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Discurso de Bolsonaro na ONU é celebração à mentira, que faria corar até o Chicó

Bolsonaro abriu a 75ª Assembleia da ONU com informações que fariam corar a Chicó, um dos personagens mais mentirosos do País, criado por Ariano Suassuna. Porém, que ainda convence uma parcela do povo brasileiro.

Dando continuidade à tradição inaugurada por Oswaldo Aranha em 1947, o presidente do Brasil abre a Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

Discurso de Bolsonaro à ONU é celebração à mentira.

O combate à Covid-19

Em primeiro lugar – e para o completo descrédito de quem o assistia – falou sobre sua responsabilidade no combate à Covid-19 e seus efeitos no País. Afirmou ao mundo ter feito exatamente o que não fez: ter dado importância à pandemia e aos efeitos econômicos que dela adviriam.

É impossível não lembrar que as primeiras manifestações do presidente do Brasil sobre o tema envolveram risadas, descrédito à gravidade da doença e pouco caso com suas vítimas. “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?” foi a resposta televisionada a um repórter quando perguntado sobre as primeiras 5 mil mortes de brasileiros pelo coronavírus.

No âmbito econômico, o negacionismo com que tratou a parte sanitária da pandemia se repetiu. O orgulho que demonstrou ao falar do auxílio emergencial contrasta com as manobras que tentou no Congresso Nacional para que ele não fosse aprovado no primeiro momento. Quando viu que seria impossível não aprová-lo, tratou de tentar garantir a paternidade do “filho bonito”, que na verdade foi concebido pela luta social, gestado pela oposição ao seu governo e chegou ao mundo por meio de um esforço de conciliação sobre-humano.

Vale ressaltar que houve uma ambiguidade interessante na hora em que Bolsonaro falou sobre o valor do auxílio emergencial. O presidente afirmou que o benfício chegou a quase mil dólares, que hoje equivaleria a R$ 5.416,20 por pessoa. Contudo, não explicitou se esse seria o valor total ou de cada parcela. Conveniente.

A proteção aos indígenas

A situação dos povos indígenas brasileiros não é ainda mais trágica pelos seus esforços e colaboração da sociedade. Parte do grupo de maior risco ao coronavírus – a perda de vidas indígenas foi tamanha que entidades falam em etnocídio. De acordo com a Agência Senado, até o dia 7 de agosto foram 23 mil indígenas contaminados em um universo de 818 mil indivíduos. No mesmo sentido, foram 646 mortes, principalmente de indígenas já idosos, que detinham saberes de sociedades sem escrita.

O Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos – comandado por Damares Alves – inclusive não apoiou a destinação de verbas para o grupo mais vulnerável à pandemia. Para tanto, alegou que não houve consulta pública aos cidadãos. Consulta que realmente não foi realizada, já que os indígenas não foram ouvidos pelo Congresso Nacional sobre se queriam morrer de covid-19 ou não. Assim, a ministra Damares recomendou ao governo que rejeitasse oferecer leitos de UTI e produtos de limpeza a indígenas por meio de nota técnica.

A falta de insumos a hospitais

Bolsonaro afirmou aos 193 países-membros da ONU que não houve falta de insumos aos hospitais no combate à pandemia. Entretanto, a afirmação mostra no mínimo o desconhecimento da realidade vivida pelo país durante a emergência sanitária.

Hospitais de todos os estados da federação e do Distrito Federal, já no início da pandemia, não possuiam respiradores suficientes para atender à demanda. Estados e municípios saíram à caça de contratos e fornecedores sozinhos, sem o respaldo do Ministério da Saúde e a expertise de seus servidores.

Nesse momento absolutamente desesperador foram vítimas de golpes, de desvio de dinheiro público e de pressão por outros países na disputa pelos aparelhos. O caso do estado do Maranhão foi um ícone desse momento: o Ministério da Saúde mandou bloquear a compra de respiradores feita pelo governador de oposição Flávio Dino. Dino, o Maranhão e sua população ganharam no Supremo Tribunal Federal o direito de manter os 68 aparelhos comprados.

Para além da questão dos respiradores, o país já sofria falta de medicamentos, leitos de UTI entre outros insumos no SUS. Com a chegada da pandemia, o troca-troca de ministros da Saúde que culminou com uma pasta vazia durante os piores momentos da crise, e a falta de tudo, o Brasil tem hoje 137.350 mortos por covid-19.

A disposição para a ciência

Em seu discurso, Bolsonaro afirmou que o Brasil está aberto às novidades científicas e que destinou 400 milhões de dólares em investimentos para a criação da vacina.

Entretanto, não é de hoje que Bolsonaro desfinancia a ciência nacional contingenciando suas verbas para o pagamento da dívida externa. Em março de 2020, cerca de 80% da verba destinada à pesquisa no Brasil não chegou às mãos dos pesquisadores, nem aos projetos de ciência e tecnologia.

No ano de 2019 houve um corte recorde de bolsas de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado, paralisando uma série de pesquisas sobre temas pelos quais o presidente do Brasil demonstrou interesse em seu discurso. Nesse cenário, revolução 4.0, inteligência artificial, 5G e a nanotecnologia, citados no discurso, ganham ares de ficcção científica e não de possibilidade real para cientistas que vivem abaixo da linha do Equador.

O Meio Ambiente

Pauta em todo o mundo, e vítima de um desgoverno no Brasil, o Meio Ambiente não ficou de fora do discurso presidencial na ONU. Pudera, além do aquecimento global, ele é fator primordial nas relações internacionais. Sobretudo no comércio internacional.

Defendendo a política levada a cabo por Ricardo Salles, o Exterminador do Futuro, segundo entidades ambientalistas, Bolsonaro falou muitas inverdades. A mais cruel delas foi botar na conta das populações tradicionais, como indígenas e caboclos, as queimadas que devastam o Pantanal, o Cerrado e a Amazônia. Biomas que sofrem com a tentativa, infelizmente bem-sucedida, de expansão das fronteiras agropecuárias, levadas a cabo por fazendeiros e grandes latifundiários, e que geram riqueza apenas para os investidores.

Em um momento que causa mal estar a qualquer um que acompanhe mínimamente os noticiários, Bolsonaro afirmou que segue sua política de tolerância “0” contra o crime ambiental. Tal fato só encontra contrariedade no mundo real, já que em seu governo órgãos de combate ao desmatamento estão sendo desmontados. Assim como garimpeiros e madeireiros, entre outros criminosos que devastam o país, encontram guarita e interlocução em gabinetes ligados ao poder Executivo. E cuja frota da Força Aérea Brasileira (FAB) chega a levar para tais encontros e reuniões.

Além disso, Bolsonaro acusou frontalmente a Venezuela pelo derramamento de óleo no litoral brasileiro de 2019. Não há provas sobre o país ser o culpado do desastre sobre o qual o governo fez um trabalho bastante atrasado e questionável em eficácia.

Marcio Astrini, secretário-executivo do Observatório do Clima, afirmou que “ao arrasar a imagem internacional do Brasil como está arrasando nossos biomas, Bolsonaro prova que seu patriotismo sempre foi de fachada”.

O agronegócio

De acordo com Bolsonaro, o agronegócio brasileiro “desponta como o maior produtor mundial de alimentos”. Contudo, dentro do Brasil, a carestia no preço dos alimentos está colocando em risco a segurança alimentar da sua própria população.

A “campanha difamatória” contra o agronegócio do Brasil soma-se a outros inimigos invisíveis na fala persecutória de Bolsonaro ao mundo. Que envolveu além dos fantasmas, críticas ao protecionismo dos governos anteriores.

Contudo, Bolsonaro não citou que o agronegócio com base no latifúndio e na produção para a exportação tem causado impactos ambientais e sociais que desprotegem o povo e o país.

Os Direitos Humanos

Na mira da mesma organização em que fez seu discurso, a ONU, pelas violações aos Direitos Humanos, Bolsonaro não se furtou ao tema. Ao contrário, utilizando mais uma vez a Venezuela como espantalho político, buscou mostrar que o Brasil acolhe uma população pauperizada.

Citando o regime venezuelano como uma “Ditadura Bolivariana”, deixando de respeitar a autodeterminação dos povos, Bolsonaro “cutucou com vara curta” um país que tem uma extensa fronteira com o Brasil, criando uma atmosfera bélica que não beneficia em nada a política internacional brasileira.

O ataque ao vizinho sul-americano esconde políticas falhas – e às vezes inexistentes – de Direitos Humanos no Brasil. Ataques contra defensores de direitos de populações tradicionais que culminam com a morte de lideranças estão na mira. O assassinato de Marielle Franco é um exemplo. Outro bastante icônico é o abandono às populações de Mariana e Brumadinho depois do crime ambiental perpetrado pela Vale.

A economia

A questão econômica não podia ficar de fora desse discurso na ONU, que sequer deveria ter existido. Entre aspirações, a entrada do Brasil na OCDE e sobre o acordo Mercosul – União Europeia, Bolsonaro disse apoiar a reforma da Organização Mundial do Comércio. Uma pauta de Trump e dos Estados Unidos que inclusive pode atrapalhar o Brasil.

No mesmo sentido, penalizar o povo brasileiro em favor de interesses alheios ao país, Bolsonaro se gabou da Reforma da Previdência, e dos marcos regulatórios de Saneamento e Gás. Tratando as reformas como “estímulo à economia e geração de emprego e renda”. Entretanto, depois de reformas fiscalistas que arrocham os ganhos da população – como a da Previdência e a Trabalhista – o que pode ser concretamente observado é que menos de 1/4 da população em idade de trabalhar está ocupada hoje.

Mensagem do Brasil ao mundo na ONU

Por fim, o presidente do Brasil afirma que o mundo confia em seu governo. E mais uma vez escolhe estar do lado de um presidente cuja reeleição não está dada – Donald Trump.

Ao invés de uma mensagem que aponta para a gravidade do momento e busca por caminhos para superá-la, Bolsonaro optou por falar na abertura da 75ª Assmbleia Geral da ONU sobre fantasmas, falácias e desesperança.

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