A política brasiliense vive dias de máscaras caídas. A rejeição do nome de Jorge Messias para o STF, sob a articulação direta de Davi Alcolumbre, não foi uma derrota isolada do Governo Lula. Foi, em essência, uma vitória do instinto de sobrevivência de um Congresso que parece ter declarado guerra à legalidade.
Para entender o que moveu a maioria dos senadores, é preciso olhar além da superfície e conectar os pontos de uma agenda clara: a autoblindagem institucional.
Jorge Messias foi barrado por uma característica que, em tempos normais, seria seu maior trunfo: o perfil técnico e estritamente legalista. Em um ambiente onde pairam sombras sobre o Escândalo do Banco Master e outras operações afins, um ministro que não aceita “acordos de cavalheiros” é visto como uma ameaça existencial.
A resistência à sua indicação é o reflexo direto de um Legislativo que tenta, a todo custo, impedir a abertura da CPI do Banco Master, temendo o que as investigações possam revelar sobre as conexões entre o sistema financeiro e o poder político.
O alinhamento do Senado contra a justiça tornou-se ainda mais evidente com a derrubada do veto presidencial à PEC da Dosimetria. Ao reduzir as penas de envolvidos em atos antidemocráticos e crimes correlatos, o Congresso envia um sinal perigoso: o crime político compensa, desde que haja influência parlamentar.
Esta manobra, somada ao veto a Messias, desenha um cenário de “limpeza de terreno” para garantir que nenhum braço firme da lei alcance os corredores do poder.
O clima de tensão é alimentado pelo fim da era das Emendas PIX e da opacidade nas emendas parlamentares. Com o Judiciário exigindo transparência, a reação do Senado foi fechar as portas para qualquer nome que pudesse reforçar o entendimento de que o dinheiro público deve ser rastreável.
O que vimos não foi um exercício de contrapeso entre poderes, mas a consolidação do “Congresso Inimigo do Povo”. A alcunha, nascida durante a votação da chamada PEC da Blindagem (ou PEC da Bandidagem), nunca foi tão atual.
A rejeição de Messias não foi sobre ideologia, mas sobre garantismo seletivo. Os parlamentares não votaram contra um candidato do governo; votaram a favor da própria impunidade.
“Ao derrubar vetos que punem criminosos e barrar juízes que seguem a lei, o Senado sob Alcolumbre admite, sem pudor, que sua prioridade é proteger o esquema, não o cidadão.”
O escândalo não está na derrota política, mas na descarada admissão de que o critério para ocupar a mais alta corte do país não é mais o notável saber jurídico, mas sim a disposição de fechar os olhos para a bandalheira institucionalizada.
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