
Hora de cair na real
No condomínio, observo o vizinho entrar no elevador e mal diz “Bom dia”, porque está grudado no celular. Passa reto pelo porteiro, este também está no celular, mas este, quando me vê, pede desculpas, ergue a cabeça e diz “Bom dia, como vai o senhor?” Pergunto sobre as eleições. “Fomos mal doutor, né?” Acerto com ele que ele vai buscar um que não foi votar ou que votou nulo ou branco. Entendeu o recado, afinal falo de política com ele sempre.
Passei mais de um mês no hospital, consegui vários votos para o PT, deixei de propósito um dos volumes do Memórias do PT gaúcho visível para todo mundo.
Desafios entre a tela e a realidade Sabemos que o excesso de tempo conectado pode prejudicar as conexões humanas reais e gerar distúrbios de atenção ou de ansiedade. A desconexão com o real é tanto de jovens quanto de pessoas idosas. Há adictos de telas em todas as idades.
E o que estamos fazendo para mudar esta realidade?
Pouco. Pelo contrário, nos grupos de whatsapp há pessoas que fazem uma maratona para postar e repostas o que já se viu em mil e tantos outros espaços. Não vale nada.
O fenômeno do “phubbing”:
Não encontrei uma tradução para o português. Trata-se do ato de ignorar uma pessoa fisicamente presente para dar atenção ao celular, prejudicando a convivência social.
Deveríamos nos educar e reeducar, para termos uma vida social e um tempo de telas equilibrados.
Desinformação
A desinformação através do celular, das mídias sociais, whatsapp constitui simultaneamente um objeto, um processo e um efeito comunicacional.
Lembram-se dos eventos climáticos de 2023 no RS, quando largaram uma nota (falsa) sobre a abertura das comportas? Era uma grosseira invencionice. Mas o fato era que há comportas, isto é, base material, o tom era real, ou seja, credibilidade. Tínhamos um objeto que gerou um processo em rede, um curso de notas, criando um efeito comunicacional desastroso.
Assim, a extrema direita foi criando as chamadas “fake news”, gerando uma onda de horrores, tano que a gente chega a falar de “gado”. Mas as pessoas querem estar nesta manada. Eis buscar saber as razões, para falar com esta multidão e ser compreendido, tanto no contato pessoal quanto no virtual.
Mas falamos para quem?
Para a nossa bolha.
Quem na última eleição falou para fora? Vejam os “insta” de nossos parlamentares, assessores, dirigentes e petistas em geral. Vá e dê uma pesquisada.
Quem puxa conversa com o vizinho? Quem vai à escola de filhos e netos e puxa papo para valer com os outros? Na fila de ônibus? Ah, todo mundo está no celular, não é? E se o cara levantar a cabeça, não caberia uma pergunta como se fazia no passado, falando do “tempo”? É uma forma de puxar um papo. Mas isto é arcaico?
Você tanta falar com o povo pentecostal? Todos nós os detectamos nas primeiras frases. Bom momento de falar dos cultos. Ou acha que isto é bobagem?
Pecamos no uso do virtual.
Ana Elisa Santos Silva, do PT, é influenciadora e estudante de Direito, mineira de 21 anos, a mais jovem deputada federal eleita. “Influenciadora” foi a manchete. Por que ela sim e tantos outros não se elegeram? Jovem e negra. Que tal umas aulas com ela?
Já aqui peguei duas candidatas nossas que tem 5% das seguidoras dela. Um jovem tem apenas 2,5% dela.
Creio que aqui vai um pouco da soberba gaudéria. Pode apostar. Não é balela.
Creio que temos que falar da malha das redes, tem que ter uma malha menor, para pegar peixe pequeno, ou seja, o povo, para isso é preciso ousar e ter coragem de sair da bolha. Números contam, porém a qualidade da rede conta mais.
Mais redes
Apesar da importância da rede, já deveríamos ter largado os windbanners.
“É um momento de nós entendermos que rede social, elege sim, e irmos para as redes sociais. Para as ruas nós já vamos, mas nós precisamos ir para as redes”, destacou Ana Elisa, nossa jovem deputada federal.
Aqui, no Rio Grande do Sul, Luiz Müller, em seu blog, tem puxado este debate.
Adeli Sell é professor, escritor e bacharel em Direito.
Descubra mais sobre Luíz Müller Blog
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