América Latina/golpe

11 de setembro: Há 43 anos golpe de Estado contra Salvador Allende

O golpe chileno, como tantos outros, não ocorreu de forma inesperada, como um único ato de força, pelo contrário, houveram antecedentes decisivos para que se viabiliza-se o golpe, permitindo o seu sucesso

Erick da Silva no Blog do Sul do Mundo
Salvador Allende

11 de setembro de 1973, o dia em que o presidente do Chile, Salvador Allende, sofreu um golpe de estado, perdendo a vida e levando o país a longos e penosos anos de ditadura militar, comandada pelo General Augusto Pinochet. O golpe chileno, como tantos outros, não ocorreu de forma inesperada, como um único ato de força, pelo contrário, houveram antecedentes decisivos para que se viabiliza-se o golpe, permitindo o seu sucesso.

Allende foi o primeiro presidente influenciado pelas ideias marxistas a ser eleito democraticamente. Representava uma alternativa pacífica para a conquista do poder e de busca de por uma transição gradual para o socialismo. A pioneira tentativa de um socialismo democrático foi violentamente derrotada por uma aliança de setores que promoveram e apoiaram o golpe. A morte de Allende representou o fim da democracia chilena, desembocando em uma sangrenta ditadura que promoveu a primeira experiência de políticas econômicas neoliberais em uma nação.
Antes de ser eleito presidente, Allende era uma importante liderança política chilena que esteve no centro da disputa política em seu país por mais de quarenta anos. Em 1933 ele foi um dos fundadores do Partido Socialista Chileno onde integrou o grupo parlamentar entre 1937 e 1943. Médico como profissão, ocuparia o Ministério da Saúde de 1939 a 1942. Em 1945, foi eleito senador, cargo que exerceu durante 25 anos. Candidatou-se e perdeu as eleições presidenciais de 1952, 1958, 1964 e 1968.

Em 1970 sagraria-se vencedor apoiado pela Unidade Popular, aliança política formada pelos partidos Socialista, Comunista, Radical e o Social Democrata, além de contar com apoio em movimentos sociais e organizações de esquerda não-partidária, com destaque para o MIR, liderado por Miguel Enríquez. Durante seu governo, nacionalizou as minas de cobre, a principal riqueza do país. Além disso, transferiu o controle das minas de carvão e dos serviços de telefonia para o Estado, aumentou a intervenção nos bancos e fez a reforma agrária, desapropriando grandes extensões de terras improdutivas e entregando-as aos camponeses.

O Chile tinha uma democracia longamente estabilizada, sem a rotina de golpes que outras nações vizinhas tinham em seu histórico, por essa razão, apesar da radicalização que setores extremistas expressavam contra seu governo, Allende acreditava que um golpe, a exemplo do que ocorrera no Brasil em 1964, não estava posto na agenda, pois confiava na solidez das instituições de seu país. Uma situação que ilustra esta crença se deu em um momento da prolongada visita de 24 dias que o líder cubano Fidel Castro fez ao Chile em novembro de 1971, quando em uma conversa entre os dois líderes veio à tona a questão militar. O presidente chileno ponderou que naquele país as Forças Armadas eram tradicionalmente neutras, não se intrometiam em política, ou seja, eram estritamente profissionais. Fidel retrucou que essa postura iria ser sustentada até o dia em que os interesses da classe a qual a hierarquia militar pertence fossem tocados. “Nesse dia, tomarão posição, e será contra você”. O prognóstico de Fidel viria a confirmar-se pouco tempo depois.

Sem maioria parlamentar desde o inicio de seu governo, Allende enfrentava uma franca hostilidade de sua oposição no parlamento, o impedindo de promover reformas através do legislativo. As nacionalizações provocaram reação contrária do governo norte-americano, que submeteu ao Chile a um bloqueio econômico informal, que impedia o país de obter empréstimos internacionais ou bons preços para o cobre, principal produto de exportação. Neste momento já ficava claro para Allende que o objetivo da medida era sufocar a economia chilena até que um levante das Forças Armadas colocasse fim a “via chilena para ao socialismo”.A unidade entre os setores oposicionistas foi, em grande medida, alcançada através da liderança dos EUA, que no contexto da Guerra Fria, buscava inviabilizar o socialismo chileno.

Além de sofrer uma forte oposição das principais empresas de comunicação, agravando a situação, em setembro de 1972, iniciou-se uma greve de caminhoneiros financiada pela CIA e comandada por Leon Vilarín, um dos líderes do grupo paramilitar neofacista Patria y Libertad. A paralisação impediu o plantio da safra agrícola no país até 1973. Com o apoio dos industriais chilenos, a estratégia era provocar o desabastecimento de artigos de primeira necessidade no Chile. A partir daí, o clima de tensão foi ficando cada vez mais intenso, com o MIR de um lado e o direitista Patria y Libertad de outro, entrando em conflitos armados.

O clima de terror se aprofundou com atos de sabotagem, como o corte de abastecimento de energia em cidades chilenas, aumentando a tensão e desestabilizando o governo Allende, que encontrava dificuldades para reagir ao cerco. 29 de junho de 1973 marcaria o início da fase final do golpe, quando houve então a primeira tentativa de tomada do poder pela via armada, por meio de uma aliança entre o Patria y Libertad e setores militares chilenos que pretendiam tomar o Palácio de La Moneda, numa operação conhecida como El Tanquetazo. A ação acabou fracassando ao ser descoberta pela inteligência do Exército, então comandado pelo General Prats, leal a ao governo e na defesa da democracia.

O general Pratz tentou pedir a instauração do estado de sítio no país. A solicitação foi acatada por Allende, mas negada pelo Congresso,

facilitando o caminho para a iminente tomada do poder. Prats, que se recusava a participar do golpe militar, renunciando ao seu cargo no Comando,  depois de uma manifestação de esposas de oficiais golpistas diante de sua residência. Foi então que Salvador Allende nomeou um antigo militar que acreditava ser de sua total confiança, o futuro ditador Augusto Pinochet. Um erro que mostrou-se fatal.

Na  fatídica madrugada de 11 de setembro de 1973, o golpe foi disferido quando aviões militares sobrevoaram e bombardearam o palácio presidencial. Em seu interior estava o presidente Allende. Não havia possibilidade de resistência armada contra o forte aparato militar que as forças golpistas possuíam durante seu ataque ao La Moneda. Allende, em um último ato de coragem, não se dispôs a sofrer humilhações e ser exibido como um troféu para os golpistas. Valendo-se da submetralhadora que lhe fora presenteada por Fidel Castro, Allende pôs fim à própria existência.

A morte de Allende deixou um importante legado da primeira tentativa de uma via democrática para construção do socialismo. Mesmo derrotada, ficaram lições valiosas, dentro de suas potencialidades e limites. A ideia emancipatória contida no projeto político simbolizado em Allende segue em muitos aspectos atual, trazendo um inegável apelo para uma necessária emancipação dos povos latino americanos, só possível através de uma aliança entre os setores rebeldes e explorados, como ele próprio afirmaria, “Algún día América tendrá una voz de continente, una voz de pueblo unido. Una voz que será respetada y oída; porque será la voz de pueblos dueños de su propio destino”.

Um pensamento sobre “11 de setembro: Há 43 anos golpe de Estado contra Salvador Allende

  1. Republicou isso em Gustavo Hortae comentado:
    Bem vindos ao inferno. Bienvenido al infierno. Welcome to The Hell.
    > https://gustavohorta.wordpress.com/2016/05/12/bem-vindos-ao-inferno-bienvenido-al-infierno-welcome-to-the-hell/

    “Regozijo? Alguns, certamente.
    Até na favela perto de casa, alguns fogos e comemorações. Traficantes comemoram a liberdade da “iniciativa privada”; seus líderes no poder.
    Só que não! Quem sentirá o retrocesso somos nós, o povo brasileiro.
    Os golpistas traidores e sabotadores, serão satanás.
    O inferno será o nosso. O inferno será todo nosso. Eles são o próprio demo.
    De agora em diante, viveremos uma demo-cracia, como já o fora antes!
    “Aos vencedores, o inferno – Fernando Morais …”

    É. Chegamos lá.

    em tempo, #FORATEMER
    e ,é claro, NATURALMENTE, #FORACUNHA

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