outros idosos da comunidade. E, em alemão, fala do Lula, que acabara de aparecer na televisão: “Guck der Lula. Was ist mit dem passiert jetz nochmo?” (‘Olha o Lula. O que aconteceu agora de novo com ele?’).

Nas horas vagas, começo a navegar em ‘Zé Dirceu, Memórias Vol. I’ (Ed. Geração, 2018), lançado dia 21 em Porto Alegre com sua presença, em concorrido debate e sessão de autógrafos. Com uma generosa dedicatória: ‘Selvino Heck, com um abraço pelo exemplo de luta e combate, e pelo apoio e solidariedade.’

Fui dos últimos na longa fila dos autógrafos. Encontrei, em paciente espera, amigos e companheiros de longa data, também sobreviventes da ditadura, Flávio Koutzii e Suzana Lisboa. Coincidentemente, nestes longos dias de novembro, estou lendo ‘Flávio Koutzii, Biografia de um Militante revolucionário – de 1943 a 1984’ (Benito Bisso Schmidt, Ed. Libretos, 2017), com outra dedicatória generosa: ‘Ao Selvino, com esperança. Amigamente, Flávio, 2017’.

Esperando na fila, Flávio, Suzana e eu por mais de meia hora, conversamos sobre o mundo, a vida e especialmente a conjuntura presente: o que aconteceu e está acontecendo, o que virá, concordando, os três, que este é um tempo muito difícil, de poucas luzes, muitas dúvidas e incertezas. De qualquer maneira, sobrevivemos, velhos combatentes, estamos vivos.

Falo rapidamente com Zé Dirceu, já mais de 22h, e ainda há gente na fila esperando pelo autógrafo. Digo que cheguei atrasado, não pude ouvi-lo. Estava em reunião do Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, avaliando 2018, preparando 2019, como ele, Zé, vem insistindo: ‘é preciso estar na base popular’, mais que nunca.

O Conselho Popular da Lomba do Pinheiro, que em 23 de novembro completou 27 anos de história (fundado em 23 de novembro de 1991), além de renovar sua Coordenação, decidiu: no primeiro semestre, vai realizar um Seminário sobre Políticas Públicas, aproveitando a Campanha da Fraternidade/2019, que tem por tema Fraternidade e Políticas Públicas; lutar pelo ensino médio na região; realizar uma semana de debate voltada ao tema do meio ambiente, já que a Lomba do Pinheiro é uma das regiões de Porto Alegre onde há mananciais de água, áreas e bosques ameaçados de desmatamento; manter a pauta e a luta pelo transporte coletivo; e no segundo semestre fazer um Seminário com e sobre a juventude.

Foi o que Zé Dirceu me lembrou ao pé de ouvido, depois do autógrafo: a importância do trabalho com a juventude, não esquecer os jovens, que deram tantos exemplos de vitalidade, luta e mobilização em 2018, junto com as mulheres, e muito além da campanha eleitoral: nas ruas e nas escolas, defendendo os direitos dos jovens, dos pobres e dos trabalhadores.

Já pensando em 2019 que chega, deverei (deveremos, ouso dizer) seguir a recomendação de Daniel Seidel, da Coordenação Nacional do Movimento Fé e Política, da REPAM (Rede Pan-Amazônica), dada em etapa sobre um projeto de sociedade nestes tempos atuais, em novembro, na Escola de Ética e Cidadania: cada um dos presentes deve ‘adotar’ doze pessoas, ou onze, ou dez, ou treze, especialmente jovens, para manter diálogo/conversa/troca de ideias e experiências durante 2019. Disse Daniel Seidel: “Se cada uma e cada um de vocês aqui presentes e participantes fizer isso, está aí um verdadeiro trabalho de base e de formação a dar fruto, com centenas de pessoas, militantes, companheiras/os, jovens, em curto prazo, 2019, e no futuro.”

Ter convivido e referenciar-se em militantes revolucionários como Flávio Koutzii, Zé Dirceu, Suzana Lisboa, estar com os dois pés num trabalho de base, conscientização e organização popular como o da Lomba do Pinheiro, em Escolas como a de Ética e Cidadania, ‘adotando’ uma dúzia de jovens e militantes, e nos 92 anos de uma agricultora familiar dedicada à família e à comunidade, servem de alento, luz, esperança.

Os tempos urgem, os tempos rugem.

E recebo, nestes últimos dias de novembro de 2018, da amiga, companheira e militante Fátima Fischer a Carta de Caruaru, fruto do V Encontro Nacional da Rede Nacional Internúcleos da Luta Antimanicomial (RENILA), realizado no Centro de Formação Paulo Freire, Assentamento Normandia, em Caruaru, PE, dias 23 e 24 de novembro, e que diz no último parágrafo: “Por fim, reafirmamos que seguiremos rompendo grades, semeando delicadeza, cuidando, florescendo, resistindo na loucura e na luta, gritando nossa rebeldia: A DEMOCRACIA É ANTIMANICOMIAL!”

A Carta de Caruaru começa com os versos de uma música de Jonathan Silva: “Se o mundo andar pra trás,/ vou escrever num cartaz/ a palavra REBELDIA./ Se a gente desanimar,/ eu vou colher no pomar/ a palavra TEIMOSIA./ Se acontecer afinal/ de entrar em nosso quintal/ a palavra TIRANIA,/ pegue o tambor e o ganzá,/ vamos pra rua gritar/ a palavra UTOPIA.”

(*) Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

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