política

A direita marxista e a esquerda liberal (por Eduardo Tomankievicz Secchi e Tales Teixeira)

Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Eduardo Tomankievicz Secchi e Tales Teixeira (*) No SUL 21

Passadas as eleições de 2020 a engrenagem do sistema político brasileiro gira novamente como o usual. A direita (todos aqueles que defendem o capitalismo como modelo de desenvolvimento) liga o seu trator e passa por cima dos trabalhadores. A esquerda (aqueles que ao menos dizem ser anti-capitalistas) se junta em uma grande roda para explicar o porquê dos mais pobres votarem naqueles que lhes retiram direitos. Em verdade, mais parece um conjunto de indivíduos dando seu pitaco sobre o ocorrido do que uma reunião de balanço.PUBLICIDADE

Respostas para a questão não faltam. Evidentemente que a esquerda não fez nada de errado. O povo deve ser muito burro e merece mesmo tomar um relho para aprender a votar. Ou então estamos ainda vivendo um processo de superação da “antiga esquerda”, qual seja o PT, pela nova esquerda, qual seja o PSOL. Talvez as fake news sejam um fenômeno obscuro que nunca saibamos contra-atacar. “As igrejas, elas fazem a cabeça das pessoas!” Os mais pobres são muito vulneráveis à manipulação dos pastores, deve ser isto”!

O que esta grande roda de conversa, de vozes unilaterais, têm em comum é que nenhuma delas olha para realidade e dali tira uma lição. Talvez essa tenha sido uma das, senão a mais importante lição que Marx nos forneceu: o combate a estas posições idealizadas e abstratas. O caminho é o inverso. Qualquer balanço precisa ser feito de maneira objetiva e realista, mas principalmente baseado nos fenômenos reais, e não em uma projeção individual do que se imagina ser a realidade.

A direita avança produzindo resultados concretos na vida das pessoas. O povo não é burro ou ignorante para entender as coisas. As pessoas batalham diariamente pela sua sobrevivência e enxergam no seu cotidiano os candidatos da direita como a melhor opção. Estes candidatos mentem e manipulam, prometendo serviços e direitos enquanto os retiram? Evidentemente que sim. Mas isso não é novidade, sempre foi assim.

A promessa das privatizações era que reduzindo o papel das estatais os serviços melhorariam e todos teriam acesso. A reforma trabalhista foi vendida como flexível e que geraria mais empregos, sendo melhor para o patrão e para o empregado. A famosa frase do Delfim Neto de que primeiro crescemos o bolo para depois o repartir foi o mantra da ditadura. A repartição nunca chegou. A diferença central é que hoje a esquerda mais fala que mostra um projeto alternativo de desenvolvimento social, inclusivo, solidário e anticapitalista, do que de fato apresenta.

Esta apresentação, no entanto, não é uma voz eloquente pregando em um debate de televisão as melhores propostas e ideias durante o período eleitoral. Não se trata de ter as melhores ideias para interpretar a realidade. Como diria Marx, é preciso transformar essa realidade. Durante os outros 2 anos entre as eleições os aparelhos da direita estão operando, nas associações de moradores cooptadas, nos projetos sociais paliativos, e naquele membro da comunidade engajado que promete bastante, cumpre alguma coisa, mas deixa a maioria na mão quando precisa. Estes são elementos concretos que operam.

Em contrapartida, a esquerda precisa oferecer mais do que a superioridade moral. Diante da glória de se estar “do lado certo da história” está a derrota – e a consequente entrega do controle sobre as condições de vida das pessoas. Cedemos a vida real em troca da paz de espírito e da autoimagem heróica. É evidente que essa auto-premiação que a esquerda construiu para si mesma tem pouco apelo entre as pessoas.

A perda dessa potencialidade de mudança real nos afasta daqueles e daquelas que são mais violentamente explorados pelo sistema. Se outrora a esquerda esteve em ofensiva foi por justamente atacar na melhoria das condições de vida das pessoas, em especial dos trabalhadores. Isto ocorreu antes mesmo do PT virar governo. Isto, no entanto, não é uma reificação e uma tentativa de retorno a um passado glorioso perdido. A sociedade evoluiu. O sistema evoluiu. As coisas não são as mesmas. A sociedade que produziu as greves do ABC não existe mais. A sociedade da Frente Popular não existe mais. Precisamos endereçar essas mudanças para compreender em que solo pisamos. É dever de todo militante de esquerda entender os atores e atrizes reais que agem sobre a vida das pessoas hoje, em cada cidade, cada bairro e cada vila.

Acostumou-se a falar em entidades abstratas-idealizadas, como o fato das igrejas serem conservadoras, ou dos pastores serem mentirosos vorazes, ou mesmo vereadores inescrupulosos que a cada 4 anos compram seus votos para se elegerem. Estas questões permeiam a história do nosso país desde a sua fundação: ainda sob a influência desses fatores, passamos pela república velha, o varguismo, a ditadura militar e dois períodos democráticos.

Ora, é preciso uma explicação mais específica e franca. Ademais, nada disso parece razoável quando se tem um olhar minimamente crítico e voltado para as condições objetivas. Tanto é verdade que milhares de membros presentes nas igrejas, sejam católicas ou neopentecostais, são de esquerda e constroem projetos de esquerda, quanto membros de religiões de matriz africana apoiam a direita. Entender as dinâmicas específicas das localidades em que isto se produz é que nos permite compreender o porquê do nosso não-trabalho produzir o resultado eleitoral que produziu.

Evidentemente que o recorte de classe existe. Dificilmente se convence um multimilionário que o socialismo é a única via que garante os direitos de todos nós. Mas para se virar o jogo político atual no país a esquerda precisa parar de cair em posições idealistas, ligadas à tradição liberal de pensamento, e começar a beber um pouco mais de Marx. Nada pode nem deve ser defendido ou atacado per se, por uma posição a priori, construída a partir de uma ideia abstrata de um “certo” e de um “errado”. Todas as posições, e qualquer programa que consiga retomar o debate político que permitiu aos trabalhadores do país eleger o primeiro governo que lhes representava de fato, devem ser baseadas nas condições objetivas da sociedade.

Batido no liquidificador, esse discurso idealista reproduzido pela esquerda acaba por nos afastar muito pouco de nossos adversários: a direita reproduz diariamente, e por todos veículos, que mudar de vida é fácil uma vez que se muda a forma de pensar. Dizem que se passarmos a pensar de forma mais “empreendedora” ao invés de procurar emprego podemos enriquecer. Passamos quatro anos atacando esse discurso pra chegar no final das eleições e afirmarmos que “não mudamos pois o povo não pensa”, ou “pensa de forma egoísta e pouco evoluída”.

A realidade é que as eleições não são um grande processo de racionalização através do qual nos sentamos todos em mesa redonda e discutimos a melhor forma de projetar nosso futuro, e por isso nenhum resultado é simplesmente resultado das ideias do eleitorado. Nenhuma grande consciência vai “despertar” os trabalhadores do país para os seus próprios interesses. É nossa a tarefa de estar em contato uns com os outros e produzir nossa articulação em torno dos nossos interesses. Mas esta articulação e estes interesses são concretos, sintetizados a partir da realidade em que vivemos e atuamos. Não podemos defender de maneira mecânica um conjunto de ideais que dizem ser a nossa pauta. Esta prática nos impede de atualizar nossa estratégia política, nossas pautas emergenciais e dificulta a inclusão de pautas historicamente renegadas.

(*) Eduardo Tomankievicz Secchi é Graduado em Relações Internacionais e Mestrando em Ciência Política pela UFRGS. Militante da Juventude do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras. Tales Teixeira é Graduando em Ciências Sociais pela UFRGS, militante do Partido dos Trabalhadores e das Trabalhadoras.

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