direitos sociais/economia

OS PIORES TEMPOS (Por Selvino Heck)

 

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Fila de Desempregados no SINE em Porto Alegre, atrás do Seguro Desemprego que nem todos receberão

O mar definitivamente não está pra peixe. Tampouco a agenda de futuro que se apresenta é promissora, pelo menos à primeira vista.

Serão estes ou serão outros os piores tempos? Em meus quase cinquenta anos de janela, desconfio que os atuais estão entre os mais desafortunados. É preciso, é claro, descontar, ou não esquecer, os anos de ditadura, os piores de todos, nem os anos 1990, do neoliberalismo feroz. De qualquer maneira, os tempos de hoje estão entre os três piores que testemunhei e vivi.

Segunda-feira, 31 de outubro, dia após a eleição de segundo turno, sem ânimo para (quase) nada, fui dar uma banda por Porto Alegre a pé: Centro, Mercado Público, Praça XV, beira do Guaíba, Praça da Alfândega, passei pelo Bom Fim, Parque da Redenção: horas de caminhada, sem rumo, sem destino pré-estabelecido, sem ponto de chegada. Sentir o porto alegre, sentir as ruas, olhar as pessoas, ouvir o vento, ver o clima pós-eleitoral.

Nada, nada. Nenhum sinal de que havia acontecido uma eleição no dia anterior, que teve um vencedor. Minto. Numa banca na Feira do Livro, Praça da Alfândega, ouvi uma conversa. E agora, alguém perguntou. “Ele (o prefeito eleito) já está querendo privatizar a CARRIS?” Era um dos comentários do dia, repercutido pela imprensa, a partir de uma entrevista do prefeito eleito, admitindo a possibilidade de privatização da centenária, desde o tempo dos bondes, empresa pública de transporte coletivo da capital dos gaúchos. Primeira promessa de campanha não cumprida.

Nada mais. Nenhum sinal. Nem euforia, tudo normal, tudo como dantes no quartel de Abrantes. Que pensar do futuro, se a direita foi vitoriosa na cidade do OP (Orçamento Participativo), do FSM (Fórum Social Mundial)?

Abro os jornais que comprei em tradicional banca do Largo Glênio Peres. Duas manchetes chamam a atenção: “Poder de compra das famílias recua quase 10% em dois anos” (Valor Econômico, Brasil, 29,30,31/10.16, p. A20): “Segundo estimativas da Tendências Consultoria Integrada, depois de cair 2,8% no ano passado, o poder de compra dos brasileiros vai encolher mais 7% neste ano, descontada a inflação, num cenário marcado pela retração do crédito e queda da massa ampliada de renda. Em dois anos, é uma queda real de quase 10%.” A outra manchete: “Crise amplia desconto na compra da casa – Com menos de 4 a cada 10 imóveis vendidos no terceiro trimestre, construtoras dão desconto de até 25% no valor” (FSP, Folhainvest, 31.10.16).

Como estou em tempos de ter tempo, vou escarafunchando análises de conjuntura do CAMP (Centro de Assessoria Multiprofissional) feitas no final dos anos 1990, início dos anos 2000. O título de uma delas era ‘Em perigo a nação e sem governo’, declaração ‘ipsis literis’ de Maria da Conceição Tavares na Sociedade de Economia em 28 de maio de 1999: “A partir do governo Collor, com aprofundamento no governo FHC, aplicou-se no Brasil o receituário neoliberal: abertura comercial, privatizações, desregulamentação do mercado, reformas (previdenciária, legislação trabalhista. Poder Judiciário, etc.), reestruturação produtiva.” (Exatamente o filme e as medidas que vemos sendo implementadas em 2016. Não por acaso o presidente ilegítimo elogiou Margareth Thatcher.)

João Pedro Stédile dizia em 29 de julho de 1999, numa análise de conjuntura em curso de formação da Consulta Popular, no CPERS: “O capitalismo brasileiro é dependente há 500 anos. As elites brasileiras sempre desenvolveram modelos econômicos subordinados. Nunca houve uma burguesia nacional, procurando construir um modelo próprio e autônomo de desenvolvimento.”

A crise do final dos anos 1990 era tão grave ou pior que a atual. O Brasil e seu povo superaram aquela. Disse Tarso Genro em Seminário da CUT/RS, em 10 de junho de 1999: “É preciso conjugar a resistência na defesa dos direitos sociais e dos trabalhadores com garantias de novas tutelas para os excluídos, abrindo espaço para a construção de um novo tipo de Estado e um novo tipo de desenvolvimento.”

João Pedro Stédile perguntou, na análise acima referida: ”Por que a indignação existente não se organiza?” E respondeu: “É preciso conhecer melhor as reações populares, como se dão e produzem. Há uma distância entre a raiva e a revolta, entre falar mal e jogar uma pedra, entre ir para casa e ir pra rua. Além disso, a esquerda abandonou muito o trabalho de base. O que precisa é conscientização, visita às pessoas, conversar, formar, preparar. ‘A melhor arma é dar consciência aos pobres’, responde o MST quando perguntam sobre seu suposto armamento.”

Escrevi eu, ‘para concluir’ análise de conjuntura do CAMP, em 18 de junho de 1999: “É, sem dúvida, um quadro nacional e estadual complexo, no qual é difícil arriscar previsões mais ousadas sobre seu desenvolvimento. Mas é certo também que se abrem algumas perspectivas animadoras.” A referência então feita era a perspectiva das eleições presidenciais de 2002/Lula presidente e o então governo estadual gaúcho. Em 1999, Olívio Dutra era o governador do Rio Grande do Sul, sob todos os cercos do governo FHC.

Agora, hoje, 2016, os estudantes estão ocupando escolas por todo Brasil. A estudante paranaense Ana Júlia tornou-se a voz jovem da consciência e da rebeldia. Dia 11 de novembro os movimentos sociais estão chamando uma greve nacional. Novo Fórum Social Mundial acontecerá entre 17 e 21 de janeiro em Porto Alegre.

Os ‘piores tempos’ de outras épocas sempre terminaram. “O que poderá acontecer em 2000”, análise de 15 de dezembro de 1999, termina assim: “De qualquer maneira, não se pode baixar a guarda. Mal se está ganhando uma batalha, ainda não concluída: a guerra continua, e seu resultado final está totalmente em aberto.” Em 2016, como sempre, não está morto quem peleia.

Selvino Heck

Deputado estadual constituinte do Rio Grande do Sul (1987-1990)

Em quatro de novembro de dois mil e dezesseis

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