O filme ‘Mãe só há uma’, nas palavras da diretora, Anna Muylaert: “Esta é minha nova flor, é um filme sobre uma história famosa que aconteceu no Brasil (o caso Pedrinho, levado de uma maternidade em 1986, e localizado 16 anos depois). Não é sobre se sentir bem, mas sobre ser autêntico. Esta é uma flor autêntica.
O filme mostra a vida deste adolescente, em plena descoberta de sua sexualidade, seus namoros, escola, banda de rock, e festas”. Tendo ele de lidar com o impacto de mudar de família, quando descobre a verdadeira mãe e que seu nome verdadeiro não é Pierre. A partir daí, passa a conviver com seus pais biológicos, em realidade bem diversa daquela em que vivia.
A diretora aproveita para discutir a questão de gênero – conectada que é com assuntos atuais – tema já abordado em seus trabalhos anteriores: as relações familiares entre pais e filhos.
Continua ela: “O amor é a mais importante identidade que uma pessoa pode carregar. E alguém que perde sua identidade afetiva não é mais nada. Esta é a história de alguém que, ao se afastar da mãe e ganhar uma outra – hiperpresente – traz para fora o que estava oculto. Existem mães hiperausentes que podem afetar muito uma pessoa e o mesmo pode se dar com as mães presentes demais. Todas essas relações familiares, para mais ou para menos, determinam nosso ir e vir na alegria, no equilíbrio. Este não é um filme sobre se sentir bem e sim sobre como ser autêntico. Entre as muitas diferenças que existem entre este filme e “Que Horas Ela Volta?” (filme de estrondoso sucesso e repercussão mundial, dirigido por Anna), a que mais me importa é o fato de deixarmos as mães de lado e procurarmos os irmãos. Partimos da verticalidade da autoridade materna para a horizontalidade que existe na fraternidade. Nela, todos são iguais.
Filmamos a história de Pierre/Felipe toda com a câmera na mão. Reduzindo bastante os custos das filmagens”, ressalta a diretora. O filme já foi vendido para 15 países.
Assim como se deu no seu filme anterior, Anna coloca no centro do palco a classe média com seus esteriótipos fossilizados. Toca também em questões levantadas pela psicanálise, com Freud. O próprio título do filme é um chiste freudiano, pois ao trocar de mãe, é a mesma mãe que ele encontra do outro lado, diz a diretora. Quando ela cita em suas entrevistas: “A família é a primeira instância do Estado”. Há, nesta frase, muito das questões levantadas nos estudos do filósofo francês, Michael Foucault, em suas obras “Vigiar e Punir”, “Biofísica do Poder” e “História da Sexualidade”.
Acrescenta Anna: “Parece, também, um pouco aquela mãe do Woody Allen, que ficava no céu controlando a vida do filho”; (Contos de Nova York – Édipo Arrastado – New York Stories, 1989).
No filme “Mãe só há uma”: “O personagem vai achar um novo caminho, do amigo, do irmão, e não o da autoridade”. E mais, continua ela: “Eu queria fazer um filme sobre busca e afirmação de identidade. Se você não é nada do que achou que era, então, o que sobra?”. Para trazer a discussão para os dias atuais, Anna colocou em foco a questão de gênero: “A geração atual derrubou todo tipo de rótulos. Não tem mais essa de ‘Sou gay’. Na verdade, ‘Sou o que quiser ser’. É uma forma de viver muito diferente”.
Lembrando: “Trata-se de uma adaptação livre, nessa história, o verdadeiro Pedrinho ficou longe”, brinca a diretora.
Agucei sua curiosidade ?
Então, dito isto, eu acho que você vai apreciar o filme “Mãe Só Há Uma”, provocativo até no título.
Elenco:
Matheus, pai de Pierre/Felipe – (Matheus Nachtergale)
Glória e Aracy, mães de Pierre/Felipe (Dani Nefussi)
Pierre/Felipe, bebê roubado da maternidade – (Noemi Nero)
Joca, irmão biológico de Pierre/Felipe – (Daniel Botelho)
Jaqueline, irmã de Pierre (não biológica, ela, da mesma forma, foi raptada da maternidade) – (Lais Dias)
Yara, tia de Pierre – (Luciana Paes)
Curiosidades:
– O filme “Mãe Só Há Uma”, foi lançado no Festival de Berlim, 2016. Ganhou prêmio ‘Teddy’ concedido pela revista alemã Männer. O filme custou R$ 1,5 milhão, contra R$ 4 milhões de “Que Horas Ela Volta?”. Já foi vendido para 15 países.
– Anna Muylaert fez séries infantis nos anos 1990, ‘Mundo da Lua’ e ‘Castelo Rá Tim Bum’, dentre outros trabalhos. Convidada a integrar a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, é a primeira diretora brasileira a fazer parte da Academia que organiza o Oscar. Anna foi a homenageada do 11º Festival de Cinema Latino-Americano de São Paulo, dias 21 a 27/07/2016.
– O ator estreante, paulistano, Noemi Nero (Pierre/Felipe) é sobrinho do ator Alexandre Nero (Romero Rômulo, da novela, ‘A Regra do Jogo’).
– O caso do rapto de Pedrinho serviu de inspiração para novela “Senhora do Destino”, 2004/5, de Aguinaldo Silva. O nome verdadeiro dele é Pedro Rosalino Braule Pinto, foi levado da maternidade, em Brasília, por Vilma Martins Costa, criado em Goiânia/GO. Encontrado dezesseis anos depois pela polícia, após denúncia, os teste confirmaram a verdade. Pedrinho é filho de Jayro Tapajós e Maria Auxiliadora Braule Pinto. Até então era chamado de Oswaldo. Logo depois exame de DNA mostrou que, na mesma casa, também registrada como filha legítima, morava Aparecida Fernanda Ribeiro da Silva (personagem Jaqueline, irmã de Felipe, no filme), fora sequestrada havia mais de 23 anos. Pedrinho hoje é casado, pai, advogado, reside em Brasília, DF.
– Outros filmes da diretora Anna Muylaert: “Durval discos” (2002); “É Proibido fumar” (2009) e “Que horas ela volta?” (2015).
Prêmios da carreira da diretora:
– “Melhor Filme e Melhor Direção”, com o filme: “É Proibido fumar”, 30º Festival de Cinema de Gramado, em 2015.
– “Que Horas Ela Volta”, Prêmio Especial do Júri Pela Atuação para Regina Casé e Camila Márdila, Festival de Sundance, EUA; e Prêmio do Público de Melhor ficção na Mostra Panorama, Festival de Berlim, Alemanha; entre outros 11 prêmios ganhos em festivais mundiais.
Ficha Técnica:
Brasil, 2016, 82 min, classificação indicativa: 16 anos
ROTEIRO e DIREÇÃO: Anna Muylaert
PRODUÇÃO: Sara Silveira, Maria Ionescu e Anna Muylaert
COLABORAÇÃO DE ROTEIRO: Marcelo Caetano
DIREÇÃO DE FOTOGRAFIA: Bárbara Alvarez (‘Whisky’; “A Que Horas Ela Volta?”)
DIREÇÃO DE ARTE: Thales Junqueira
DIREÇÃO DE PRODUÇÃO: Cristina Alves
MONTAGEM: Hélio Vilela Nunes e Anna Muylaert
TRILHA SONORA ORIGINAL: Maravilha 8/ Bernard Ceppas
COPRODUÇÃO: Canal Brasil
DISTRIBUIÇÃO: Vitrine Filme
Sérgio Lima de Oliveira (Sérginho), que segundo ele próprio se auto define : “Amante do Cinema e deixa qualquer coisa por um bom filme. Aprecia também filosofia. E a convite, resolveu escrever sobre cinema para o Luiz Müller Blog”. A coluna será publicada todas as sextas-feiras no blog.
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