
Em O Conto da Aia (The Handmaid’s Tale), de Margaret Atwood, e Seriado da Netflix, a figura de Serena Waterford é ilustração de um fenômeno político recorrente: a mulher que usa sua voz, proeminência e influência pública para defender e consolidar uma ordem social que prega a submissão e a perda de direitos do próprio gênero.
Ao observarmos a trajetória de Michelle Bolsonaro e de outras lideranças femininas do bolsonarismo — como a senadora Damares Alves —, salta aos olhos a semelhança no modo como o papel feminino é instrumentalizado para legitimar e suavizar um projeto político estruturalmente machista e misógino.
A arquiteta da própria submissão
Antes de a República teocrática de Gilead se concretizar na ficção, Serena Waterford era uma ativista conservadora, autora de livros e figura televisiva que pregava o retorno aos “valores tradicionais” e a submissão da mulher ao lar. O paradoxo de Serena era evidente: uma mulher articulada e publicamente ativa cujo discurso defendia que as mulheres não deveriam ter voz pública.
No cenário político brasileiro, Michelle Bolsonaro desempenha uma função análoga.
Como ex-primeira-dama Michelle construiu uma imagem pública pautada na religiosidade, no assistencialismo e na exaltação da “família tradicional”.
No entanto, a cultura política que ela encarna e promove — o bolsonarismo — é amplamente marcada por declarações e políticas que desqualificam a autonomia feminina, legitimam a violência política de gênero e reduzem o papel da mulher à esfera do cuidado e do suporte ao homem.
Assim como Serena, que discursava em grandes arenas para convencer outras mulheres a voltarem para a cozinha, Michelle utiliza palanques e eventos partidários para incutir em suas eleitoras a ideia de que o topo da hierarquia moral e social pertence ao homem, reservando à mulher o papel de “ajudadora idônea”.
A estética do cuidado como blindagem moral
Uma das estratégias mais eficientes desse modelo conservador é o uso da feminilidade como uma espécie de “soft power” para humanizar lideranças de extrema-direita.
Damares Alves, ao ocupar o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, utilizou o pretexto da proteção da infância e da maternidade para combater pautas fundamentais de direitos sexuais e reprodutivos, enfraquecendo a rede de apoio a mulheres vítimas de violência e meninas vulneráveis.
A presença de mulheres de destaque na linha de frente do bolsonarismo cumpre uma função tática essencial: oferecer uma blindagem contra acusações de misoginia.
Quando o ex-presidente ou seus aliados proferem falas abertamente hostis às mulheres, são Michelle e Damares que surgem como fiadoras morais, pacificando a base eleitoral e sugerindo que o machismo do movimento é mero “estilo direto” ou “defesa da família”.
É o mesmo mecanismo observado em Gilead. Na trama de Atwood, as Esposas dos Comandantes não são apenas vítimas do sistema patriarcal; elas são ativas operadoras da engrenagem.
Elas fiscalizam, punem e disciplinam outras mulheres (as Aias e as Marthas), garantindo que a hierarquia machista se mantenha inabalável.
O paradoxo da mulher na extrema-direita
O destino de Serena Waterford em O Conto da Aia reserva uma amarga ironia: ao ver seu projeto de sociedade triunfar, ela perde o direito de ler, de escrever e de ter qualquer ingerência real sobre as decisões políticas da nação. Ela é devorada pelo próprio monstro que ajudou a criar.
No Brasil contemporâneo, a atuação de figuras como Michelle Bolsonaro e Damares Alves expõe a profunda contradição da mulher conservadora na política.
Ao utilizarem o capital político e a visibilidade para perpetuar a cultura patriarcal, elas alimentam o mesmo sistema que reduz os direitos das mulheres na sociedade.
O discurso pode vir envelopado em religiosidade, empatia ou estética de cuidado, mas o resultado prático é a manutenção de uma estrutura que tolhe a emancipação e perpetua a misoginia como método de governo e cultura social.

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“…É esse o erro mais frequente do debate brasileiro. Discutimos tarifas sem relacioná-las às cadeias produtivas. Falamos de minerais sem conectá-los à inteligência artificial. Tratamos as Big Techs como um problema exclusivamente regulatório, ignorando que elas também integram uma disputa por dados, tecnologia e influência política. Observamos a aproximação entre Brasil e China como se fosse apenas uma decisão diplomática, quando ela faz parte de uma transformação muito mais ampla da economia mundial. Separados, esses acontecimentos parecem desconexos. Juntos, revelam uma lógica difícil de ignorar. …”
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