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Entre a utopia e a distopia, ‘O Dilema das Redes’ deixa de lado o principal dilema do Capitalismo

O Dilema das Redes mostra como é possível desestabilizar um governo democraticamente eleito em questão de meses ou intervir nas próprias eleições, chegando “as eleições no Brasil fora do comum” que levou à vitória de Bolsonaro – seguindo o mesmo modelo de Trump, nos EUA.”

“Se o produto é gratuito, então você é o produto!”

Por Wilson Roberto Vieira Ferreira No CINEGNOSE


“O Dilema das Redes” (The Social Dilemma, 2020) chega à Netflix na trilha de uma série de produções sobre a manipulação mercadológica e política dos dados de usuários das mídias sociais, desde a controvertida vitória eleitoral de Trump em 2016. Mas traz uma novidade: entrevista os primeiros executivos de Bigtechs como Twitter, Facebook e Instagram. Envergonhados, tentam explicar como projetos tão altruístas deram tão errado, como o botão do “Curtir” que pretendia “espalhar positividade pelo mundo”. O documentário tenta apresentar o “dilema” que dá título à produção: as redes e aplicativos simultaneamente entre utopias e distopias. Porém, não consegue enxergar o principal dilema que tem a ver com própria natureza do Capitalismo: bens de interesse público (comunicação, conhecimento, informação) apropriados como produtos de interesse privado – o lucro.

O documentário O Dilema das Redes (The Social Dilemma, 2020) abre com uma sinistra citação de Sófocles: “Nada tão grandioso entra na vida dos mortais sem uma maldição”. Esta frase certamente inspirou o urbanista e filósofo francês Paul Virilio – para ele, toda nova tecnologia produz o seu acidente; “o progresso e a catástrofe são anverso e reverso da mesma moeda”, afirma no documentário de Stéphane Paoli, Paul Virilio: Pensar a Velocidade (2009) – clique aqui.

E esse “acidente” ou “maldição” proveniente de algo tão vasto que entrou em nossas vidas somente poderia ter sido provocado pela digitalização multimídia das conexões humanas através da WWW – a World Wide Web.

Nas suas origens, a digitalização surgiu como mera ferramenta para aumentar a produtividade. Editores de texto, programas de computação gráfica, diagramação e edição de imagens vetoriais revolucionaram a produção de conteúdos midiáticos, impressos ou audiovisuais.

Mas essa revolução foi muito além: de aplicativos evoluiu para plataformas que forçaram a convergência não apenas das mídias, mas das próprias conexões e interações humanas em ambiente digitais – a ferramenta virou “cibercultura”, algo mais insidioso, envolvente e invasivo.

“Nunca antes na História 50 designers tomaram decisões que tivessem impacto em dois bilhões de pessoas”, afirma no documentário Tristan Harris, ex-especialista em Designer de Ética do Google.

O Dilema Social vem na esteira de uma série de produções que repercutiram o escândalo da coleta de dados do Facebook-Cambridge Analytica a partir de 2014, envolvidos no Brexit e a campanha vitoriosa de Donald Trump – o filme Brexit (2019) e documentários como Privacidade Hackeada (2019), The Cleaners (2018), Sujeito a Termos e Condições (2013) etc. 

Mas a principal vantagem é que O Dilema Social traz entrevistas com os primeiros executivos das bigtechs como Twitter, Instagram, Pinterest e Facebook. Quando começamos a ver essas entrevistas percebemos que ao contar suas histórias ficam visivelmente envergonhados e desconfortáveis diante das câmeras. O tom é confessional, como se estivessem pedindo desculpas por ideias que supostamente eram bem-intencionadas.

Como, por exemplo, a fala de Justin Rosenstein, o inventor do recurso mais onipresente do Facebook: o botão “curtir”. Timidamente, diz que a intenção era “espalhar positividade pelo mundo” – o que pode haver de errado em permitir que seus amigos curtam algo que você postou?

A consequência é que as pessoas se deprimem ao não receberem curtidas, alterando o padrão de comportamento para receberem aprovação – o que resulta na compulsão e viciosidade (impulsionada por problemas de reconhecimento e autoestima), criando a chamada “Economia da Atenção”.

O documentário revela toda a ciência cognitivo-comportamental por trás das ambições altruístas – as estratégias de “extração de atenção”: como essas empresas exploram a necessidade evolutiva cerebral por conexão pessoal.

“Se o produto é gratuito, então você é o produto!”, alerta Tristan Harris.

Multiplique tudo isso numa terra sem regulamentação como a Internet e teremos o impacto político: democracias que podem ser derrubadas em questão de meses quando o produto “atenção” se transforma em dados disponíveis para articulação de golpes políticos.

O Documentário

O Dilema Social pode ser dividido claramente em duas partes: a descrição dos mecanismos da economia da atenção baseada em pesquisas neurocognitivas e comportamentais da Universidade de Stanford; e como a perniciosidade das plataformas não é um bug, mas o recurso principal – isto é, extremistas de direita não hackeiam o Facebook, simplesmente se utilizam da plataforma social para criar polarizações e derrubar governos democraticamente eleitos pelo planeta.

O fio condutor é uma reencenação dramática sobre os perigos da mídia social, protagonizada por Skye (Skyler Gisondo) interpretando um adolescente viciado compulsivamente por dispositivos móveis. Como as relações com seus familiares vão se deteriorando até ser seduzido pela desinformação extremista.

Fica claro como o público se torna incapaz de absorver qualquer narrativa da velha mídia que requeira atenção contínua sem o “reforço positivo intermitente” do botão “curtir” para clicar. Em detalhes é descrito como o tempo de atenção ou como o gestual do clique e o desenrolar da time line com o polegar deslizando na tela touchscreen foram cientificamente projetados pelos primeiros designers, apoiados em dados científicos cognitivo-comportamentais. 

A atualização do neuromarketing do velho princípio do “reforço positivo” do psicólogo russo Pavlov nas suas experiências com cães em laboratórios na década de 1930.

A primeira parte de O Dilema Social mostra amplos dados que apontam para o aumento da ansiedade, depressão e suicídios, coincidindo com a hegemonia das redes sociais e telefones celulares, especialmente entre adolescentes e estudantes do ensino médio.

O documentário mostra que a maioria das pessoas está ciente de que estão sendo exploradas em busca de dados, enquanto permanecem nessas plataformas. Porém, poucos percebem o quão profundo é a extração desses dados. O negócio não se limita apenas a busca por atenção e cliques para um anúncio, p. ex., do tênis favorito – esse é apenas um álibi para a prospecção de algo mais valioso e invasivo: o usuário como produto, seu próprio conteúdo gerado como índices de atitudes, comportamento, hábitos e ideologia política. Que se sedimentam em perfis psicométricos, a pedra filosofal para fins mercadológicos e políticos. A coleta de dados vendidos para aqueles que derem o lance mais alto.

A professora e pesquisadora Shoshana Zuboff se refere a esse mercado de dados como “ativos humanos” – assim como é o mercado negro de órgãos humanos ou de escravos.

Informação gera desinformação

A chamada Era da Informação caminha rapidamente para a Era da Desinformação, como argumenta um velho conhecido desse Cinegnose, o engenheiro computacional e criador do conceito de Realidade Virtual, Jaron Lanier – crítico de primeira hora do Vale do Silício, mesmo sendo um dos pioneiros. 

Entusiasta dos tempos da Web 1.0 (a utopia da “inteligência coletiva”), sintetiza a anomalia criada pelo esquema de monetização da economia de extração da atenção: 

Um dos argumentos que uso para explicar quão errada é a linha do tempo de sites como o Facebook, é usando a Wikipédia. Todas as pessoas veem as mesmas informações quando acessam. É um dos poucos sites que funcionam assim.

Agora imagine que a Wikipédia dissesse: “Vamos mostrar a cada pessoa uma definição personalizada e seremos pagos para fazer isso.”

Então, a Wikipédia espionaria você, faria cálculos, como: “O que posso fazer para incentivar aquela pessoa a mudar um pouco para beneficiar determinado interesse comercial?” Então, ela mudaria a definição. Consegue imaginar? Pode acreditar, porque é o que acontece no Facebook. 

A partir disso, fica fácil imaginar as consequências políticas exponenciais desse neo-solipsismo criado pela desinformação em bolha virtual: a desestabilização de qualquer governo em qualquer parte do mundo. O documentário dá o exemplo de Myanmar. Num país onde Internet é sinônimo de Facebook (os celulares já saem da loja com o perfil do usuário configurado na plataforma), facilmente foi instigado o discurso de ódio contra muçulmanos, dando aos militares uma nova maneira de manipular a opinião pública.

O resultado foi assassinatos em massa, incêndios de vilarejos inteiros e estupros em massa.

O Dilema das Redes mostra como é possível desestabilizar um governo democraticamente eleito em questão de meses ou intervir nas próprias eleições, chegando “as eleições no Brasil fora do comum” que levou à vitória de Bolsonaro – seguindo o mesmo modelo de Trump, nos EUA.

O diagnóstico do documentário é perfeito. Porém, o espectador deve relativizar essa mea culpa coletiva feita por esses ex-CEOS das gigantes tecnológicas – muitos deles saíram ricos dessas empresas e continuam otimistas e com ambições altruístas. 

Para começar, o próprio título do documentário: a mídia social e aplicativos ofereceriam simultaneamente utopias e distopias.

A conclusão é que as bigtechs praticariam um “modelo de negócio corrosivo”. Propõem coisas como, por exemplo, taxar os “ativos de dados” das empresas de mídia, “design ético” (seja lá o que for isso…), regras mais simples e claras etc.

Porém, o dilema é outro, e ainda não abordado por qualquer documentário desse verdadeiro subgênero que surgiu após os escândalos da Cambridge Analytica: a contradição entre transformar um bem de interesse público (comunicação, conhecimento, informação) em produto de interesse privado – o lucro. 

Esse é o dilema da própria natureza do capitalismo que nenhuma política de transparência ou compliance irá resolver.

Como demonstrou a crise da Nasdaq em 2000 e o fim da utopia da Web 1.0, no capitalismo o interesse público não se paga, não se sustenta, a não ser que se transforme em mercadoria com interesse privado. 

Além do que, as Bigtechs possuem um secreto interesse em fazerem vistas grossas à utilização das suas plataformas pelo extremismo político: Afinal, os governos de extrema-direita que assumem as democracias destruídas sempre adotam a agenda neoliberal que, em última instância, sempre beneficia o esquema de negócios das gigantes tecnológicas.

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