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A alegoria da caserna (por Walter Morales Aragão)

A alegoria da caserna (por Walter Morales Aragão)

Walter Morales Aragão (*)

Um fenômeno privilegiado para a filosofia da ciência é aquele que permite a corroboração de teorias, com um grau de evidência raro e em condições de verificação favoráveis e incomuns. A proposta aqui é de que o bolsonarismo – movimento sócio-político-cultural do Brasil de hoje- seria um destes casos. O que abriria uma gama específica de possibilidades de pesquisa em áreas de teorias políticas, econômicas, psicológicas, sociológicas, históricas, geopolíticas e filosóficas, potencialmente relacionadas.

Uma aproximação ao campo das teorias filosóficas permite apontar um potencial explicativo útil no estudo desse fenômeno através de uma conhecida elaboração da Antiguidade Ocidental Clássica– a teoria cosmológico-ético-política de Platão, apresentada na obra A República, do séc. V a.C. Mais precisamente, na chamada Alegoria da Caverna, do Livro VII.

Platão foi crítico das mitologias e da opinião leiga. Tratou-as como ilusões naquela estória: pessoas presas numa caverna, imóveis e sempre voltadas para a parede ao fundo, com um desfile constante de objetos iluminados por uma fogueira atrás deles, crêem que as sombras projetadas são a realidade. Até que um deles liberta-se e descobre a realidade exterior, iluminada pelo Sol – que figura como o revelador das ideias verdadeiras para o conhecimento e do bem supremo para a ética. Teoria pela qual, portanto, os objetos percebidos pelos sentidos seriam simulacros de ideias perfeitas e eternas. Simulacros imperfeitos, com existência derivada, sem a realidade verdadeira – a ideal.

A hipótese é a de que o Brasil vê-se envolvido hoje com um simulacro sóciopolítico, o bolsonarismo, destacadamente em três aspectos: 1) um simulacro de militarismo moderno; 2) um simulacro de ordem social; e 3) um simulacro de serviço público democrático. O bolsonarismo pode, assim, ser uma “Alegoria da Caserna”.

Note-se, em primeiro lugar, que o militarismo está muito presente na cultura de massas atual. E sabe-se que perto de noventa por cento da mídia eletrônica consumida no Brasil é oriunda dos EUA. Pois estudiosos como Paulo Ghiraldelli Jr. sublinham o prestígio do militarismo na sociedade estadunidense – aspecto pouco trabalhado pela maioria dos analistas. Desse modo, um realinhamento político, geopolítico e cultural do Brasil com os EUA tende, por consequência, a reforçar também o militarismo como um elemento da cultura de massas. Aspecto em que o clã Bolsonaro é representante persistente.

Uma outra faceta deste aspecto do militarismo cultural difuso é o de constituir uma opção de estilo de vida, inclusive como ocupação econômica. Veja-se o crescimento recente do nicho de mercado das empresas de mercenários. Desde o ataque às Torres Gêmeas, pelo menos, a expansão dos contratistas de segurança junto às forças armadas dos EUA foi contínua e expressiva. Nas duas invasões do Iraque, na ocupação do Afeganistão e nas operações na América do Sul (na Colômbia e na Venezuela) a presença de mercenários foi notória. Veja-se o caso do ataque à Venezuela neste final de abril.

Companhias de mercenários são conhecidas desde a Renascença. Maquiavel teorizou sobre o emprego das mesmas. Países europeus que tiveram problemas de super-população em algum período forneceram contingentes de mercenários, caso da Suiça e da Alemanha. Por isso, até hoje, a Guarda do Papa é uma Guarda Suiça. O Império Brasileiro contratou mercenários ingleses e alemães por diversas vezes, para conter rebeliões nas províncias – como a dos Farrapos no Rio Grande do Sul, por exemplo. Hoje, países como El Salvador e outros da América Central e do Leste europeu são conhecidos fornecedores de mercenários.

A economia pós-industrial contemporânea, com sua dispensa massiva de trabalhadores, ainda mais nas regiões capitalistas periféricas, fundamenta parcialmente este fenômeno. Todo um nicho de mercado, com venda de armas e acessórios militares para civis, filmes de Hollywood, etc., alimenta este estilo de vida. Assim, o militarismo dos Bolsonaro é mais uma franquia comercial identitária do que propriamente uma política de um setor estatal. O que explica também parte dos seus atritos com os militares de carreira. O militarismo mercenário tem essa realidade de simulacro, arcaico e pós-moderno, ante as estruturas militares típicas dos Estados modernos.

O bolsonarismo produz também, em segundo lugar, um simulacro de ordem na sociedade caótica atual. A população brasileira sofre no momento uma insegurança psicossocial profunda, aturdida com o desemprego estrutural ocultado pela mídia, empobrecida pela desindustrialização do Brasil – a maior do mundo na atualidade, segundo alguns economistas – , e sem ter acesso às propostas alternativas da esquerda, dada a censura institucional generalizada que os progressistas sofrem. Aqui, o bolsonarismo oferece outra solução falsa para problemas reais, com sua prática de autoritarismo violento e agressivo. Acrescenta conflitos artificiais – enfrentamento ao “comunismo cultural”, à “ditadura do politicamente correto” como forma de relativizar os problemas de fundo que prejudicam a maioria da sociedade: a concentração de riqueza, a ausência de oferta de serviços básicos, entre outros.

Terrível contra as organizações democráticas historicamente jovens e frágeis do Brasil, o bolsonarismo reforça, de forma mais efetiva do que nunca, a submissão do país às oligarquias antigas e recentes, usufruindo ao mesmo tempo dos bônus de crítico de um período realmente ruim e do apoio das estruturas tradicionais – como alternativa popular-reacionária ao esquerdismo.

Além disso, em terceiro lugar, o bolsonarismo é representação corporativa simulada e dissimulada dos militares das Forças Armadas, quando representa mais efetivamente as polícias militares estaduais – que tem peso eleitoral e capilaridade territorial maiores do que as federais. Contraditório, vai a reboque do ultraliberalismo de desmantelamento dos serviços estatais, ao tempo que consolida benefícios aos militares – que no Estado moderno são um segmento do funcionalismo. Explicita assim, num jogo de claro-escuro, uma das falhas da Constituição de 1988: ter mantido o capítulo das polícias militares advindo da constituição de 1967, a da ditadura civil-militar. Então, como agora, as polícias estaduais são definidas não como ostensivas – preparadas tecnicamente para a inibição da prática de crimes – mas como militares e, mais ainda, auxiliares das forças armadas. Logo, doutrinadas para ver o povo como inimigo interno – e não como cidadania a ter seus direitos assegurados e reparados.

Logo, o Brasil, que tem poucos funcionários públicos em proporção à sua população, e vê nas carreiras do serviço público uma das pouquíssimas formas de ascensão social, salvaguarda contraditoriamente um dos setores de trabalho estatal – o militar – através da eleição de um ex-anarco-sindicalista castrense, expulso da carreira por planejar atentados em reivindicação salarial corporativa. Mas, deste modo, a sociedade não consegue uma discussão democrática do papel necessário do serviço público para o país.

Dito isto, recorde-se que diversas abordagens teóricas contemporâneas também estudam a categoria do simulacro. Sugestões para estudos explicativos desta dimensão simulada da cultura política atual (o golpe- “impeachment” de 2016, a justiça- perseguição política no lavajatismo, etc.) podem ser encontradas, por exemplo, no Dezoito Brumário de Luís Bonaparte, de Karl Marx, e na definição do simulacro como mecanismo teórico em Diferença e repetição, de Gilles Deleuze. Assim também, no trabalho de Florestan Fernandes sobre o caráter inconclusivo peculiar à revolução burguesa brasileira e nas abordagens recentes de Paulo Arantes e Marildo Menegat sobre as doutrinas de controle social – disfarçadas de políticas públicas – nascidas das crises posteriores aos Anos Dourados do pós-guerra.

Assim, se alegorias serviram para civilizar a dominação social na Antiguidade, novas versões podem estar sendo úteis à dominação atual, de forma civilizada ou não. E a hipotética alegoria da caserna com que estamos às voltas talvez indique, em paralelo, o que há de platônico nas bolhas das redes sociais em que permanecemos extasiados.

(*) Professor de Filosofia.

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