Luta de classes/política

E o “Caos” Pariu Bolsonaro: Trunfos da “Guerra Híbrida” no Brasil (Por Ilton Freitas)

Junho

Junho de 2013. São Paulo.


Portanto, a eleição de Bolsonaro e de sua delinquente narrativa de fomento ao ódio contra a esquerda, os movimentos sociais e as minorias, não deve ser compreendida isoladamente. A eleição de Bolsonaro é um continuum das jornadas de junho de 2013, das manifestações contra a Copa em 2014, das ações midiáticas da operação “Lava à Jato” a partir de 2015, das manifestações “quintas-colunas” coloridas de verde e amarelo, do golpe parlamentar e do impeachment de Dilma em 2016 e da prisão criminosa do ex-presidente Lula nesse ano. Todos estes eventos foram desatados para destruir o Estado Nacional brasileiro se valendo da instrumentalização e gerenciamento do “caos”, ou, da “Guerra Híbrida”. Como se diz: “há um método na loucura”! Talvez não tenhamos sido suficientemente consequentes com a análise do que ocorreu no Brasil a partir da queda do governo Dilma. O fato é que Haddad não poderia ter vencido Bolsonaro, pois não se tratava mais de uma eleição democrática! 


 
Bolsonaro presta continência a um assessor do governo Trump. Atitude de vassalo e de entreguistas das riquezas do País!
 
 

Todos que analisamos com rigor as pesquisas de intenção de voto tínhamos alertado que Bolsonaro havia ocupado importante espaço eleitoral à direita no espectro político. Posto que a um mês das eleições presidenciais a intenção de voto no candidato do até então inexpressivo PSL (Partido Social Liberal), não baixava de 21 a 24%, em conformidade com a média revelada por mais de um instituto de pesquisa. Outrossim, as “circunstâncias” que levaram um deputado desqualificado como Bolsonaro a se tornar eleitoralmente competitivo – e posteriormente eleito – retiraram de Alckmin, do PSDB, ou, de Marina, qualquer possibilidade de liderar o campo conservador nas eleições de 2018. Desse modo o beneficiário do “caos” gerado pelo golpe parlamentar de 2016, não foram os tucanos, ou, a “terceira via” imaginada por Marina. O caos devidamente gerenciado e impulsionado por setores da mídia e do judiciário através da operação “lava à jato”, resultou numa degradação político-eleitoral, “magnificamente expressa” na figura de Bolsonaro.

Contudo, a grande maioria dos analistas (dentre os quais me incluo) predisseram que a rejeição (justificada) a Bolsonaro (em torno de 38/41%, fora a margem de erro) o levaria a uma provável derrota no segundo turno. Além da alta rejeição, Bolsonaro poderia ser prejudicado pela tendência “racional” do voto majoritário, sobretudo no segundo turno. Isto é, boa parte da literatura sobre comportamento eleitoral assume que a definição do voto majoritário tende a produção de uma decisão de conteúdo mais “estratégica” por parte dos eleitores. Sendo assim uma boa parte, ou, a maioria dos eleitores tomariam uma decisão “atenta”, retrospectiva e prospectiva acerca do seu voto. Se interessariam em analisar o passado do candidato, e avaliar as propostas de governo (o futuro). Sendo assim uma breve consulta sobre o desempenho pífio de Bolsonaro na Câmara, ou, suas inomináveis manifestações preconceituosas contra as mulheres e minorias poderiam aquilatar o candidato retrospectivamente. Em termos de futuro, ou, considerando uma avaliação prospectiva do eleitor foi divulgado às vésperas das eleições uma interessante pesquisa do BTG Pactual. A pesquisa revelava que 83% dos brasileiros eram favoráveis a manutenção dos programas sociais, 61% se diziam contrários à liberação do porte de arma, 51% não queriam o Ensino Fundamental à distância e 79% rechaçavam o aumento da idade mínima para a aposentadoria para 65 anos. Desse modo num contexto de decisão racional e estratégica do voto, a pesquisa do BTG demonstrava que a maioria dos eleitores se opunha a agenda neoliberal de Bolsonaro, e, menos por predileção, mais por futuro, ou, se quisermos por afinidade “programática”, poderiam decidir votar em Haddad, que defendia a manutenção dos programas sociais, que era contrário a liberação do porte de armas, que era contra o ensino fundamental à distância, contra o aumento da idade mínima para 65 anos, etc.

Entretanto a rejeição a Bolsonaro e o “voto estratégico” não incidiram no segundo turno. Assim o “candidato do caos” foi legitimado eleitoralmente. É verdade que os votos brancos e nulos dobraram, mas não ao ponto de explicarem a vitória de Bolsonaro. Vejamos, pois, que nas eleições de 2014, brancos e nulos somaram 4,63% do total de votos. Em 2018, somaram 9,57% do total. Ademais as abstenções de 21,3% praticamente se mantiveram no mesmo patamar das eleições de 2014 (21,1%). Sendo assim o que precisa ser compreendido é como se produziu a diferença de quase 10 milhões de votos de Bolsonaro para Haddad.

Um observador distante das eleições brasileiras poderia atribuir o resultado de Bolsonaro ao seu desempenho nos debates contra Haddad no segundo turno. Mas não houve debates! Talvez a linha política da campanha de Bolsonaro expressa nos horários da propaganda eleitoral veiculadas na televisão e rádio. Isso também é duvidoso, posto que às vésperas das eleições os principais institutos apontavam para uma situação de empate técnico entre as candidaturas. A pesquisa divulgada pela Vox Populi, que encerrou o campo pala manhã e tabulou os resultados na tarde de sábado do dia 27/10, véspera da eleição, corroborou a situação de empate técnico, e a expectativa era por uma vitória “apertada” de um, ou, de outro. Mas por que isto não ocorreu? Por que Bolsonaro obteve uma vitória contundente? A resposta é simples. As eleições foram duplamente fraudadas, pois os interesses geopolíticos e as forças políticas que conduziram o golpe parlamentar de 2016, não poderiam ser contrariados!

Em primeiro lugar, pela – já esperada – interdição ilegal do líder nas pesquisas de intenção, o ex-presidente Lula, em concorrer, em flagrante contradição com as normas jurídicas internacionais das quais o Brasil é signatário, e que assegurariam a Lula o direito de concorrer, posto que seu processo não foi julgado pelas cortes superiores. Mas o elemento qualitativo da fraude foram os ciberataques à candidatura de Haddad, configurando mais uma operação de guerra, e menos um processo eleitoral “normal”. Nos detenhamos nesse ponto.

O sociólogo Marcos Coimbra, diretor do instituto Vox Populli, cogitou de forma taxativa a hipótese de fraude eleitoral. Segundo Coimbra, a campanha de Bolsonaro se valeu de recursos milionários e supostamente oriundos de “caixa 2” de empresas. Com os recursos do “caixa 2” foram contratados serviços de “empresas” especializadas na mineração de dados nas redes sociais e no disparo e impulsionamento de milhões de falsas notícias. Sobretudo, através da empresa que mantém a plataforma de serviços de troca de mensagens conhecida como “WhatsApp”. Sendo assim, foram formatados grupos de apoio a Bolsonaro no WhatsApp a partir da reunião de milhões de perfis rastreados principalmente no Facebook. A rigor o mecanismo descrito guarda semelhança com a tática eleitoral de Donald Trump. No caso das eleições norte-americanas de 2016, o recurso empregado consistiu na segmentação de perfis e no disparo massivo de posts através do Facebook. No Brasil a plataforma utilizada foi o WhatsApp. Portanto, no caso brasileiro, a fraude consistiu na utilização do “caixa 2”, e no abuso de notícias falsas como o notório caso do “Kit Gay” e de absurdas acusações contra Haddad de estupro de uma menina de 12 anos. Registre-se que o mecanismo de disparo massivo das “Fake News” não cessou na antevéspera, véspera e no dia das eleições. Um “bombardeio” virtual que não deu trégua a Haddad e fez sua rejeição aumentar e ultrapassar a de Bolsonaro.

Sabemos que sofisticados recursos tecnológicos como softwares e algoritmos que mineram e segmentam dados disponíveis de usuários na Internet, são notavelmente desenvolvidos nos meios militares e pelas agências de inteligência norte-americanas antes de “amadurecerem” e se transformarem em “produtos” para o “mercado”. Para além da utilização das tecnologias digitais nas “guerras psicológicas” travadas pelo império para fins de desestabilização dos governos considerados hostis, tais recursos vêm sendo empregados em monumental escala para fins político-eleitorais através de “empresas” mais do que suspeitas. Nesse último caso há fartas evidências do emprego desses mecanismos de manipulação como foi o caso do plebiscito na Inglaterra que aprovou a saída daquele País da União Europeia, e na eleição de Trump nos EUA. Ambos eventos ocorreram em 2016. As eleições brasileiras acrescentam mais um novo capítulo à guerra por corações e mentes, pois é disso que se trata, de uma guerra!

No contexto das disputas geopolíticas do século XXI, o decadente império anglo-americano desatou a estratégia da Guerra Híbrida para combater as fortes tendências ao multilateralismo expressas pela China, Rússia, Iran e Brasil, principalmente durante os governos Lula. Por conta da paridade militar com a Rússia e indiretamente com a China, a opção preferencial dos estrategistas do Pentágono é pela intervenção indireta. A Guerra Híbrida é a guerra indireta e se vale de operações psicológicas em larga escala contra governos e lideranças hostis aos interesses norte-americanos, do financiamento de manifestações “quintas-colunas” que desestabilizem governos não-alinhados, no armamento de bandos armados como o famigerado Estado Islâmico no Oriente Médio e de todo o recurso disponível que gere o caos e suas oportunidades imprevistas. A Guerra Híbrida não deixa de ser a instrumentalização do caos e de seu gerenciamento.

Portanto, a eleição de Bolsonaro e de sua delinquente narrativa de fomento ao ódio contra a esquerda, os movimentos sociais e as minorias, não deve ser compreendida isoladamente. A eleição de Bolsonaro é um continuum das jornadas de junho de 2013, das manifestações contra a Copa em 2014, das ações midiáticas da operação “Lava à Jato” a partir de 2015, das manifestações “quintas-colunas” coloridas de verde e amarelo, do golpe parlamentar e do impeachment de Dilma em 2016 e da prisão criminosa do ex-presidente Lula nesse ano. Todos estes eventos foram desatados para destruir o Estado Nacional brasileiro se valendo da instrumentalização e gerenciamento do “caos”, ou, da “Guerra Híbrida”. Como se diz: “há um método na loucura”! Talvez não tenhamos sido suficientemente consequentes com a análise do que ocorreu no Brasil a partir da queda do governo Dilma. O fato é que Haddad não poderia ter vencido Bolsonaro, pois não se tratava mais de uma eleição democrática!

Ilton Freitas é Doutor em Ciência Política pela UFRGS, pesquisador associado do Centro de Estudos Internacionais de Governos (CEGOV/UFRGS). Autor do livro “Transparência e Controle na Era Digital – A agenda da democracia brasileira”, editado pela Armazém Digital, Porto Alegre, 2012.

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