
Na Alemanha nazista, antes que a perseguição aos judeus atingisse suas formas mais brutais, houve o boicote aos seus estabelecimentos comerciais.
Em 1º de abril de 1933, o regime organizou uma campanha para afastar clientes de lojas, consultórios e escritórios de profissionais judeus. Listas e identificações ajudavam a definir quem deveria ser isolado.
Essa ação ficou conhecida como o Judenboykott.
A história não se repete necessariamente da mesma maneira. Mas há mecanismos de perseguição que não podemos ignorar quando voltam a aparecer.
Na manhã desta terça-feira, 27 de outubro, denunciei em minhas redes sociais a disseminação de listas de empresas e profissionais supostamente petistas, com o objetivo de estimular boicotes contra quem declarou voto em Lula.

Denunciei também aqueles que, contrariados pelo resultado eleitoral, anunciam que deixarão de fazer ações de caridade.
Meu colega Luiz Müller, em comentário publicado pela Rede Soberania, chamou a atenção para a semelhança entre essas listas e as práticas de exclusão promovidas pelos nazistas contra comerciantes judeus.
É preciso reconhecer as diferenças históricas: publicar listas de quem votou em Lula não equivale à perseguição sistemática do Estado nazista, muito menos ao Holocausto.
Mas isso não nos obriga a fechar os olhos para o mecanismo que se repete: identificar pessoas por suas convicções, expô-las publicamente e estimular sua punição econômica e social.
Quando o voto vira motivo para perseguir o sustento de alguém, a divergência política se transforma em intolerância organizada.
E o que dizer de quem ameaça suspender ações de caridade porque seu candidato perdeu? Se a solidariedade depende do resultado das urnas, talvez nunca tenha sido solidariedade de verdade.
Caridade condicionada à vitória eleitoral é moeda de troca, não compromisso com o próximo.
Estaríamos diante de um simples destempero eleitoral ou de uma tentativa de normalizar a perseguição política em nossas comunidades? Quem organiza essas listas compreende a gravidade do que está fazendo?
E quem as compartilha percebe que ajuda a transformar o preconceito em prática aceitável?
Espero que eu e Müller estejamos exagerando. Mas a história nos ensina que não devemos esperar a violência chegar ao extremo para reconhecer os sinais de exclusão.
Uma eleição termina. A convivência democrática continua.

Ninguém é obrigado a concordar com quem pensa diferente, mas ninguém tem o direito de transformar essa diferença em instrumento de humilhação e perseguição.
Antes da fogueira, vieram as listas.
Não precisamos esperar que a história avance para decidir de que lado estamos.
*Marco Antônio Corbari é Jornalista e Atua como colunista e colaborador em veículos de imprensa popular e alternativa. É militante da Via Campesina, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) e do Instituto Cultural Padre Josimo (ICPJ).
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