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Classe média paulista concentra ódio contra políticas sociais do PT, diz cientista política

Do R7 Notícias

Professora da UFSCAR analisa semana marcada por protestos e pacote anticorrupção

As manifestações de 15 de março não protestaram apenas contra a corrupção, o PT e os governos da presidente Dilma Rousseff e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Os programas sociais do partido, financiados com dinheiro público, também foram alvo da revolta dos manifestantes.

A avaliação é da cientista política Maria do Socorro Braga, professora da UFSCAR (Universidade Federal de São Carlos).

Segundo ela, um dos motivos que levaram a isso é a perda de poder aquisitivo da classe média, em especial a de São Paulo, que paga impostos cada vez mais altos e está passando a questionar o financiamento de programas como o Bolsa Família.

— Existe aqui uma classe média extremamente conservadora e que está mais concentrando esse ódio em relação a esse tipo de política social.

Para Maria do Socorro, o maior desafio do governo federal é manter as conquistas sociais em um cenário de crise econômica e necessidade de reformas estruturais.

— A dificuldade é manter no seu campo de influência a classe C, manter essa capacidade de poder de compra e de consumo que ela foi incentivada a ter.

R7: Dois dias após o protesto de domingo, o governo anunciou um pacote anticorrupção. Isso vai acalmar o ânimo dos manifestantes?

Maria do Socorro Braga: Tem que ver como o Legislativo vai receber isso. Em termo de medidas, o pacote vai numa direção que boa parte da população quer mesmo. Mas a gente tem que ver essas medidas funcionando, e aí tem que esperar. Será que o Legislativo vai aprovar tudo?

R7: O financiamento das campanhas do PT é um dos pontos de investigação da Lava Jato. O governo tem condições de liderar um movimento de combate à corrupção?

Maria do Socorro: Tem porque ele sabe que, se não fizer isso, vai continuar a mobilização. E como estão praticamente todos os partidos envolvidos, mesmo do governo e da oposição (e com esse caso do HSBC vai aparecer muito mais), então numa conjuntura adversa como essa, a tendência é de que um lado faça algo, e quem tem que fazer é quem está no governo. Eles vão propor. Por isso é que estou te falando, porque no Legislativo vão tentar segurar, já que lá está boa parte dos políticos envolvidos [em casos de corrupção].

R7: Por que o Legislativo vai segurar?

Maria do Socorro: O principal agora era todo mundo se juntar e passar um pacote enorme, pensar como vai fazer financiamento político de campanha, que é o que está no centro desse escândalo da Petrobras. Mas não há interesse do Legislativo de fazer algo sério nesse sentido.

R7: O atual Legislativo tem condições de fazer a reforma política? Ou essas vozes que têm interesse não vão aparecer?

Maria do Socorro: Temos de pensar onde estão essas vozes, porque, por enquanto, estão escondidas. Num horizonte muito próximo a gente não vê um consenso. O próprio PT quer financiamento público, mas o PMDB, que é o maior partido da base, quer continuar com financiamento das empresas. Nem sei o que o PSDB pensa nesse sentido. Se não há um consenso entre essas maiores forças, então eles vão empurrando com a barriga e assim não sai nada até o próximo pleito. Talvez saiam algumas questões pontuais, como essa questão das coligações, [que foram proibidas pelo Senado para eleição de deputados e vereadores].

R7: O Judiciário também vem sendo questionado por causa do ministro Gilmar Mendes, que está segurando um processo já decidido que determina o fim do financiamento privado de campanha. Essa decisão poderia ser tomada no Judiciário?

Maria do Socorro: Em termos constitucionais tem que ir para o Legislativo. O Judiciário pode julgar se as leis estão de acordo com a Constituição, mas ele não pode propor leis. Mas às vezes acaba indo para o Judiciário porque o Legislativo acaba não aprovando algumas medidas. Então acontece mais por uma omissão do Legislativo, que não tem interesse de chegar num acordo em relação a essas medidas.

O Executivo acabou se antecipando e mandou um monte de propostas. Vamos ver. A primeira vez que a Dilma fez isso [proposta de reforma política] o Legislativo segurou, não foi para frente, eles se sentiram ameaçados. No famoso junho de 2013 saiu uma proposta de reforma política também.

Para cientista, Legislativo trava votações porque não há consenso

R7: O entrave, então, é no Legislativo?

Maria do Socorro: Para mim, sim. É lá que está o imbróglio. Eles não conseguem chegar a um acordo porque os interesses são muito díspares.

R7: Se os partidos da base aliada não conseguem entrar num acordo, deveria se tentar uma aproximação com a oposição?

Maria do Socorro: Uma dessas partes vai ter que agregar novas forças para ter uma força maior. Mas num contexto tão imprevisível como esse, em que você não consegue nem ter uma base, porque o PMDB está no governo, mas joga contra, então numa situação dessas fica difícil pensar num acordo desses. Impensável.

R7: Como você avaliou o episódio do Cid Gomes no Congresso, que foi demitido após um bate-boca com deputados da base aliada?

Maria do Socorro: Isso mostra que o PMDB está forte. O Cid falou o que pensa grande parte da população que é crítica ao governo mas não é a favor do impeachment, esse pessoal que foi na manifestação de sexta-feira (13). O que o Cid falou na tribuna foi a fala de muita gente que apoia o governo e que está realmente decepcionado com o PMDB, que tem esse papel extremamente abusivo. Ele [PMDB] quer é mais poder.

R7: Existe uma disputa de poder entre o PMDB no Legislativo e o PT no Executivo?

Maria do Socorro: Não é difícil dizer isso porque o PMDB tem a presidência das duas casas. O PMDB se juntando com outras forças próximas acaba tendo muita força, enquanto o PT acaba se juntando com partidos menores, como o PCdoB. Então, em termos de número sim, porque eles conseguiram atrair todo o baixo clero. O presidente da Câmara é um articulador, pro bem e pro mal. Eles estão medindo forças com o Executivo, na verdade, já que não estão apoiando.

R7: No protesto do último domingo, em São Paulo, ocorreram muitas manifestações de ódio ao PT e à presidente Dilma, como xingamentos e ofensas, além de críticas a políticas sociais como o Bolsa Família e as cotas raciais. Como você analisa essa revolta dos manifestantes?

Maria do Socorro: É algo muito sério no Brasil, você sente esse ódio. No Brasil eu nunca tinha visto uma manifestação dessa, porque, no geral, é a classe média e média alta [que foi para as ruas em 15 de março]. Parte dessa classe média tradicional, que são partes das classes A, B e C, desde a década de 1980, é ela quem, tradicionalmente, vai pagar mais impostos, então ela vem perdendo poder aquisitivo nas últimas décadas, em todos os governos. E o PT chega ao governo no ápice dessa perda de poder aquisitivo.

Então esse contrato de aceitar esse tipo de pagamentos [sociais], com dinheiro público, cada vez mais esses setores estão questionando, porque eles estão perdendo renda e, ao mesmo tempo, continuam pagando essa faixa toda de impostos, que é descontada em folha a maior parte. É uma questão mais estrutural. E aí há um preconceito muito grande.

No geral isso tudo está se acumulando. Então você vê que o maior protesto foi em São Paulo, que é o Estado com maior PIB. Por maior que tenham se reduzido as desigualdades, existe aqui uma classe média extremamente conservadora e que está mais concentrando esse ódio em relação a esse tipo de política social.

PT tem o desafio de evitar retrocesso em avanços sociais

R7: Você avalia que existe um risco de retrocesso em avanços sociais?

Maria do Socorro: Esse é o grande problema do PT hoje. Se o partido deixar isso acontecer, seria muito negativo para a imagem desses partidos políticos mais à esquerda. É o grande desafio do governo justamente saber administrar essa crise econômica atual e saber lidar com as conquistas sociais, e ainda fazer reformas estruturais, reformas fiscais. A dificuldade é manter no seu campo de influência a classe C, manter essa capacidade de poder de compra e de consumo que ela foi incentivada a ter.

R7: E a classe C se tornou muito relevante no cenário político-eleitoral do País…

Maria do Socorro: E o interessante desse setor é que ele é extremamente conservador e não vota num partido por causa de ideologias. Ele só vota conjunturalmente, porque deu mobilidade social. Então, se tiver um retrocesso, eles mudam logo esse voto. E hoje é um percentual tão alto que eles definem uma eleição.

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