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Globo e Temer – Como a mídia criou o mito da exoneração de ministros

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(Foto: Mídia Ninja)

Por Bajonas Teixeira de Brito Junior, no Cafezinho

Alguns temas já estão agora perdendo sentido porque, ao que tudo indica, a presidência interina de Temer entrou num declínio sem volta. Mas o tema da queda de ministros, como acabamos de ver hoje com Henrique Alves, certamente conquistou atualidade permanente nesse insustentável governo Temer. E vale a pena, aproveitando a deixa do dia, avaliar com cuidado um mito criado pela Globo segundo o qual, em suposta diferença com o governo Dilma, Temer demitiria seus ministros à menor suspeita de corrupção.

Esse mito é uma daquelas falsificações que, repetidas mil vezes, acabam sendo aceitas como verdades. Antes que seja tarde, talvez seja bom desmontá-la em suas menores articulações. Assim, no último dia 11, quando as concessões descaradas do interino ao fisiologismo, já impossíveis de esconder, tornaram-se perigosas, uma matéria de O Globo com o título Após recuos Temer cede pressões para Dilma não voltar, dizia :

“Nos primeiros dias, governando sob intensa pressão, demitiu dois ministros; enfrentou grampos com diálogos pouco republicanos envolvendo a cúpula de seu partido, o PMDB.”

A versão de que Temer demitiria seus ministros suspeitos, numa certa tolerância zero com quaisquer indícios de comprometimento, foi construída pela Globo com uso ostensivo de uma entrevista de Janaína Paschoal. Esta entrevista, inclusive com sua iconografia, foi maquinada como uma estratégia de relações públicas. No dia em que caído o segundo ministro, 31 de maio, a opinião da direita golpista, a maioria esmagadora dos leitores de O Globo, encontrava-se aturdida sem saber o que pensar e, pior, o que dizer, apareceram na home do G1 à tarde, lado a lado, as imagens de Temer e de Janaína Paschoal. O sentido era o apoio da musa do impeachment ao mordomo do golpe.

Fábio Silveira_Decide deixar o cargo

Entrevistada, Janaína Paschoal faz considerações sobre uma suposta diferença entre Temer e Dilma em relação aos ministros maculados por suspeitas. O mais importante, contudo, é que o parágrafo que precede a entrevista, já a interpreta e deixa claro a posição da Globo, que então se tornará dominante:

“A advogada Janaina Paschoal, uma das autoras do pedido de impeachment que levou ao afastamento da presidente Dilma Rousseff, classificou como “positivos” os primeiros dias de governo do presidente interino Michel Temer. Para ela, as exonerações do ministro do Planejamento, Romero Jucá, e da Transparência, Fabiano Silveira, após críticas à Operação Lava-Jato em gravações feitas pelo ex-presidente da Transpetro, Sérgio Machado, mostram uma diferença de postura entre Dilma e Temer.”

Essa necessidade de um texto tão assertivo, que usa a palavra “exoneração” para dar a entender a severidade e intolerância de Temer com a corrupção – como se ele procedesse à exonerações sumárias dos desafinados – veio de que, na curtíssima ‘entrevista’ dada à emissora, Janaína deixou as coisas um tanto turvas, abrindo um flanco para a ambiguidade:

“Me parece que o Temer tem um estilo meio diplomático. Não manda embora de imediato, mas coloca a pessoa numa situação em que ela tem que se explicar.”

Evidente que esse “não manda embora de imediato”, deixa a porta aberta para que se pergunte qual foi a real dinâmica desses afastamentos. Mas com essa chance de rever o processo, de mínima reflexão sobre ele, se escancararia o fato de que Temer na verdade não demitiu ninguém.

No lugar dessa ambiguidade, que já deformava a verdade, a versão da Globo, que se tornou canônica para seus leitores, e passou a ser o mantra da empresa, é mitológica. Ao invés de revelar a grande dificuldade de Temer para decidir, substituiu, com as artes da pura mitomania, isto é, da mentira deslavada, a mera ideia de hesitação pelo mito de um Temer reagindo decisiva e imediatamente à menor sombra de comprometimento.

Essa distorção dos fatos, e sua possibilidade de ir tão rapidamente ganhando status de verdade, tem origem, ao que tudo indica, na própria velocidade dos acontecimentos numa momento de intensa conturbação política. Se um fato recente é passível de distorção é porque, em nosso imaginário aflito desses dias, ele já está desatualizado. A atenção é obrigada a se fixar em escândalos e denúncias mais recentes, e deixar de lado os fatos ‘antediluvianos’, ou seja, aqueles acontecidos há uma ou duas semanas atrás. Mas se nos debruçamos sobre os acontecimentos como se deram, não fica nem sombra de dúvida quanto à complacência de Temer com seus ministros corruptos.

Em primeiro lugar, Romero Jucá e Fabiano Silveira não foram demitidos por Temer, mas se demitiram. Isso foi visto como estratégia na época, uma vez que preservaria Temer de desgaste com as suas bases políticas dentro do PMDB. Com Jucá, foi tentada até uma fórmula estranha, a do seu licenciamento, pelo qual ele iria para o limbo, numa região intermediária, nem dentro nem fora do governo. Mas a perplexidade da classe média que acabara de apoiar um golpe supostamente contra a corrupção, e em apoio a Lava Jato, e das forças que sustentavam Temer que previam a contaminação do governo, falaram mais alto. Mesmo assim Jucá não foi demitido. Ele pediu para sair. E saiu dizendo, sem ser demitido, que tinha sido convidado a ficar. Naquele momento, a Globo vendeu esse peixe sem constrangimento nenhum em sua home do G1 (24/05/2016):

Jucá na Câmara_Temer pediu para eu ficar

A mesma solução, na velha fórmula da “saída honrosa”, da exoneração à pedido, foi arranjada para o ministro da Transparência, Fabiano Silveira, que também pode sair de cabeça erguida, sem máculas da demissão. Na véspera de sua saída, Temer ainda avaliava que poderia mantê-lo, segundo matéria do Jornal da Globo:

“No começo da tarde de segunda (30), Michel Temer avaliou que a gravação divulgada não comprometia Fabiano como gestor público e divulgou que o manteria no cargo, ‘por enquanto’.”

Mas a situação tornou-se insustentável. Em sua carta de demissão, Silveira chegou a afirmar que “não obstante o fato de que nada atinja a minha conduta, avalio que a melhor decisão é deixar o Ministério”. A própria Globo também foi coautora dessa versão:

Fábio Silveira_Decide deixar o cargo

Em 02 de junho, em entrevista ao SBT Brasil, Temer deixou claro a sua posição de princípio, isto é, a de não demitir ministros, com a declaração seguinte:

“Acho que os ministros sairão, eu não tenho a menor dúvida disso. Se houver incriminações, acho que o próprio ministro tomará a providência”.

Portanto, como se vê, quem tem que demitir um ministro é o próprio ministro e ninguém mais. A dificuldade surgiu, contudo, quando duas semanas depois, ai pelo dia 05 de junho, já eram três figuras proeminentes do governo, dois outros ministros e a secretária para Política para as Mulheres, que apareciam envolvidos em suspeitas e denuncias. Avaliou-se naquele momento que, se afastados, seria o fim trágico puro e simples da aventura de Temer. Nessas condições, sequer o método da saída honrosa era mais praticável. Assim, surgiu a expressão “mudança de critério” para justificar a permanência dessas figuras. Foi o que escreveu Cristiana Lobo em seu blog num post com título Temer muda critério e mantém ministros:

“Para evitar que se crie o que está sendo chamado de ‘lenda da maldição da segunda-feira’, o presidente em exercício Michel Temer decidiu nesta segunda manter nos respectivos cargos dois ministros e uma secretária que estavam na berlinda: Henrique Eduardo Alves, do Turismo, citado na Operação Lava-Jato; Fábio Medina Osório, da AGU; e a secretária para Política para as Mulheres, Fátima Pelaes.”

Portanto, com se vê, se Temer não demitiu os dois primeiros, Romero Jucá e Fabiano Silveira, muito menos demitiu os dois últimos. A quinta demissível, Fátima Pelaes, foi nomeada apesar de investigada pela operação Vaucher pela Polícia Federal.

Da segunda-feira (06 de junho) até hoje, 16, Henrique Alves obteve dez dias inteiros de sobrevida pelos quais o governo golpista pagará um preço muito alto.

Agora que, ao que tudo indica, o governo Temer ruma para uma agonia rápida, precipitada pela queda do terceiro ministro, é possível que rapidamente essa versão dos fatos caia no ostracismo. Contudo, da parte de quem luta pela vitória da democracia, seria muito bom manter viva a memória dessa construção mitológica. Afinal, ela é um exemplo bem característico da combinação de mídia e política, que foi vital para a execução do golpe.

* Bajonas Teixeira de Brito Júnior – doutor em filosofia, UFRJ, autor dos livros Lógica do disparate, Método e delírio e Lógica dos fantasmas, e professor do departamento de comunicação social da UFE

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