Lava Jato

Paranóia ajuda a criar estado de exceção (Por Paulo Moreira Leite)

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Por Paulo Moreia Leite no 247

Nós sabemos que a criação de um ambiente político de paranoia ajuda criar uma situação favorável a medidas irracionais, sem base na realidade, que só interessam a quem tem o poder de manipular sensibilidades e forjar falsas consciências para atingir objetivos incômodos demais para serem defendidos a luz do dia.

No grande clássico da história brasileira, para derrubar João Goulart, presidente que sequer conseguiu dar consequências práticas a seu projeto de Reformas de Base, os adversários que fizeram o golpe de 64 criaram o fantasma da ameaça comunista.

Para justificar uma guerra que custou 4 trilhões de dólares e custou centenas de milhares de vidas humanas, o governo de George W Bush fez circular lorota  de que o Iraque de Sadham Hussein ameaçava os países ocidentais com armas de destruição em massa.

Falsa como uma nota de 3 dólares — como também era falso o Plano Cohen, usado pelo primeiro governo Vargas para justificar o golpe do Estado Novo, em 1937.

No Brasil de novembro de 2016, a paranoia em circulação se chama “ameaça à Lava Jato.” Sua função é consolidar a Operação como uma justiça de exceção, acima dos pesos e contrapesos que fazem parte das instituições de toda democracia que se preze. O ponto máximo desse esforço consiste no esforço concentrado desses dias para aprovar novas leis contra a corrupção, que incluem propostas absurdas como legalizar provas ilícitas e um teste sobre a formação moral de candidatos ao serviço publico.

Você pode ser fã de carteirinha do juiz Sérgio Moro. Ou pode ter uma visão crítica da Lava Jato.

Mas é puro delírio falar em “ameaça”. O ponto de vista que sustenta essa visão nada tem de jurídico, nem é democrático. Tenta esconder que as fraquezas da Lava Jato se encontram nela mesma.

O ponto de partida dessa visão é autoritário e tenta convencer o país que a chamada Republica de Curitiba possui o monopólio do que é bom, puro e virtuoso, tendo direito a agir como  um Poder Supremo, contra qual toda crítica é suspeita,   toda divergência expressa falta de patriotismo e qualquer ressalva esconde cumplicidade com o crime.

Dos acordos de leniência para preservar empresas que são patrimônio da população ao transito em julgado que assegura a presunção da inocência todas as portas tem sido fechadas. O mais recente vazamento contra Lula, que envolve a reforma de uma piscina no Alvorada onde Michel Temer, a família e os convidados podem banhar-se, mostra um espetáculo cada vez mais deprimente, que já chegou ao nível do escracho.

Para acreditar que  a Lava Jato esteja correndo perigo, é preciso desconsiderar o princípio de realidade, que permite distinguir fatos verdadeiros daquilo que só existe na imaginação. Em nome única e exclusivamente do combate a corrupção, executivos dos grandes grupos econômicos e lideranças fundamentais daquele que já foi o maior partido político brasileiro se encontram na cadeia, encarando a perspectivas de longas penas de prisão.  Dois bilhões de dólares foram recuperados em contas secretas no exterior. Setores inteiros do parque industrial de um país que já foi a sexta maior economia do mundo foram destruídos justamente porque se considerou que a ação da Lava Jato — isto é, a apuração de atos ilícitos e a punição de seus responsáveis — era algo tão importante, tão absoluto, tão intocável, que deveria ter prioridade em relação ao emprego e ao bem-estar de milhões de brasileiros, mais valioso do que o futuro e o desenvolvimento do país, mais essencial que o combate a miséria e à desigualdade.

E assim o país avança numa grande marcha para trás, num horizonte onde a perda de direitos democráticos é o primeiro passo para a derrota de conquistas sociais e possibilidades de progresso coerentes  com nossas riquezas naturais do país e as possibilidades construídas pelo esforço de sua população ao longo da história. O país se encontra na fronteira de uma catástrofe que a maioria das nações só enfrentou sob ditaduras lamentáveis pela cegueira política dos governantes, apoiados em métodos ferozes de repressão. Cento e noventa e seis anos após a independência e um longo percurso em busca da soberania do país, a recolonização do Brasil está na ordem do dia.

Esta é a discussão. Cedo ou tarde, ela terá de ser feita. E o país só irá ganhar quando a mistificação for substituída pelo exame sereno dos fatos — única maneira de impedir que uma mentira repetida 1000 vezes se transforme em verdade.

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