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A desculpa para tudo

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Do Contra

O problema do déficit público é urgente. Os problemas da inflação e do desemprego são urgentes. O problema da corrupção é urgente. A reforma da previdência é urgente. As alterações das regras do ensino médio são urgentes. Michel Temer, literalmente, colocou o país em estado de urgência. O verbo “colocar” é muito diferente do verbo “estar”, que fique bem claro. O verbo “colocar” exige um “responsável”, não é uma mera constatação da realidade, como no verbo “estar”. E se a realidade não constata tal situação do “estar”, existe um motivo para que o tal “responsável” classifique o cenário como urgente, nesse caso: a desculpa perfeita.

Raciocinem comigo, por favor. Qual a estratégia perfeita para colocar em prática um plano altamente questionável e antipopular (derrotado nas últimas eleições)? É simples: basta colocar um bode na sala. Como assim?

Uns dizem que a metáfora do “bode na sala” vem de uma antiga parábola chinesa: um sujeito reclamava que a sua vida em casa estava um inferno, na mesa faltava comida, todos ali discutiam e todos queriam ter razão. Um amigo sugeriu ao sujeito que colocasse um bode na sala. Mesmo estranhando, seguiu seu conselho e a reação foi imediata. O bode, além de sujar o local, ainda exalava um cheiro terrível, ou seja, a situação ficou pior ainda. Devido a isso o bode foi retirado por unanimidade e os ânimos na casa nunca estiveram tão bons após isso. O bode causou tanto problema que eles até esqueceram-se dos outros problemas que tinham.

Ou seja, coloca-se um bode na sala, os problemas “atuais” passam para segundo plano, pois agora existe um problema maior (o bode) a ser resolvido. Com isso, todos passam a concordar que a prioridade número um torna-se a retirada do bode da sala. E como a sujeira e o cheiro são insuportáveis, a retirada do bode pode se dar na base do carinho (medida popular), ou na base do facão (medida antipopular). Para os moradores pouco importa a forma, contanto que o bode seja retirado o quanto antes. Como o dono do facão, na ânsia de usá-lo a torto e direito, martela no fato de que carinho não funcionaria nesse caso, pronto. Está aí uma forma de açoitar o pobre animal na base do facão, sem que esta seja a forma ideal de tratar a situação.

Os atuais governantes do país queriam, desde 2014, trocar os lustres, as cadeiras e as mesas do imóvel chamado Brasil. Mas perderam no voto popular “residencial” para o grupo que preferia apenas dar um “tapa” nos itens, mantendo o mesmo mobiliário já existente. A casa já estava começando a ficar bagunçada, mas ao invés de todos os moradores se unirem para organizá-la, a meia dúzia derrotada, maus perdedores, se reuniu às escuras e decidiu não fazer nada, empurrando aos poucos o tal bode pra dentro do imóvel.

Em 2016, com o bode já sentado no sofá, de patas pro alto, a sujeira e o cheiro se tornaram tão intensos que a solução apontada pelo grupo derrotado nas urnas foi partir para o facão contra o bicho. Só que, sabendo da ameaça eminente, o pobre bode não ia se entregar facilmente, ia lutar e relutar até o final. Ou seja, na base do facão, mesmo com a “intenção” aparente de tirar somente o bode, é muito provável que o estrago seja bem maior dentro do imóvel, com lustres quebrados, cadeiras danificadas, mesas derrubadas. Meta (a retirada dos móveis indesejados) finalmente alcançada.

O governo Michel Temer vem alardeando uma situação caótica no país. Caos que ele mesmo ajudou a produzir e piorar. Diante do desespero de uma perda de emprego, por exemplo, e bombardeada todos os dias por uma mídia parcial, a população se viu obrigada a aceitar ações obtusas como única forma de remediar o tal caos tão alardeado. Então tudo virou assunto urgente. E para amenizar as consequências, qual a solução proposta? Isso aí: facão.

O facão está trabalhando 24 por 7, sem parar. Vai ser facão na aposentadoria, facão nas novas regras da educação, facão na saúde, facão nas privatizações inescrupulosas. Quando a população se der conta, o imóvel onde mora (Brasil) não terá mais o pobre do bode. Mas também não terá cadeira pra sentar, cama para se deitar, prato para comer e etc. Enquanto isso, os poucos rentistas do país irão assar e repartir entre si o bode abatido.

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