A virada ocorrida entre o primeiro e o segundo turno não foi só um movimento eleitoral, mas o resultado direto de uma das maiores mobilizações populares e políticas da história do país.
A confirmação do quarto mandato de Luiz Inácio Lula da Silva representa uma das maiores demonstrações de resiliência democrática do século XXI.
Diante do risco real de corrosão por dentro do sistema democrático — um fenômeno amplamente retratado pelos cientistas políticos Steven Levitsky e Daniel Ziblatt na obra “Como as Democracias Morrem” —, a maioria do eleitorado brasileiro tomou as ruas e o debate público para evitar a consolidação do autoritarismo pelas vias do voto.
A Queda da Abstenção: Jovens e Idosos na Defesa do Voto
Ao contrário do padrão histórico em que o absenteísmo costuma aumentar no 2º turno, desta vez foi a maior queda nas taxas de abstenção entre o 1º e o 2º turno da história das eleições.
Esse engajamento massivo contou com o protagonismo decisivo de dois grupos centrais:
A juventude organizada: Os jovens tomaram as redes sociais e as ruas com passeatas e panfletagens diárias, transformando a campanha em um movimento cultural e geracional de resistência ao fascismo.
A participação dos idosos: Milhões de eleitores da terceira idade — inclusive muitos com voto facultativo — fizeram questão de ir aos locais de votação, enxergando no pleito um dever moral para garantir o futuro das próximas gerações.
Essa presença em massa provou que, quando a democracia é colocada sob ameaça concreta, a população responde com mais participação e engajamento cidadão.
Repercussão Global: Um Freio às Pretensões de Trump e da Ultradireita
Lá fora, as manchetes dos principais jornais do mundo trataram a vitória de Lula com uma mistura de alívio geopolítico e entusiasmo democrático:
Le Monde (França): Destacou que Lula “se consolida como um pilar de resistência contra Trump na América Latina”, apontando a eleição como um freio direto à expansão das forças de extrema-direita apoiadas pelo ex-presidente americano.
The New York Times (EUA): Classificou o resultado como um “espantoso renascimento político” e observou que o revés do bolsonarismo enfraquece o ecossistema trumpista no América Latina.
El País (Espanha) e The Washington Post (EUA): Enfatizaram a “virada épica” conduzida pela mobilização social, reforçando o retorno do Brasil ao centro das negociações multilaterais e da proteção socioambiental.
Quarto Mandato: Escutar o Povo para Enfrentar o Congresso
Em seu discurso após a apuração, Lula destacou que governar em seu quarto mandato exigirá um método diferente: ouvir mais as ruas e criar canais contínuos de participação popular.
Com uma bancada ultradireitista numerosa e radicalizada no Congresso Nacional, a governabilidade não poderá depender apenas das negociações de gabinete.
Como o próprio Lula tem reiterado em falas seguidas e reafirmou no discurso da vitória na Paulista, nos momentos de maior pressão institucional, o governo deve recorrer ao seu povo, pois é na pressão e no apoio das bases que reside a força para contrapor a hegemonia conservadora no Legislativo.
Para enfrentar esse cenário, Lula mantém uma postura crítica ao orçamento secreto e às emendas parlamentares bilionárias, além do inchaço do Fundo Eleitoral. Essa constatação impõe uma reflexão direta ao Partido dos Trabalhadores (PT): é preciso superar a adaptação pragmática às regras do jogo eleitoral e parar de atuar como uma estrutura voltada quase exclusivamente para a eleição seguinte.
Limitar a atuação política à gestão de fundos e mandatos reduz o alcance transformador da esquerda e abre espaço para a proliferação da extrema-direita nos territórios.
É nessa perspectiva que resgato uma frase do Olívio Dutra
“Eleições são só episódios da luta de classes, que é muito maior, permanente, e requer consciência de classe dos trabalhadores, que só um Partido da Classe Trabalhadora como o PT pode construir.”
A vitória sobre o bolsonarismo e a extrema-direita mundial garantiu a sobrevivência das instituições democráticas.
Mas a tarefa permanente de transformação social exige reativar o trabalho de base, a formação política e a organização contínua dos trabalhadores para derrotar o extremismo em suas raízes profundas.
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